Medicações inovadoras para Covid-19, pretendo nunca as utilizar | Por Ângelo Augusto

Angústia existencial, a pandemia e os nossos conflitos.
Angústia existencial, a pandemia e os nossos conflitos.

O Brasil torna-se, mais uma vez, o epicentro mundial de infecções pelo coronavírus[1]. Com números exorbitantes e em uma curva ascendente, somados as poucas esperanças das atitudes proativas dos governantes[2], crescem os medos das pessoas se contaminarem[3], assim como, aumentam as resistências para cumprirem os planos de mitigação[4]. A vontade de todos de retomar os afazeres e retornar a vida ao normal, está em uma trajetória ascendente, juntamente com a quantidades de dias que se passam desde quando começou a pandemia, todavia, nada dela ir embora. Notadamente, somados aos desesperos, voltam a circular nas redes sociais, entre as pessoas que não são da área de saúde, publicações médicas específicas para o tratamento de situações graves da Covid-19, as quais teriam que ser vistas por profissionais altamente qualificados, com bons sensos críticos, para avaliar a confiabilidade e a utilidade de tais informações. Mas, o que levam as pessoas leigas irem atrás desse detalhamento científico, sendo que não tem base científicas para julgá-las?

Desde o início da pandemia, a publicização, sem medidas, de assuntos médicos foram motivos de extensos debates[5],[6]. Esse artigo não tem o objetivo direto de reascender as questões das quais apresentam consequências éticas, legais e sanitárias[7], também, não tem por objetivo demonstrar o poder da publicização de pessoas públicas, as vezes relacionadas com áreas afins, que certifiquem o conhecimento. Entretanto, esse artigo propõe dissertar a resposta para questões filosóficas fenomenológicas, as quais questionam: qual será a intencionalidade de um ser leigo em divulgar assuntos médicos, altamente específicos, para o tratamento da Covid-19? Será que esse modo de agir irá ser uma nova tendência para as diversas outras patologias?

Com o advento da era da informação, os espaços diminuíram e as buscas por informações diversas percorrem dimensões nunca antes imaginadas. As pesquisas médicas por informações específicas, particularizadas, por interesses do indivíduo ou familiar acometido por uma patologia, tornou-se cada vez mais comum[8], o que é, extremamente, natural. As experiências de consultórios demonstram que é habitual, os pacientes trazerem questionamentos sobre as condutas médicas com base nas informações das plataformas de pesquisas[9]. Todavia, as informações trazidas, naturalmente, são debatidas de forma direta com os profissionais de saúde.

Na pandemia, pode-se dizer que a Covid-19 é uma doença com potencial risco de acometimento a todos os indivíduos, a procura e busca de informações, com interesse comum, deixou de ser individual e passou a ser coletiva, contudo, sem os filtros dos profissionais de saúde de bom senso crítico, o que está acontecendo é a divulgação, em massa, de terapias específicas, muitas das vezes, sequer recebeu aval e certificações das suas utilidades[10]. O mais interessante é observar o aparecimento de vídeos com os próprios médicos divulgando e certificando as pesquisas (Os Redentores), a procura do ineditismo e de se tornarem figuras públicas, sem que ocorram sansões éticas efetivas do Conselho Federal de Medicina[11]. Retomando as perguntas pontuadas sob a óptica filosófica, e a espera de que apareçam respostas nas mentes do leitor, pondera-se que, possivelmente, a intencionalidade da publicização de assuntos médicos tão específicos poderá estar relacionada aos seguintes pensamentos[12],[13]:

  • Com a denegação da pandemia, ou seja, não terei medo de ser infectado, pois, caso seja, terei medicamentos. A negação de uma realidade que põe em conflito os interesses do indivíduo, pode conduzir a atitudes como essa, a qual leva a tentativa do convencimento dos outros da realidade pleiteada, mais adeptos que certifique e fortaleça o intento. A tentativa de justificar outra realidade criada, poderá conduzir a conflitos e transtornos psicopatológicos.
  • Um outro pensamento é a aceitação de uma possível infecção com complicações, justificada pela possibilidade de cura e o medo da morte. Naturalmente, a justificativa, para se mesmo e para os outros, não deixa de ser outra criação de realidades, desde que a óptica de julgamento observada não permite a conclusão das evidências. Esse mecanismo poderá ser um conforto temporário, ou até mesmo, causa do aumento dos transtornos de ansiedade.
  • A outra questão levantada nesse artigo está relacionada com a possibilidade de ser uma nova tendência de comportamento social? Nessa questão, a qual requer reflexões diversas, acredita-se que até possa ser uma tendência, todavia se unida a interesses comuns por determinadas patologias. A exemplo: Os riscos de outra pandemia, por um agente qualquer, que poderá por vidas em perigo, talvez, repitam-se as mesmas condutas. Será pouco provável a divulgação, em massa, dos últimos trabalhos científicos com as terapias propostas para o tratamento, por exemplo, da Fibrose Cística.

