O papel da Universidade Moderna, 2 | Por Joaci Góes

Stephan Vincent-Lancrin, analista sênior da OCDE.
Stephan Vincent-Lancrin, analista sênior da OCDE.

Ao exemplar amigo, médico e cidadão estadista Geraldo Leite!

Stéphan Vincent-Lancrin é o responsável pelas análises do Centro de Pesquisa Educacional e Inovação dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com vistas ao aperfeiçoamento das atividades universitárias, como fator de desenvolvimento das áreas em que operam. Daí, sua estreita colaboração com os governos locais e com os demais agentes públicos e privados, parceiros na tarefa comum de promover o bem-estar geral. Suas responsabilidades incluem a contínua formação do capital humano necessário à implementação dos projetos eleitos. Sua rica formação acadêmica, em economia, administração e filosofia, compreende intenso treinamento em cursos na Universidade de Paris-Nanterre e na London School of Economics.  Corroborando o que se vê mundo afora, ele diz que a prosperidade dos povos, na sociedade do conhecimento em que estamos imersos, depende do percentual da população com educação de nível superior, de qualidade. Nessa mesma linha diagnóstica, a CNI-Confederação Nacional das Indústrias, vem, nos últimos anos, explicando a perda de competitividade dos manufaturados brasileiros, no mercado internacional, como derivada da má qualidade de nossa mão de obra que, por sua vez, decorre da má qualidade de nossa educação pública.

É por isso que os países da OCDE centram seus esforços no aumento da extensão e da intensidade da formação universitária de sua juventude. É claro, acentua Vincent-Lancrin, que a qualidade da formação universitária depende muito da qualidade dos ensinos fundamental e básico que, no Brasil, estão a cargo, respectivamente, dos 5.570 municípios e das 27 unidades federadas, na atualidade em estado mendicante. Enfatiza ele que a preservação e valorização dos conhecimentos já adquiridos, inclusive no campo humanístico, correm paralelamente aos trabalhos de pesquisas inovadoras do progresso tecnológico. As sociedades, porém, que priorizam os cursos universitários, em prejuízo da qualidade dos estágios iniciais da educação, aprofundam o fosso das desigualdades, fonte de instabilidade política e infelicidade coletiva. Prova disso é que, no Brasil, o ensino superior gratuito, concebido para assegurar o acesso ao nível superior da juventude pobre, vem, historicamente, operando como o fator mais grave, isoladamente, do aprofundamento das desigualdades sociais, em face da maioria esmagadora do seu alunado ser constituída de jovens egressos das classes mais favorecidas.

O sistema de quotas, do modo populista como foi concebido, para corrigir esse desvio, tem contribuído para reduzir o já baixo padrão da Universidade Pública Brasileira. Mais grave, ainda, porque com o mesmo custo atual, cerca de seis mil e quinhentos Reais por aluno, o número de estudantes pobres, beneficiados com a bolsa, poderia ser de três a quatro vezes maior, sem prejuízo, como hoje ocorre, de critérios meritocráticos, além de acelerar, de modo significativo, o processo de redução das desigualdades. Vincent-Lancrin adverte que, onde as universidades ignoram a necessidade de seu ajustamento aos novos tempos, cresce o número dos que defendem o desaparecimento do ensino superior!!!

O elemento uniformizador da adaptação das universidades aos novos tempos é sua potencial capacidade de fomentar e aperfeiçoar os processos de aproveitamento das possibilidades regionais, grandes, médias e pequenas, como fator de alavancagem da economia, fonte de elevação do emprego e renda de todos os grupos sociais, como acentua o espanhol Manuel Castells. Daí a necessidade de um intercâmbio intenso das universidades com as forças vivas do meio onde operam. O velho preconceito contra os setores produtivos, encarados pela esquerda brasileira que o historiador marxista Ruy Fausto (1935-2020) aponta como das mais atrasadas do Planeta, não tem mais guarida na sociedade do conhecimento em que nos encontramos.

O norte-americano Martin Carnoy enfatiza a importância de associar o conhecimento à elevação da produtividade do trabalho e ao desenvolvimento econômico, como compreensão fundamental do papel que cabe às universidades modernas, na promoção do bem-estar social e redução das desigualdades. Onde isso não ocorre, assiste-se à mais grave das perdas: a fuga de talentos para áreas mais promissoras.

As primeiras universidades que adotaram o modelo voltado para a pesquisa surgiram na Alemanha, na segunda metade do século XIX, padrão que elevou os Estados Unidos à liderança mundial, nos planos econômico, científico, tecnológico, militar e diplomático. E o que têm feito as universidades públicas brasileiras, em geral, e nossa Universidade Federal da Bahia (UFBA), em particular?

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e político.

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