A grande ilusão vacinal | Por Fábio Vilas-Boas

Fábio Vilas-Boas, médico e secretário estadual da Saúde da Bahia.
Fábio Vilas-Boas, médico e secretário estadual da Saúde da Bahia.

Governos e sociedade seguem travando batalhas, aqui e ali, mas a guerra contra a Covid19 está cada vez mais longe de ser vencida.

Durante a história da humanidade, muitas guerras foram vencidas pela exaustão, seja de recursos, seja da fé.

Sem alternativa, trabalhamos no modo reativo. Emparedados pelo inimigo, cuidamos de abrir espaços montanha adentro, onde possamos internar mais e mais vítimas e dar-lhes uma chance de sobrevida. Mais hospitais, mais leitos, mais UTIs. Até quando isso será possível? Até quando seguiremos dando corda a esse monstro, tal qual fez o Capitão Pollard, a bordo do seu Essex, em perseguição à Moby Dick (e que ao final ainda destruiu a todos)? Quando partiremos para cima da besta desferir o golpe mortal?

Não vejo significativa possibilidade de interrupção da disseminação da Covid19, no curto prazo. A não ser através de um amplo e irrestrito programa de vacinação, para o qual toda e qualquer vacina, custe o que custar, venha de onde vier, deverá ser empregada. Mas nesse caminho há todos os tipos de percalços. Há falta de humildade e sensibilidade humanitária da ANVISA, mais preocupada em não perder seu espaço no clubinho de agências internacionais; há falta de vontade política, de coragem, de garra, para se romper com todas as barreiras, sejam elas quais forem. Não se há de arguir perda de soberania nacional, quando tantos e tantos países, igualmente soberanos aceitam as regras do jogo, para salvar o seu povo.

Já está bastante claro para todos que, no ritmo que vamos, essa ilusão vacinal está a contribuir para uma falsa sensação de segurança. Mais cruel ainda é a traição à esperança do povo, que vai a se consumir diante da emergência e disseminação de mutações com enorme potencial destrutivo.

Atrasar a imunização da população em plena pandemia é um dos maiores crimes humanitários que nosso país está a cometer. A posteridade julgará os seus dirigentes. Tardiamente, no entanto.

A história se repete e é cruel com os fracos. É hora de alguém assumir o timão.

*Fábio Vilas-Boas, médico e secretário estadual da Saúde da Bahia.

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