Brasil: Desigualdade e individualismo, a triste realidade que nos leva a conviver com o coronavírus | Por Ângelo Augusto

Na ausência de governo, entidades sociais apoiam membros da população com doação de alimentos.
Na ausência de governo, entidades sociais apoiam membros da população com doação de alimentos.

Em 14/04/21, o Jornal Correio Braziliense noticia a dificuldade econômicas e financeiras dos brasileiros[1], destacando que aproximadamente 125 milhões de pessoas, possivelmente, terão dificuldades de alimentar-se bem. O jornal aponta que 6 em cada 10 famílias brasileiras atingem níveis de insegurança alimentar. Segundo esses dados, as consequências econômicas da pandemia agravaram significativamente a situação da desigualdade social que vivíamos. Ainda de acordo com o Jornal, os auxílios partilhados pelo governo não foram e nem está sendo suficientes para suprimir as necessidades de grande parte da população em situação de vulnerabilidade.

 O foco primordial do governo federal[2], desde que a pandemia começou, foi sempre declarada na sustentação da economia, mesmo que ao custo das vidas dos cidadãos. Nessa percepção que enfatiza a preservação da economia e, consequentemente, empregos, a desconexão do intento ocorre quando se transfere a responsabilidade que é do Estado, nesse momento de crise, para o indivíduo. Tratando-se de uma pandemia que tem como solução parcial restrições sociais que causam importantes impactos na economia de um modo geral. As desconsiderações iniciais quanto ao manejo da pandemia, considerando a tremenda desigualdade social e concentração de renda que existem, associados os maus exemplos na condução, as descoordenações de condutas e as falsas promessas de tratamentos sem comprovações, trariam consequências e riscos de endemização, em altos níveis de contaminados e mortos, ao que levaria a necessidade de abertura e fechamento das atividades laborativas, com prejuízos significantes sociais e econômicos. As resoluções dos problemas econômicos e sociais, como consequências dos fatos, vem sendo introjetada e estendida para cada indivíduo nas buscas de soluções particularizadas, levando a desconsideração dos propósitos condicionais e contratuais (constitucionais), aos quais nos fazem identificar como nação. Sem resoluções além das apontadas, as que reforçam o individualismo, os debates entre a população são engendrados pelas disputas das maneiras de aceitação da morte: Ou morreremos de fome, ou da Covid-19. Essa falta de orientação, de direcionamento, a qual permitirá um norte para a grande parte da população, conduz a muitos brasileiros a naturalização da morte[3], seja por um motivo ou por outro. A situação descontrolada da pandemia sem que haja um horizonte temporal, ao qual permita o cidadão vislumbrar um possível retorno a “normalidade”, vivenciando a perda patrimonial e a fome, conduz ao próprio instinto de sobrevivência e leva, particularmente, a um contingente significante da população a aceitar as condições de convívio e risco de morte pela Covid-19.

Recentemente, a CNN internacional[4] pôs em debate a reabertura de escolas, bares e restaurantes no Rio de Janeiro e São Paulo, tendo em vista a alta taxa de ocupação de UTIs (o parâmetro mediador utilizado, devido a cegueira epidemiológica[5]) não indicavam a reabertura, pelo contrário, indicavam medidas de restrições urgentes. Nesse mesmo artigo, é debatido, de forma dura, as maneiras que o Brasil vem adotando para controlar a pandemia, enfatizando o completo descontrole e suas consequências.

Pandemia: Panorama Mundial

De acordo com os dados coletados, esse tópico tem como objetivo discorrer, brevemente, sobre a situação da pandemia em diversos países.

As nações como a Austrália e Nova Zelândia são exemplos de controle pandêmico, com um contingente populacional muito pequeno de vacinados, aproximadamente 6% e 2,1%[6], respectivamente, a pandemia vem sendo controlada por rigorosas medidas de mitigações[7],[8]. Atualmente, as populações dos dois países estão vivendo, praticamente, dentro de uma normalidade controlada.

