Covid-19: Mistanásia, as vidas roubadas | Por Ângelo Augusto

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Desde o início da pandemia, até esta terça-feira (30/03/2021), foram registados 317.646 óbitos no Brasil.
Desde o início da pandemia, até esta terça-feira (30/03/2021), foram registados 317.646 óbitos no Brasil.

Em 31 de março de 21, 11:27h GMT[1], o mundo registra 2.818.762 mortos, com um pouco mais de 01 ano que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou estado Pandêmico[2]. Apesar da quantidade absoluta de óbitos ser questionada, devido as subnotificações, os números representam uma estatística alarmante, os quais nos faz lembrar da importância dos cuidados que devem ser adotados para que o quantitativo não aumente, ou você, ou seu familiar represente mais um número agregado. Todavia, o que os números não trazem, é o sofrimento e a dor das vidas desfeitas, do isolamento e dos últimos momentos em solidão, das famílias que ficaram desestruturadas pela perda de um ente querido, assim como, não observa as lembranças e os sentimentos de não poder fazer nada, nem sequer, a manifestação de uma despedida digna, ou o conforto do abraço das pessoas por alguém que partiu. Essas histórias se repetem a cada dia, o mais triste é saber que muito desses sofrimentos poderiam ter sido evitados, Mistanásia[3].

Ao ver as médias móveis que compõem os números de óbitos pela Covid-19 crescerem todos os dias no Brasil[4], esboçando uma projeção ascendente sem demonstrar sinais de estabilização, a angústia sobre a incerteza de quem será o próximo, para as pessoas que estão conscientes, de fato, do que está acontecendo, cresce juntamente com o esboço da curva que se ascende[5]. No artigo publicado em 22/06/2020, no Jornal Grande Bahia (JGB)[6], “Os riscos da Naturalização da Morte pela Covid-19 no Brasil”, o autor referia se aos riscos de aceitação, introjeção, por parte da população das mortes pela Covid-19, devido aos óbitos dessa causa tornarem-se comuns pela omissão e comissão da gestão pública, a qual reforçava e enfatizava a invulnerabilidade individual do ser. Nesse mesmo artigo, considerava a projeção do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que no Brasil as famílias eram compostas em média por 3 pessoas, então, com 50.617 óbitos, naquela ocasião, desconsiderando as outras relações da pessoa que morreu, teríamos, no mínimo, quase 101.234 ((3-1 morto) x 50.617) seres humanos sofrendo da dor da morte infeliz e evitável, mistanásia. Segundo o último boletim oficial do governo, 30/03/2021[7], o número de óbitos está em 317.646, repetindo a mesma estratégia de cálculo, teríamos aproximadamente 635.292 pessoas sofrendo diretamente pela perda de alguém. Esse número atual, que antes era uma possibilidade distante, começa a apresentar uma realidade, cada vez mais próxima de você (leitor) ao qual os fatos se tornam conhecidos, ou seja, naturalmente boa parte dos habitantes, desse imenso país, já recebeu a notícia da perda de algum conhecido ou familiar para a Covid-19. O fato é que nesse artigo não se pretende debater os números frios e assustadores da estatística, mas a óptica que se intenciona acender é as vidas que estão sendo “roubadas”.

Desde que começou a pandemia, os sinais de alertas, as maneiras, os exemplos e os contraexemplos, foram deveras debatidos e demonstrados sobre as suas formas de controle[8]. O Brasil, desde então, vem ocupando uma posição privilegiada na cadeia de fatos que expõe a Pandemia. A arrogância e o descaso da gestão pública brasileira (necropolítica) desencadearam sentimentos de descredibilização científica, assim como, ascendeu o sentimento de negacionismo[9],[10]. Devido ao descaso das evidências científicas[11], falta de planejamento e as inobservâncias dos exemplos de outras nações, o Brasil tornou-se, atualmente, o epicentro mundial da pandemia[12], com os maiores números diários absolutos de contaminados e mortos[13]. As consequências dessas cadeias de fatos são as grandes demandas em curto espaço de tempo pela procura das unidades hospitalares, colapso[14]. No artigo de 12/05/20, publicado no JGB, o autor alertava sobre a relação entre estruturas ofertadas e demandadas como fatores que implicavam na taxa de mortalidade[15]. Hodiernamente, em algumas localidades brasileiras, mesmo com as estruturas hospitalares chegando ao limite, alguns gestores pouco se mobilizam para ativarem novas unidades hospitalares (aumento da oferta) e determinarem medidas mais restritivas (diminuição da demanda). Os exemplos de outros estados que estão com o sistema de saúde em colapso, e anunciam, oficialmente, as mortes por falta de remédios e vagas nas UTIs[16],[17], parecem não exercer nenhum tipo de sensibilidade para tal percepção, ou parecem anular os pensamentos que articulam as maneiras de adotarem medidas mais restritivas. Já que não conseguem frear a demanda, a não expansão do atendimento hospitalar são justificadas por alguns gestores nas argumentações da falta de recursos humanos[18], então entram pela seara do “se”, ou seja, “se” tivéssemos mais profissionais abriríamos mais vagas hospitalares. Essa sequencias de fatos resultam:

Infográfico do artigo 'Covid-19: Mistanásia, as vidas roubadas'.