            Portanto, após ter refletido os estados de ansiedade[14] que possam conduzir as publicizações, o tratamento da Pandemia por Coronavírus é feito com as medidas de mitigação e profilaxia (vacinação). Não importará, pelo ao menos para os não infectados de forma severa[15], se os últimos recursos de tratamentos para Covid[16], serão realizados com Remdesivir, ou outro antiviral qualquer; soroterapia de convalescentes; terapia com anticorpos monoclonais; terapia de privação androgênica, enfim, esses assuntos interessam aos profissionais Médicos Intensivistas, aos conselhos de ética e aos pacientes que precisarão como último recurso[17]. Conclui-se que: Não existe terapias medicamentosas profiláticas que nos protegerão das infecções pelo coronavírus, o que existe para a maioria da população é obedecer às medidas de mitigação e fazer a profilaxia com vacinas, quando disponibilizadas[18],[19]. A esperança das terapias medicamentosas que irão surgir não se pode apagar, todavia, esperamos nunca precisar de tais medicações.

  • Destaca-se que, a fase virêmica (fase com o vírus replicando, circulando na corrente sanguínea e causando infecção) dura em torno de 5 a 7 dias, dependerá de alguns fatores (expostos a seguir). As principais complicações estarão relacionadas com a fase inflamatória da infecção, comumente, a partir do 5º aos 7º dias do início dos sintomas. As terapias antivirais são voltadas aos poucos casos que continuam com viremia (replicação e infecção viral), normalmente, em pacientes com anergia imunológica (imunodeprimidos). As outras terapias citadas no parágrafo anterior são para controlar a fase inflamatória e suas complicações [20].

Em medicina comumente não se utiliza medicações antivirais de forma profilática. Por exemplo: “acho que terei herpes, HIV, dengue… vou tomar um antiviral profilaticamente. Infecções virais previnem-se com profilaxia: uso de condom (camisinha), controle do vetor (mosquito, agulhas, humano, etc.), vacinas…

  • De outro modo, os fatores que podem influenciar a infecção (esclarecendo tópico anterior) são, por exemplo[21],[22]:
  • A imunidade tem que estar “no ponto” (como saberemos?). A imunidade muito forte poderá diminuir o tempo de viremia, mas poderá aumentar a reação inflamatória; a imunidade baixa aumentará o tempo de viremia;
  • Dependentes das cepas virais e dos níveis de respostas ao agente infeccioso (imunidade), o paciente que recebeu pouca carga viral (entrou em contato com poucos vírus), poderá desenvolver ou não um processo infeccioso. O contrário é que, os pacientes que receberam altas cargas virais, comum entre os profissionais da saúde, tendem a ter um processo infeccioso mais grave.

Portanto, todos os tratamentos propostos são para complicações das doenças, as quais ainda em estudo, e, hodiernamente, o que nos resta é a prevenção[23].

*Ângelo Augusto Araújo, MD, MBA, PhD (angeloaugusto@me.com), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.


Referências

[1] Disponível em: https://www.dw.com/en/coronavirus-brazil-struggles-to-keep-pandemic-under-control/a-56858852, acessado em: 19/03/2021

[2] Disponível em: https://english.elpais.com/usa/2021-03-09/bolsonaro-has-turned-brazil-into-a-global-pariah.html, acessado em: 19/03/2021

[3] Disponível em: https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/brasil/79-da-populacao-ve-pandemia-no-brasil-fora-de-controle/, acessado em: 19/03/2021

[4] Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/associacoes-se-posicionam-sobre-medidas-restritivas-no-estado-de-sao-paulo/, acessado em: 19/03/2021

[5] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/hidroxicloroquina-verdades-e-debates-desproporcionais-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 19/03/2021

[6] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/brasil-e-a-covid-19-descontrole-desespero-e-o-clamor-pela-prudencia-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 19/03/2021

[7] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/05/hidroxicloroquina-e-covid-19-aspectos-bioeticos-e-riscos-de-implicacoes-juridicas-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 19/03/2021

[8] Disponível em: https://ibcmed.com/cibercondria-saiba-como-tratar-a-sindrome-do-dr-google/, acessado em: 19/03/2021

[9] Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832008000300010, acessado em: 19/03/2021

[10] Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/02/04/venda-de-remedios-sem-eficacia-comprovada-contra-a-covid-dispara.ghtml, acessado em: 19/03/2021

[11] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/covid-19-e-bioetica-racionalidade-relacionada-ao-ineditismo-e-pertencimento-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 19/03/2021

[12] Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982010000200005, acessado em: 19/03/2021

[13] Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952011000100004, acessado em: 19/03/2021

[14] Disponível em: https://saude.abril.com.br/medicina/buscas-sobre-ansiedade-disparam-na-internet-durante-a-pandemia/, acessado em: 19/03/2021

[15] Disponível em: https://www.covid19treatmentguidelines.nih.gov/therapeutic-management/, acessado em: 19/03/2021

[16] Disponível em: https://www.covid19treatmentguidelines.nih.gov/whats-new/, acessado em: 19/03/2021

[17] Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/clinical-guidance-management-patients.html, acessado em: 19/03/2021

[18] Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/prevent-getting-sick/index.html, acessado em: 19/03/2021

[19] Disponível em: https://www.england.nhs.uk/coronavirus/secondary-care/management-confirmed-coronavirus-covid-19/clinical-medical-management/, acessado em: 19/03/2021

[20] Idem 15

[21] Ibidem 15

[22] Disponível em: https://www.nice.org.uk/covid-19, acessado em: 19/03/2021

[23] Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/coronavirus-covid-19/social-distancing/what-you-need-to-do/, acessado em: 19/03/2021

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Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: angeloaugusto@me.com), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.