Impeachment do ex-presidente Donald Trump divide Estados Unidos

Julgamento do ex-presidente Donald Trump por incitação à insurreição terá início no Senado americano, podendo culminar na cassação de seus direitos políticos. Mas no interior da Pensilvânia, Trump ainda mantém forte apoio.
Julgamento do ex-presidente Donald Trump por incitação à insurreição terá início no Senado americano, podendo culminar na cassação de seus direitos políticos. Mas no interior da Pensilvânia, Trump ainda mantém forte apoio.

Meses após as eleições presidenciais nos Estados Unidos, faixas em apoio ao então candidato à reeleição Donald Trump continuam penduradas em frente às casas na pequena cidade de Piketown, no estado americano da Pensilvânia. Placas de madeira com propaganda republicana seguem fixadas na neve espessa, como se marcassem território e sinalizassem: “Ainda não acabou.”

Piketown fica a apenas 20 minutos de carro de Harrisburg, capital do estado da Pensilvânia. No entanto, ao se aproximar da cidade maior, a paisagem política muda rapidamente do vermelho profundo para o azul brilhante. O fenômeno pode ser observado em todo o país: a divisão política entre democratas, representados pela cor azul, e republicanos, pela vermelha, se espelha nas linhas geográficas entre o urbano e o rural.

Em Piketown e arredores, cerca de 74% votaram em Trump nas eleições de novembro de 2020. O impeachment do ex-presidente após os tumultos no Capitólio em Washington, em 6 de janeiro último, encontrou pouco apoio entre os residentes dessa pequena vila. Eles permanecem leais a seu líder.

“Impeachment é mero movimento político”

Paula Linn cresceu em Piketown e nunca foi muito interessada em política, mas Trump mudou isso. Como muitos outros apoiadores do republicano, ela acredita que a eleição tenha sido roubada.

“Não é mentira que alguns meios de comunicação estejam encobrindo as 80 mil pessoas que são a favor da América”, afirmou a eleitora de Trump. Ela se referia ao resultado da eleição na Pensilvânia, onde o presidente Joe Biden venceu por cerca de 80 mil votos.

Linn vê o julgamento do impeachment, que se inicia nesta terça-feira (09/02) no Senado, como um mero movimento político. “É tão óbvio, as pessoas que assistem aos noticiários sabem que realmente só quiseram tirá-lo de lá”, diz ela, acrescentando que isso só dividirá ainda mais o país.

Apoiadora de Trump, Paula Linn fala em conspiração comunista

“É assustador, na verdade, muito assustador, porque somos patriotas, não nos deixamos derrubar facilmente. É muito socialista e comunista o que está acontecendo, e muitos de nós parecíamos dormir por muito tempo, mas estamos acordados.”

Questionada se o julgamento levará a mais violência, ela não descarta essa possibilidade. “Espero que não, mas por dentro eu sinto que isso é muito, muito possível”, afirma. “Como você luta nesse tipo de guerra com as mentiras e a imprensa? Acho que haverá mais derramamento de sangue, não sei se as coisas realmente ficarão mais apaziguáveis.”

“Biden não é o homem certo para unir o país”

Para o morador Paul Rieber, o processo de impeachment é “uma completa perda de tempo e um desperdício do dinheiro do contribuinte. É uma tolice!”. Ele também não acredita que Biden consiga unir o país novamente.

“Apenas não acho que ele seja o homem certo para isso. Ele está se esforçando demais para se livrar de tudo o que Trump fez, em vez de talvez tentar melhorar as coisas”, disse Rieber.

Desde que assumiu a Casa Branca em 20 de janeiro, Biden já assinou 29 ordens executivas − um recorde na história americana. Entre elas, há decretos para parar a construção do muro na fronteira entre Estados Unidos e México, derrubar a proibição de entrada de pessoas de vários países de maioria muçulmana, reverter a política que impedia as pessoas transgênero de serem militares e revogar a permissão para o oleoduto Keystone XL. Todas são políticas postas em prática ou iniciadas por Trump.

Para alguns, é importante apontar responsáveis

No centro de Harrisburg, as opiniões sobre o ex-presidente republicano divergem significativamente. “Você viu o que eles fizeram no Capitólio, todas as vidas que foram perdidas? E para quê? Porque Trump sabia que iria perder?”, exclama Scott Fry, que vive na cidade há 50 anos. “Foi errado, a coisa toda estava errada.”

Ele acha que voltar a unir a nação será difícil, mas tem esperança. “Vai ser difícil, com todas as coisas que têm acontecido. Espero que a situação melhore e que todos nós possamos nos unir e combater esta pandemia, para tentar manter uns aos outros a salvo”, afirma.

A opinião dos políticos

No nível político, há muita discordância sobre o efeito do impeachment e como voltar a unir o país. Steve Santarsiero, senador estadual na Pensilvânia, não acredita que o julgamento dividirá mais as pessoas.

“Quem o apoia vai continuar apoiando, quer ele seja impugnado ou não”, diz o político democrata, acrescentando que não julgar Trump “normalizaria esse tipo de comportamento”.

Para Santarsiero, reduzir a polarização nos Estados Unidos dependerá do sucesso de Biden nos próximos seis meses. “Se ele conseguir passar sua motivação adiante, se pudermos vacinar as pessoas e a pandemia for superada, isso abrirá mais oportunidades para compromissos e para fazer as coisas acontecerem.”

Por sua vez, o republicano Doug Mastriano, colega de Santarsiero no Senado estadual, enfatiza a forte conexão de seus eleitores com Trump. Mastriano é um defensor inflexível do ex-presidente e até mesmo participou do comício de Trump antes da invasão do Capitólio em 6 de janeiro. Em sua opinião, o ex-líder “deu voz ao povo esquecido da América”.

Quanto ao impeachment, ele não acha que “contribuirá para curar a nação”. Em vez disso, pensa que a responsabilidade está com Biden. “Uma grande jogada dele seria falar com seus colegas no Senado e dizer: ‘Parem com isso, é muito simbólico, não tem sentido, ele já deixou o cargo'”, disse Mastriano.

A Constituição dos Estados Unidos estipula que, para o impeachment ser aprovado, é necessária uma maioria de dois terços no Senado, o que significa 67 votos. Os democratas só dispõem de 51 votos, contando com a vice-presidente, Kamala Harris, e portanto precisariam do apoio de 16 republicanos.

Analistas acreditam ser improvável que Trump seja condenado, já que o contingente de eleitores irados do ex-presidente ainda age como um fator de dissuasão para muitos senadores republicanos.

*Com informações do DW.

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