Filme de terror indicado ao Globo de Ouro, ‘A Maldição da Mulher que Chora’ conta a história real de um genocídio na América Latina

Cartaz do filme 'A Maldição da Mulher que Chora'.
Cartaz do filme 'A Maldição da Mulher que Chora'.

O nome sugere que se trata apenas de um filme de terror, mas A Maldição da Mulher que Chora, longa-metragem da Guatemala que foi indicado ao Globo de Ouro de 2021, é muito mais do que isso.

Indicado na categoria “Melhor Filme em Língua Estrangeira”, o longa é uma obra histórica, em todos os sentidos. Por um lado, porque é o primeiro filme da história da Guatemala a disputar um dos prêmios mais concorridos da indústria audiovisual.

Mas ele também é um filme histórico porque leva um famoso mito latino-americano — a lenda da mulher que afogou seus filhos e cuja alma, arrependida e amaldiçoada, os procura chorando à noite — para relatar um fato verdadeiro: o genocídio da população maia da Guatemala, uma das piores atrocidades da história da América Latina.

Os crimes aconteceram entre 1981 e 1983, durante a guerra civil na Guatemala (que durou 36 anos, de 1960 a 1996), quando o governo militar realizou uma série de massacres de camponeses maias, acusados ​​de colaborar com guerrilheiros marxistas financiados pela União Soviética e por Cuba.

Dezenas de milhares de indígenas — adultos e crianças — foram brutalmente assassinados e suas aldeias, arrasadas.

O ex-chefe de Estado Efraín Ríos Montt (1982-83) foi condenado por esses fatos em 2013, mas sua sentença foi anulada poucos dias depois. Ele morreu cinco anos depois, deixando uma ferida aberta no país.

A Maldição da Mulher que Chora (“La Llorona”, no original), que é coproduzida pela Guatemala e pela França, é inspirado nesses eventos.

História do país

A protagonista se chama Alma, uma vítima indígena dos massacres, cujos filhos foram afogados na sua frente pelos militares que ameaçaram matá-la caso chorasse.

Alma começa a trabalhar como empregada doméstica na mansão de um militar aposentado, que conseguiu evitar uma condenação por crimes contra a humanidade graças a supostos erros jurídicos durante seu julgamento.

À noite, o homem, agora idoso e doente, começa a ouvir o choro de Alma, levando sua família a acreditar que ele sofre de demência.

Sob essa premissa, o filme revê um dos momentos mais dolorosos da história recente da Guatemala.

A atriz María Mercedes Coroy (à direita) e o diretor Jayro Bustamante posam durante uma sessão de fotos para promover o filme Ixcanul no Festival de Cinema de Berlim, em 2015.

Jayro Bustamante e María Mercedes Coroy também trabalharam juntos no filme Ixcanul, premiado durante o Festival de Cinema de Berlim em 2015.

“Além do orgulho de ter um filme guatemalteco indicado, a história que ele conta é muito relevante. Obrigado”, escreveu no Twitter a deputada e ex-ministra da Saúde da Guatemala Lucrecia Hernández Mack.

A política foi uma das muitas pessoas que usaram as redes sociais para parabenizar o escritor e diretor do filme, Jayro Bustamante.

O cineasta também recorreu às redes para expressar sua alegria com a indicação ao Globo de Ouro. “Obrigado aos @goldenglobes pela nomeação, por abraçar o nosso cinema e a história recente do nosso país que merece chegar ao público internacional”, publicou após o anúncio.

Premiações

Bustamante, 43 anos, natural da comunidade maia de Sololá, no sudoeste da Guatemala, formou-se em Cinema em Paris antes de retornar ao seu país para fundar La Casa de Producción, produtora da maior parte de suas obras.

Antes de A Maldição da Mulher que Chora, que recebeu ótimas críticas e foi eleito o melhor filme estrangeiro pelo prestigioso New York National Board of Review, o diretor já havia sido elogiado por seu filme anterior, Ixcanul, de 2015.

Esse filme, que aborda outro tema delicado — o tráfico de crianças na Guatemala —, tornou-se o primeiro de origem guatemalteca a ser selecionado para concorrer oficialmente no Festival de Cinema de Berlim, onde ganhou o prêmio Alfred Bauer, que distingue filmes que “abrem novas perspectivas na arte cinematográfica.”

Tanto Ixcanul quanto seu longa mais recente são estrelados pela atriz guatemalteca María Mercedes Coroy.

Além de representar a Guatemala no Globo de Ouro, que será entregue no dia 28 de fevereiro, A Maldição da Mulher que Chora é um dos quatro filmes ibero-americanos que concorrem ao prêmio Goya, da Espanha, no dia 6 de março.

Mas só no dia 15 de março se saberá se o filme poderá chegar ao mais alto posto da indústria cinematográfica: o Oscar, cujas indicações serão anunciadas nesse dia.

*Com informações da BBC News.

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