O sistema de saúde do Brasil à beira do colapso; General ministro Eduardo Pazuello e capitão presidente Jair Bolsonaro promovem retrocesso sem precedentes

Apesar de repetidos alertas de especialistas, o Brasil caminha para semanas catastróficas da pandemia, como numa tragédia anunciada. Pressão por lockdown se intensifica.
Apesar de repetidos alertas de especialistas, o Brasil caminha para semanas catastróficas da pandemia, como numa tragédia anunciada. Pressão por lockdown se intensifica.

O Brasil vive atualmente o momento mais crítico da pandemia. Tanto o número diário de mortes quanto a média móvel (dos últimos sete dias) bateram recordes, e a taxa de ocupação das UTIs já está acima de 80% em 19 das 27 unidades federativas. A tendência, afirmam especialistas, é a situação piorar.

“Estamos certamente no pior momento da pandemia, com recorde de mortes em 24 horas e UTIs lotadas em todo o país”, resume a microbiologista Natália Pasternak à DW.

Na terça-feira (02/03/2021), chegou-se à marca recorde de 1.641 mortes em 24 horas por covid-19, segundo um balanço do Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass). Levando em conta estimativas da imprensa brasileira, o número de óbitos foi de 1.726, maior marca desde o início da pandemia.

A média de mortes dos últimos sete dias também está em nível sem precedentes – 1.274 óbitos, 23% mais do que há 14 dias, segundo levantamento da imprensa. O total de mortes no país associadas à doença já supera 257 mil.

Uma análise simples das estatísticas mostra o rápido desenvolvimento da pandemia no Brasil. Foram necessários 34 dias para que o número de mortes aumentasse de uma média de 1.000 para 1.100. por dia. De 1.100 para 1.200, precisou-se só de três dias.

Houve 58.237 novos casos registrados na terça-feira, segundo levantamento da imprensa, e a média de sete dias está em 55.318 novas infecções. A cifra é 22% maior do que há duas semanas.

Pandemia fora de controle e uma variante perigosa

Especialistas suspeitam que a atual onda de infecções seja alimentada pela variante P1, descoberta pela primeira vez na região amazônica. Um estudo preliminar publicado nesta semana pela Universidade de Oxford e pelo Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP) sugere que a variante é entre 1,4 e 2,2 vezes mais contagiosa do que a original. A variante, além disso, estaria levando a um alto grau de reinfecção em pacientes já curados.

O fato de que a variante de Manaus tenha sido capaz de emergir e se espalhar tão rapidamente no Brasil é atribuído a medidas de restrição demasiadamente relaxadas.

“A mutação de Manaus e todas as mutações são causadas pela circulação descontrolada do vírus”, diz Pasternak. “Assim, dizer que a variante causou o aumento de casos é incompleto – o aumento da circulação de pessoas por relaxamento da prevenção causou as variantes, que por sua vez podem ser mais transmissíveis e acelerar ainda mais a propagação da doença. Mas elas não surgem no vácuo. Surgem justamente porque o vírus circula livremente.”

Pressão por lockdown

Na segunda-feira, os secretários de Saúde de todos os estados brasileiros pediram medidas drásticas para evitar um colapso do sistema de saúde. Entre eles, a proibição de eventos, o fechamento de escolas, praias e bares, e restrições ao transporte público.

Para eles, viagens aéreas domésticas e internacionais, bem como o tráfego de passageiros sobre terra, também deveriam ser restringidos. Os secretários pediram, como medida mais importante, um toque de recolher nacional entre 20h e 6h e nos fins de semana.

O vice-presidente Hamilton Mourão reagiu de forma crítica. Ele disse que os diferentes comportamentos da população nas regiões não permitem medidas de âmbito nacional.  “E aí como é que você vai fazer isso para valer? Uma imposição? Nós não somos ditadura. Ditadura é fácil”, afirmou.

A microbiologista Natália Pasternak também defende um lockdown: “Se não fizermos nada, vai colapsar tudo: o SUS e a rede privada. E como não temos vacinas em quantidade suficiente, ainda precisamos de um lockdown de verdade. Não é tempo de meias medidas.”

Falta de vacinas

No Brasil, a campanha de vacinação começou no final de janeiro. Até o momento, 7,1 milhões de pessoas foram vacinadas, cerca de 3,3% da população. Mais de 2,1 milhões já receberam a segunda dose.

Em muitas regiões, entretanto, a vacinação teve que ser suspensa nos últimos dias devido à escassez de doses. A aquisição de vacinas teve atraso no segundo semestre de 2020 devido às disputas políticas internas entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. Enquanto Bolsonaro, que é crítico das vacinas, confiava exclusivamente na vacina AstraZeneca/Oxford, Doria firmou uma parceria com a a chinesa Sinovac, fabricante da Coronavac.

Em entrevista no início da semana, o diretor do Instituto Butantan disse que, se não fosse o governo federal, o Brasil já teria vacina desde dezembro. Ele apontou o obscurantismo científico das autoridades como responsável direto pela nova onda explosiva de covid-19.

Dados os problemas do governo federal em fornecer vacinas rapidamente e em quantidades suficientes, cidades já estão procurando alternativas. A Frente Nacional de Prefeitos (FNP), uma federação de cidades com mais de 80 mil habitantes, está planejando selar contratos de fornecimento com os produtores de vacinas por conta própria. O presidente da FNP, Jonas Donizette, exortou os prefeitos a “lançarem mão de todos os instrumentos que têm para evitar a situação dramática de ter de escolher entre quem vai viver ou morrer”.

*Com informações do DW.

Redação do Jornal Grande Bahia
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