De outro modo, amparados pelas restrições severas e mais prolongadas causadas pelos descontroles iniciais, assim como, a vacinação em massa com os melhores imunizantes, estão os Estados Unidos da América (EUA) e o Reino Unido (RU), 24,6% e 13,4% da população imunizada[9], respectivamente, estão entre os países que têm maiores números de óbitos, sendo que, atualmente, o RU esboça controle com queda significante no número de óbitos diários, mas os EUA ainda apresentam grande número de infectados e mortes. Os EUA tiveram aumento de contaminados em 10% na última semana, sendo que o CDC – Centro de Controle de Doenças Contagiosas – está alertando a todo tempo sobre os riscos causados pelo relaxamento das restrições[10].

Em meio aos exemplos, Israel é um dos países que começa a retornar à “normalidade”, após restrição severa e vacinação em massa (59%)[11]. É um país a ser observado rigorosamente nos próximos meses por conta da aceleração da imunização, observando a eficácia e durabilidade dos imunizantes.

A Europa, devido a pouca imunização e ao retorno da “normalidade” (relaxamento das restrições) de forma precoce, sofre a terceira onda pandêmica[12]. O Canadá, atualmente, está em alerta de riscos da terceira onda, baixa imunização e aparecimento de novas variantes, entrará novamente em lockdown[13].

Brasil e Índia, realidades que se assemelham

Todos os países citados no parágrafo anterior apresentam peculiaridades que são ajustadas de acordo com as condições locais. É evidente os impactos relacionados com as particularidades culturais e os níveis de igualdades sociais. Hodiernamente, na Índia, atual epicentro mundial de contaminação, as questões relacionadas a cultura, desigualdade social e baixa imunização estão sendo importantes fatores de contaminações, óbitos e geração de novas variantes virais[14],[15]. Não diferentemente da Índia, o Brasil encontra-se em uma escalada de contaminação e mortes pelo coronavírus, a qual não esboça solução definitiva, os dois países apostam tudo nas vacinas[16],[17],[18],[19]. Particularmente referindo ao Brasil, as ausências de soluções que possam diminuir a circulação e o contato entre as pessoas, associado a baixa e lenta imunização, conduz o Brasil a Endemização, isolamento e geração de novas variantes[20]. Em pronunciamento do dia 09/04/21[21], a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou que, infelizmente, o Brasil não irá domar a pandemia somente com a vacina, reafirmando outro pronunciamento global realizado no dia 09/11/20[22].

No Brasil, as estratégias baseadas em “ocupação hospitalar” que libera as atividades de acordo com a taxa de ocupação dos leitos, tornam-se, cada vez mais, confusas e criativas. Fugindo das intrujices e transcrevendo claramente o que as estratégias norteiam são efeitos “sanfona” (abertura e fechamento das atividades com frequência)[23], ou seja, somados a lentidão das imunizações, permitirão a circulação viral e geração de novas variantes. Outra questão é que, de acordo com o ritmo de vacinação, quando chegarmos a metade da população imunizadas, caso os imunizantes apresentem os efeitos desejados, teremos que revacinar as primeiras pessoas que foram imunizadas.

A situação do Brasil, tal como outros países do mundo com grande desigualdade social, é muito caótica. A população de vulnerados que, sem amparo do governo, não conseguirá ficar em casa, é muito grande. As desconsiderações iniciais, quanto a evolução da pandemia, foram deveras significantes, e representam o completo descontrole, assim como aos conflitos de pensamentos, morrer de fome ou da Covid-19, ao qual nos encontramos. A população está cansada das perdas financeiras, do isolamento social, principalmente, dos riscos de contaminação e óbitos. Sem um direcionamento do Estado, no intuito constitucional de proteger e preservar a vida, direito fundamental, a própria população admite os riscos de viver com a pandemia e parte para a exposição ao vírus.