Partindo do parágrafo anterior e enfatizando a conjunção condicional “se”, a qual explica a pouca mobilização, todavia, que não justificará as perdas de vidas, utilizando da mesma estratégia, teríamos:

“Se” os gestores estivessem atentos para as recomendações de mitigação, contingenciamento e aos exemplos de outras localidades, não teríamos tanta gente sendo contaminadas e, consequentemente, menor demanda hospitalar e menos óbitos pelas más ou falta de assistência.

“Se” os gestores cuidassem e preservassem melhor o contingente de profissionais da saúde, mesmo com descaso parcial da condição anterior, teríamos condições de ampliar a oferta para assistência hospitalar.

O fato é que a conjunção condicional “Se” reflete o passado, o que está acontecendo são as estruturas ofertadas colapsadas, morrendo pessoas pelas más assistências e ou pelas faltas de assistências, assim como, pessoas com outras morbidades, além da Covid, aflitas por não saber onde ir e morrendo a míngua.

Portanto, a Pandemia vem demonstrando os verdadeiros motivos que jogam o Brasil, um país tão rico, aos piores ranques do mundo de problemas sociais (desigualdade, violência, etc.), econômicos e de saúde pública, pessoas ocupando lugares que não deveriam estar. As inobservâncias (não enfatizando aqui intencionalidade) que fortalece o individualismo, a desobrigatoriedade do compromisso contratual (constitucional) e a falta de sentimento de coletivismo, vêm gerando esses verdadeiros “roubos de vidas”. As vidas estão sendo retiradas, roubadas, de forma precoce e com sofrimento pela angústia do desenvolvimento da doença, em solidão, que culmina com a morte pela falta de ar, assim como, pelos desesperos dos entes que ficaram com a dor de nada poder fazer, sem sequer poder despedir. Muitas dessas mortes sofridas poderiam ter sido evitadas, os sentimentos dos entes que ficaram, a exemplo dos que perderam pessoas que não tinham comorbidades (outras doenças), são de que: os anos de vida dos que partiram foram atenuados, roubados, sonhos desfeitos por causa de uma pandemia que poderia ter sido mais bem controlada, e quem pagará por esse total descaso e desastre humano? Portanto, nada devolverá a vida de quem se foi, essa é a sina humana, contudo, quando a vida é roubada, retirada de forma abrupta pela violência social, ou pelo descaso, falta de assistência, o sentimento de perda é uma dor que dificilmente se apagará, Mistanásia.

*Ângelo Augusto Araújo, MD, MBA, PhD ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.


Referências

[1] Disponível em: https://www.worldometers.info/coronavirus/, acessado em: 31/03/2021

[2] Disponível em: https://www.who.int/director-general/speeches/detail/who-director-general-s-opening-remarks-at-the-media-briefing-on-covid-19—11-march-2020, acessado em: 31/03/2021

[3] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/governo-de-sergipe-descaracteriza-a-recomendacao-internacional-e-assume-a-mistanasia-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 31/03/2021

[4] Disponível em: https://covid.saude.gov.br/, acessado em: 31/03/2021

[5] Disponível em: https://diariodegoias.com.br/coronafobia-a-nova-desordem-mental-nascida-da-pandemia-da-covid-19/, acessado em: 31/03/2021

[6] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/os-riscos-de-naturalizacao-da-morte-pela-covid-19-no-brasil-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 31/03/2021

[7] Idem 4

[8] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/covid-19-epidemiologia-o-caminho-da-salvacao-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 31/03/2021

[9] Disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/11/14/do-panico-coletivo-ao-negacionismo-pandemia-acentua-polarizacao-analisa-psicanalista.ghtml, acessado em: 31/03/2021

[10] Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1981-77462021000100404&script=sci_arttext, acessado em: 31/03/2021

[11] Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/a-ciencia-contra-o-negacionismo/, acessado em: 31/03/2021

[12] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2021/03/12/epicentro-da-pandemia-brasil-reduz-testagem-e-tem-percentual-de-positivos-6-vez, acessado em: 31/03/2021

[13] Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/como-os-n%C3%BAmeros-da-covid-19-no-brasil-se-comparam-aos-do-mundo/a-56963894, acessado em: 31/03/2021

[14] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56551811, acessado em: 31/03/2021

[15] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/05/covid-19-estruturas-ofertadas-e-a-demanda-diferencas-na-mortalidade-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 31/03/2021

[16] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56529822, acessado em: 31/03/2021

[17] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-03/covid-19-prefeito-de-sp-confirma-1a-morte-por-falta-de-leito-em-uti, acessado em: 31/03/2021

[18] Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2021/03/05/interna_gerais,1243505/minas-tem-leitos-de-uti-disponiveis-mas-faltam-medicos.shtml, acessado em: 31/03/2021

Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.