Covid-19: As viagens Psicodélicas das fases coloridas que estabelecem as Restrições | Por Ângelo Augusto Araújo

Isolamento social reduz fluxo das pessoas nas cidades e provoca depressão na economia. Falhas na política pública de controle da pandemia ampliam dificuldades da população e resultam em maior número de doentes e mortos.
Isolamento social reduz fluxo das pessoas nas cidades e provoca depressão na economia. Falhas na política pública de controle da pandemia ampliam dificuldades da população e resultam em maior número de doentes e mortos.

Em meio a catástrofe humana[1], social e econômica, Sindemia, que ocorre nos quatro cantos do Brasil, observa-se o número de contaminados lotarem as unidades de saúde, assim como, pessoas sofrerem até morrerem pela falta de assistência, Mistanásia[2]. A grande maioria dos hospitais encontram-se com filas absurdas das pessoas procurando ser atendidas, pessoas morrem nas ambulâncias, domicílios e, mesmo os privilegiados, aos quais podem utilizar dos serviços de UTIs no ar (pago com os recursos públicos ou não), alguns, encontram dificuldades de achar vagas hospitalares nos diversos lugares pelo Brasil[3]. Entretanto, sendo toda essa problemática evidente, os governos que traçaram os modos de abertura ou restrições das atividades, modelo adotado em quase todo o Brasil, tardam em tomar atitudes enérgicas, de acordo com os planejamentos, e observam as contaminações e mortes baterem nas portas dos cidadãos, aos quais seriam seus tutores. Pergunta-se: Como estão funcionando as fases coloridas que estabeleceram os limites das restrições? Será, mesmo, que um dia iria funcionar?

Desde que começou a pandemia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) traçara os modelos e planejamentos de como deveriam ser contidas e evitadas as contaminações e alastramento do coronavírus[4]. A todo momento eram emitidos alertas dos modos variantes que a infecção se propagava e os diversos cuidados que se deveriam ter. O Brasil encontrava-se em uma posição privilegiada que, mesmo com os exemplos das nações que sofriam de antemão, primeiramente, das consequências causadas pelo alastramento do coronavírus, parecia que existia uma força maior[5], a qual contaminava o pensamento individualista de cada brasileiro, reforçando a ideia que nunca seria atingido pela pandemia, assim como, nós éramos superiores e mais forte, e a contaminação somente aconteceria com os outros. Tudo isso afastava, cada vez mais, o sentimento de coletividade. Todavia, as peças foram caindo e a pandemia nos atingiu de forma moderada na primeira onda, seguimos com altos níveis de contaminação e mortes, tal como, com as notificações deficientes, então chegou a “segunda onda” ainda mais agressiva.

Os gestores públicos estimulados pelas necessidades diversas (econômicas e psicossociais), adaptou-se de um pensamento baseado nos índices de contaminação (localidades estrangeiras que estavam fazendo testagem e rastreamento em massa dos possíveis infectados, os quais indicariam os índices para adotar medidas de restrições[6]) e transformaram, ao modo brasileiro, em fases regidas por bandeiras coloridas que indicariam os aspectos das restrições[7].

As fases dessas bandeiras coloridas que permitiriam as aberturas e fechamento das atividades, determinavam com cores parecidas com os sinais de trânsito, com algumas estratificações, as quais em vermelho sinalizaria: vamos parar tudo; e as verdes indicariam: tudo liberado, mas usem máscaras. O interessante, que devido a falta de controle, testagem e rastreamento, o que balizariam as fases são as taxas de ocupação das unidades hospitalares, principalmente, as UTIs. Desse modo, com o coronavírus espalhado, descontrolado e gerando novas mutações, os gestores que cuidam da população brasileira transcreviam, nos seus devaneios psicodélicos e viajando nas cores das fases: podem se expor a contaminação porque temos hospitais para te socorrer. Bem, será que é, exatamente, isso que está acontecendo? Quais foram os interesses que defenderam quando, mesmo com taxas significantes de contaminação e morte, sinalizaram em verde para o vírus se alastrar? Não deveriam, naquele momento, estarem preocupados e realizar testes em massa, rastreamento e isolamento dos infectados (não tinham mais as desculpas das faltas de testes)? Não deveriam ter se preocupado em providenciar contratos que assegurassem a obtenção e produção de vacinas, o quanto antes?

Portanto, atualmente, a grande maioria dos gestores públicos brasileiros estão com as unidades de saúde praticamente em colapso, mas resistem a adotar as elucubrações dos pensamentos criativos e distorcidos das restrições baseadas em fases, naturalizando a contaminação e morte dos cidadãos. Apostam tudo na vacinação em massa, o que é muito importante, mesmo sendo a maioria dos imunizantes de baixa qualidade, mas esquecem que a imunização agirá como profilaxia e não será tratamento para essa fase da pandemia (grande velocidade de contaminação, altos níveis de infectados e surgimento de inúmeras variantes), ou seja, com as vacinas, os resultados somente serão colhidos 3 a 4 meses após a vacinação. O tratamento para essa fase da pandemia é feito com medidas de restrições severas, vacinação, testagem em massa, rastreamento e isolamento dos infectados, assunto deveras discutido aqui[8],[9],[10]. Caso não seja executado, nesse momento, o que planejaram (restrições baseadas nas ocupações hospitalares – o que fizeram de forma distorcida, parecendo que eles mesmo não acreditam,  ou tentam evitar o remédio amargo, de olho na queda da popularidade,  ao preço de vidas[11]), após a massificação da imunização para todas as pessoas, sem distinção, não façam testes em massa, rastreiem e isolem os infectados remanescente, teremos Endemização em altos níveis, lidas como 3ª onda, 4ª onda… e assim por diante… resultando, com isso, aumento do número de óbitos, das doenças mentais, da violência, da desigualdade, empobrecimento e isolamento do Brasil.

*Ângelo Augusto Araújo, MD, MBA, PhD ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.


Referências

[1] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-03-05/com-colapso-do-sistema-de-saude-faltara-leitos-para-tudo-de-casos-de-infarto-a-acidentes-de-transito.html, acessado em: 09/03/2021

[2] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/governo-de-sergipe-descaracteriza-a-recomendacao-internacional-e-assume-a-mistanasia-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 09/03/2021

[3] Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/o-sistema-de-sa%C3%BAde-brasileiro-%C3%A0-beira-do-colapso/a-56757762, acessado em: 09/03/2021

[4] Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/112656/9789241507134_eng.pdf;sequence=1, acessado em: 09/03/2021

[5] Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/v%C3%ADrus-verbal-frases-de-bolsonaro-sobre-a-pandemia/g-54080275, acessado em: 09/03/2021

[6] Disponível em: https://www.bsg.ox.ac.uk/research/research-projects/covid-19-government-response-tracker, acessado em: 09/03/2021

[7] Disponível em: https://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/saiba-quais-as-medidas-do-governo-de-sp-para-o-combate-ao-coronavirus-2/, acessado em: 09/03/2021

[8] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2021/01/covid-19-a-magia-das-vacinas-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 09/03/2021

[9] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2021/01/brasil-e-a-covid-19-geracao-de-novas-variantes-exportacao-isolamento-e-risco-de-maior-catastrofe-humana-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 09/03/2021

[10] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/covid-19-epidemiologia-o-caminho-da-salvacao-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 09/03/2021

[11] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-03/estados-adotam-novas-restricoes-contra-covid-19, acessado em: 09/03/2021

Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.