Aqui jaz a Lava Jato: nem Deltan Dallagnol, com seu power point, nem Sérgio Moro, compareceram ao funeral | Por Guilherme Boulos

Diálogos revelados na Operação Spoofing apresentam indícios de crimes praticados no esquema entre juiz e procuradores da República.

Sem choro nem vela. O encerramento silencioso da força-tarefa de Curitiba, na semana passada, marcou um final melancólico para a Lava Jato. Nem Dallagnol com seu power point nem Sergio Moro sob os holofotes: ninguém compareceu ao funeral.

A história, sempre irônica, pregou mais uma de suas peças. Coube a Bolsonaro, que se elegeu graças à Lava Jato, selar o fim da operação. Com seu cinismo habitual, disse que resolveu acabar com ela porque “não tem mais corrupção no governo”.

Compreendo o clamor que a Lava Jato e seus heróis produziram na alma de boa parte da população brasileira. Ver grandes empreiteiros, bilionários que sempre tripudiaram da lei, indo parar na cadeia dava a impressão de que o Brasil estava acertando as contas com o patrimonialismo. Parecia que a corrupção estrutural do nosso sistema político estava sendo enfim confrontada. Parecia…

Mas logo ficaram evidentes os objetivos políticos da operação. A atuação para viabilizar o impeachment de Dilma e prender Lula já entrou na galeria dos fatos mais escandalosos da história política nacional. O projeto a princípio não era eleger Bolsonaro. Preferiam os tucanos de estimação. Mas aprenderam que soltar pitbulls é muito mais fácil do que devolvê-los ao canil. O espetáculo lava-jatista alimentou a antipolítica de tal modo que abriu caminho a uma caricatura como Bolsonaro. O mesmo caminho aberto ao grotesco Berlusconi pela operação Mãos Limpas na Itália.

O saldo econômico da Lava Jato não fica atrás. Os setores de óleo e gás, a engenharia pesada e a indústria naval foram devastados no Brasil. A perda no PIB foi de R$ 187 bilhões, segundo a GO Consultoria, com efeito sobre milhões de postos de trabalho.

O jurista Walfrido Warde, no livro “O Espetáculo da Corrupção”, o melhor sobre o tema, definiu a Lava Jato como instrumento de uma guerra comercial. Empresários corruptos devem pagar por seus crimes, mas o país e os trabalhadores não podem pagar junto. Sem falar no argumento “moral” para avançar na privatização da Petrobras e justificar políticas de Estado mínimo.

A Lava Jato acabou, mas as feridas seguem abertas. A divulgação das mensagens dá provas suficientes para o início da cicatrização. Sergio Moro precisa responder criminalmente por suas ações. E o STF, se quiser resgatar a credibilidade perdida, tem que julgar a evidente suspeição nos casos em que Moro atuou contra Lula. Esse acerto de contas não apaga o estrago causado, mas pode ser o ponto de partida para o Brasil superar a lógica do espetáculo judicial e compreender o combate à corrupção a partir de uma profunda reforma política.

*Guilherme Castro Boulos, um professor, bacharel em filosofia, psicanalista, ativista, escritor, político filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL),  é membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e uma das principais lideranças da esquerda no Brasil.

*Publicado no Jornal Folha de S.Paulo, em 9 de fevereiro de 2019.

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Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).