É a própria sociedade quem alimenta e dá vida ao monstro da tirania, diz pesquisadora Marilena Chaui

Marilena Chaui: A servidão é voluntária porque há desejo de servir, há desejo de servir porque há desejo de poder e há desejo de poder porque a tirania habita cada um de nós e institui uma sociedade tirânica, ou seja, a tirania não se encontra no topo do social, mas espalhada por ele e a crueldade se espalha por toda parte.
Marilena Chaui: A servidão é voluntária porque há desejo de servir, há desejo de servir porque há desejo de poder e há desejo de poder porque a tirania habita cada um de nós e institui uma sociedade tirânica, ou seja, a tirania não se encontra no topo do social, mas espalhada por ele e a crueldade se espalha por toda parte.

“Exercício e dignidade heroica do pensamento: este é nosso lugar na luta contra a covardia, a crueldade, a mentira e o cinismo”, refletiu Marilena Chaui, na abertura do Congresso Virtual da UFBA 2021, em 22 de fevereiro. A filósofa e professora sênior da Universidade de São Paulo (USP) fez a conferência de abertura do evento, intitulada “O exercício e a dignidade do pensamento: o lugar da universidade brasileira”, uma aula pública em prol do saber e da recusa a atos tirânicos e negacionistas.

Na conferência (leia na íntegra), a filósofa examinou a conjuntura política a partir de reflexões de pensadores como Michel de Montaigne (1533-1592), Étienne de La Boétie (1530-1563). O olhar dos amigos franceses do século XVI é trazido à atualidade, em especial a análise de ambos sobre os males da tirania na sociedade e da servidão voluntária. O tirano, um homem fisicamente como todos os outros, lembra Marilena, tem o corpo físico expandido ao corpo político, “que dá lhe mil olhos e mil ouvidos para espionar, mil mãos para espoliar e esganar, mil pés para esmagar e pisotear”. Ela afirmou que é a própria sociedade quem alimenta e dá vida ao monstro da tirania. “Por isso, diz La Boétie: não é preciso lutar contra ele, basta não lhe dar o que nos pede; se não lhe dermos nossos corpos e nossas almas, ele cairá”.

Um segundo ponto abordado pela pesquisadora abrange a mentira política, uma “crueldade”, com público cativo, pois “o mentiroso tem a grande vantagem de saber de antemão o que a plateia espera ouvir. Ele prepara sua história com muito cuidado para consumo público, de modo a torna-la crível, já que a realidade tem o desconcertante hábito de nos defrontar com o inesperado para o qual não estamos preparados”.

Chaui então aborda as reflexões de filósofo Theodor Adorno (1903-1969) sobre cinismo. “O cinismo não é apenas a deliberação de mentir, mas a de tornar irrelevante a distinção entre o verdadeiro e o falso”. E continua: “Ora a distinção entre o verdadeiro e o falso é a marca essencial do pensamento e por isso podemos dizer que a crueldade se manifesta como ódio ao pensamento”.

Por fim, Marilena Chaui lembra que a Universidade nasce como uma instituição social – em outras palavras, uma prática social – , autônoma diante de outras instituições sociais, com ordenamentos, regras, normas e valores próprios, “inseparável das ideias de formação, reflexão, criação e crítica”. Ela também destaca que o tempo da docência e da pesquisa se distingue do tempo da política, baseado no imediatismo, no aqui e agora.

“Essa diferença das temporalidades leva a supor que a dimensão sociopolítica da universidade precisa subordinar-se à sua dimensão acadêmica, ou seja, a ação política só pode apropriar-se da pesquisa científica depois que esta estiver consolidada e não pode impor a ela outro ritmo que não o do pensamento”, disse a filósofa. É o heroísmo do pensamento, refletiu, o ato inaugural de uma nova história.

Marilena Chaui, que é pesquisadora nível 1ª do CNPq – o mais elevado grau de reconhecimento de produtividade científica do país – possui um extenso e renomado currículo. Ela foi Secretária Municipal de Cultura de São Paulo (1989-1992), membro do Conselho Nacional de Educação (2002-2006), ganhadora do prêmio Jabuti por Convite à Filosofia e por A nervura do real. Seu livro “O que é ideologia?”  já vendeu mais de 100 mil exemplares. Ela também se dedicou aos estudos da História da Filosofia Moderna e à Filosofia Política, produzindo importantes obras sobre as filosofias de Espinosa e de Merleau-Ponty e sobre as questões da democracia e da crítica da ideologia. Ministrou cursos nas universidades de Paris, Pisa, Bolonha, Córdoba (Argentina), Stanford e Columbia.

*Com informações da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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