Conclusão

Portanto, o despreparo e a visão dogmática que nos conduziu a propagação e o descontrole da pandemia, expõem os vulnerados. Quando se pensa no planeta, os países que estarão mais expostos, as drásticas consequências da pandemia, serão os países mais pobres e que vivem a margem. Quando se pensa em uma nação, a lógica é que a população menos favorecida serão os mais susceptíveis. A solução para o planeta adoecido pela pandemia terá que ser global, não adiantarão nada as soluções isoladas de algumas nações. Caso as vacinas não resolvam a pandemia, a curto e médio prazo, o vírus retornará até completar o seu ciclo de destruição. O mesmo acontecerá naqueles países, caso não se encontrem soluções para todos os cidadãos, principalmente, os mais vulnerados.

As estratégias de abertura e fechamento, efeito “sanfona”, somente aumentarão o sofrimento econômico, psíquico e social, cronificará a doença (Endemização da Pandemia) permitindo a convivência contínua com o vírus e suas mutações, assim como, trará a falsa ideia para a população das resoluções dos problemas em momentos com diminuições das contaminações.  Sem a imunização em massa em curto espaço de tempo, pela falta de imunizantes, os melhores exemplos que nos restam são os da Nova Zelândia e Austrália, que executaram severa medidas de mitigação, infelizmente é um remédio amargo, o qual deverá ter amparo do governo federal.

Estamos em um momento muito difícil da pandemia, principalmente nos países subdesenvolvidos. Os embrolhos dos desgovernos, as faltas de coordenações estratégicas, o individualismo das nações ricas, tudo isso empurram a humanidade ao abismo. A solução para a pandemia, como apontada no início desse tópico, terá que ser revista, em uma sequência de fatos que envolvam todos, sem deixar ninguém para traz, ou caso contrário, um foco de infecção voltará a multiplicar por milhares novamente.

 A opção de ter que conviver com a pandemia, não queremos, assim como se acostumar com a morte pela Covid-19. A própria pandemia nos ensina o que espera dos seres humanos: humildade, coletivismo e entendimento global.

“A sua liberdade de não querer se cuidar, me atinge…”

*Ângelo Augusto Araújo, MD, MBA, PhD (angeloaugusto@me.com), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.


Referências

[1] Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2021/04/4918113-brasil-tem-125-milhoes-de-pessoas-que-nao-sabem-se-vao-se-alimentar-bem.html, acessado em: 17/04/2021

[2] Disponível em: https://www.folhape.com.br/noticias/bolsonaro-diz-ver-excesso-de-preocupacao-com-covid-19-que-matou-55/145134/, acessado em: 17/04/21

[3] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/os-riscos-de-naturalizacao-da-morte-pela-covid-19-no-brasil-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 17/04/2021

[4] Disponível em: https://edition.cnn.com/2021/04/12/americas/brazils-covid-crisis-lockdowns-intl-latam/index.html, acessado em: 17/04/2021

[5] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/brasil-e-covid-19-uma-historia-de-cegueira-epidemiologica-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 17/04/2021

[6] Disponível em: https://g.co/kgs/8h3sxr, acessado em: 17/04/2021

[7] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2021-01/australia-devera-manter-fronteiras-fechadas-em-2021, acessado em: 17/04/2021

[8] Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/com-pandemia-sob-controle-nova-zelandia-comecara-vacinacao-em-massa-apenas-no-segundo-semestre-24950039, acessado em: 17/04/2021

[9] Idem 6

[10] Disponível em: https://edition.cnn.com/2021/04/16/health/us-coronavirus-friday/index.html, acessado em: 17/04/2021

[11] Ibidem 9

[12] Disponível em: https://www.euronews.com/2021/03/29/at-a-glance-guide-to-understanding-europe-s-third-wave-of-covid-19, acessado em : 17/04/2021

[13] Disponível em: https://edition.cnn.com/2021/04/16/americas/trudeau-on-covid-19-third-wave/index.html, acessado em: 17/04/2021

