STJ mantém prisão de quatro desembargadores do TRT do Rio de Janeiro; Magistrados são investigados na Operação Mais Valia

Nancy Andrighi, ministra do STJ.
Nancy Andrighi, ministra do STJ.

Por unanimidade, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu hoje (03/03/2021) referendar a decisão da ministra  Nancy Andrighi que determinou a prisão de quatro desembargadores Tribunal Regional do Trabalho (TRT). As prisões foram efetivadas ontem pela Polícia Federal (PF).

Os magistrados são investigados na Operação Mais Valia, que apura o pagamento de vantagens indevidas aos desembargadores para que integrantes de um suposto esquema criminoso fossem beneficiados. O governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e advogados ligados a ele também são investigados.

Em nota divulgada ontem (2), o TRT do Rio informou que está à disposição das autoridades para auxiliar nas investigações. Segundo o tribunal , a Polícia Judiciária acompanhou os policiais federais no cumprimento dos mandados de busca em seu prédio-sede, no centro do Rio.

A investigação

A investigação apura suposto pagamento de vantagens indevidas a magistrados, relacionadas à concessão de decisões judiciais em favor de empresas de transporte e organizações sociais com dívidas trabalhistas em execução. O esquema criminoso teria o envolvimento de escritórios de advocacia integrados por parentes de magistrados.

Ao STJ, o Ministério Público alegou haver prova da materialidade dos delitos e indícios da autoria, e sustentou que a prisão preventiva seria fundamental para interromper a atuação dos integrantes da organização criminosa, protegendo a ordem pública e assegurando a instrução criminal.

Transferências ban​cárias

Segundo a ministra Nancy Andrighi, os autos mostram um vasto acervo de provas – como extratos bancários, reproduções de comunicações por meio de aplicativos de mensagens, documentação de decisões e petições judiciais – que apontam para a suposta prática de crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A relatora destacou que as mais de 160 páginas do pedido do Ministério Público trazem suficientes elementos de convicção de que “haveria uma complexa organização com divisão de tarefas destinadas a obter decisões judiciais relativas ao denominado Plano Especial de Execução da Justiça do Trabalho (Plano Especial de Pagamento Trabalhista), mediante o recebimento de vantagens indevidas, com movimentação de vultosas quantias em dinheiro”.

A ministra acrescentou que, no suposto esquema criminoso, os advogados seriam utilizados como vetores do recebimento das vantagens indevidas pelos magistrados que deram as decisões mencionadas na investigação, o que se infere dos extratos bancários com transferências de dinheiro das contas dos escritórios e dos advogados para os membros do TRT.

Pan​​demia

O esquema investigado teria começado em 2018 e continuado pelo menos até julho de 2020, quando as empresas e organizações sociais teriam sido beneficiadas por decisões judiciais que lhes permitiram suspender o pagamento do plano especial durante a pandemia da Covid-19.

“A manutenção da liberdade dos investigados também implica clara ameaça para a instrução do processo, sobretudo pela possibilidade de destruição de material probatório, como minutas de decisões, contatos eletrônicos e contratos advocatícios firmados com as empresas e organizações sociais supostamente envolvidas no esquema criminoso, além da potencial influência e pressão que as autoridades cujos cargos garantam prerrogativa de função no STJ podem exercer sobre servidores ligados ao Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região”, destacou.

Assim, para garantir a ordem pública e a conveniência da instrução criminal, evitando a destruição de provas, Nancy Andrighi deferiu os pedidos de prisão preventiva.

“Na hipótese concreta, a ordem pública está não só em risco, como em atual, intensa e grave lesão – o que, somado à conveniência da instrução criminal, justifica a adoção da drástica medida da prisão preventiva”, afirmou.

O número deste processo não é divulgado em razão de segredo judicial.

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