[14] Disponível em: https://www.globaltimes.cn/page/202104/1221219.shtml, acessado em: 17/04/2021

[15] Disponível em: https://www.usnews.com/news/best-countries/articles/2021-04-15/india-faces-a-health-crisis-as-covid-19-cases-soar, acessado em: 17/04/2021

[16] Disponível em: https://www.tribuneindia.com/news/features/fear- Referências

[1] Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2021/04/4918113-brasil-tem-125-milhoes-de-pessoas-que-nao-sabem-se-vao-se-alimentar-bem.html, acessado em: 17/04/2021

[2] Disponível em: https://www.folhape.com.br/noticias/bolsonaro-diz-ver-excesso-de-preocupacao-com-covid-19-que-matou-55/145134/, acessado em: 17/04/21

[3] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/os-riscos-de-naturalizacao-da-morte-pela-covid-19-no-brasil-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 17/04/2021

[4] Disponível em: https://edition.cnn.com/2021/04/12/americas/brazils-covid-crisis-lockdowns-intl-latam/index.html, acessado em: 17/04/2021

[5] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/brasil-e-covid-19-uma-historia-de-cegueira-epidemiologica-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 17/04/2021

[6] Disponível em: https://g.co/kgs/8h3sxr, acessado em: 17/04/2021

[7] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2021-01/australia-devera-manter-fronteiras-fechadas-em-2021, acessado em: 17/04/2021

[8] Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/com-pandemia-sob-controle-nova-zelandia-comecara-vacinacao-em-massa-apenas-no-segundo-semestre-24950039, acessado em: 17/04/2021

[9] Idem 6

[10] Disponível em: https://edition.cnn.com/2021/04/16/health/us-coronavirus-friday/index.html, acessado em: 17/04/2021

[11] Ibidem 9

[12] Disponível em: https://www.euronews.com/2021/03/29/at-a-glance-guide-to-understanding-europe-s-third-wave-of-covid-19, acessado em : 17/04/2021

[13] Disponível em: https://edition.cnn.com/2021/04/16/americas/trudeau-on-covid-19-third-wave/index.html, acessado em: 17/04/2021

[14] Disponível em: https://www.globaltimes.cn/page/202104/1221219.shtml, acessado em: 17/04/2021

[15] Disponível em: https://www.usnews.com/news/best-countries/articles/2021-04-15/india-faces-a-health-crisis-as-covid-19-cases-soar, acessado em: 17/04/2021

[16] Disponível em: https://www.tribuneindia.com/news/features/fear-hope-as-covid-vaccine-rolls-out-196456, acessado em: 17/08/2021

[17] Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/12/15/world/heres-why-brazils-covid-19-vaccine-plan-is-mired-in-chaos.html, acessado em: 17/04/2021

[18] Disponível em: https://www.infomoney.com.br/economia/e-um-momento-de-profunda-esperanca-para-nos-diz-doria-sobre-butanvac-vacina-contra-covid-19-100-brasileira/, acessado em : 17/04/2021

[19] Disponível em: https://indianexpress.com/article/opinion/editorials/covid-vaccination-drive-coronavirus-cases-pm-narendra-modi-7148080/, acessado em: 17/04/2021

[20] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2021/01/brasil-e-a-covid-19-geracao-de-novas-variantes-exportacao-isolamento-e-risco-de-maior-catastrofe-humana-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 17/04/2021

[21] Disponível em: https://www.folhape.com.br/noticias/brasil-nao-conseguira-domar-pandemia-so-com-vacina-diz-oms/179547/, acessado em: 17/04/2021

[22] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/11/09/oms-tedros-adhanom-afirma-que-vacina-nao-resolvera-vulnerabilidades.htm, acessado em: 17/04/2021

[23] Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/07/06/interna-brasil,869670/sem-vacina-brasileiros-devem-se-acostumar-com-efeito-sanfona-do-isola.shtml, acessado em 17/04/2021

Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: angeloaugusto@me.com), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.