Recuperação econômica global permanece precária, aponta relatório da ONU

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Controle de temperatura corporal.
Controle de temperatura corporal é uma das formas utilizadas para contenção da pandemia da Covid-19. Doença permanece afetando dinâmica da economia global.

As Nações Unidas alertaram nesta segunda-feira (25/01/2021) que o impacto devastador socioeconômico da pandemia da Covid-19 será sentido durante anos, a menos que bons investimentos em economia, na área social e em resiliência climática garantam uma recuperação robusta e sustentável da economia global.

Em 2020, a economia mundial encolheu 4,3%, mais de 2,5 vezes acima do que na crise financeira global de 2009. A modesta recuperação de 4,7% esperada para 2021 mal compensa as perdas de 2020, de acordo com o último relatório Situação e Perspectivas Econômicas Mundiais.

O relatório ressalta que uma recuperação constante da pandemia dependerá não apenas do tamanho das medidas de estímulo e da rápida vacinação da população, mas também da qualidade e da eficácia destas medidas para construir resiliência contra choques futuros.

“Estamos enfrentando a pior crise sanitária e econômica em 90 anos. Enquanto lamentamos a crescente taxa de mortes, devemos lembrar que as escolhas que fizermos agora irão determinar nosso futuro coletivo”, afirmou o secretário-geral António Guterres, que irá falar mais tarde no evento de Davos.

“Vamos investir num futuro inclusivo e sustentável, guiado por políticas inteligentes, investimentos impactantes e num forte e efetivo sistema multilateral que coloque as pessoas no centro dos esforços socioeconômicos”, afirmou o chefe da ONU.

A maioria das economias desenvolvidas, que projetaram um crescimento de 4% em 2021, encolheram 5,6% em 2020, em função das paralisações econômicas e as subsequentes ondas da pandemia, aumentando o risco de medidas de austeridade prematuras que poderiam globalmente tirar dos trilhos os esforços de recuperação. Países em desenvolvimento viram uma contração menos severa, de 2,5%, com uma expectativa de recuperação de 5,7% em 2021, de acordo com as estimativas apresentadas no relatório.

Principais áreas de impacto

O Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (UNDESA) informa que 131 milhões de pessoas foram colocadas na pobreza em 2020, muitas mulheres, crianças e pessoas de comunidades marginalizadas. A pandemia afetou negativamente mulheres e meninas de maneira desproporcional, expondo-as a um maior risco de devastação econômica, pobreza, violência e analfabetismo.

As mulheres representam mais de 50% da força tarefa de profissões de alto risco e setores de serviço intensivo, como comércio, receptivo e turismo, as áreas mais afetadas pelo lockdown. Muitas delas têm acesso limitado ou não têm acesso a proteção social.

Medidas massivas e pontuais de estímulo, totalizando 12,7 trilhões de dólares, evitaram um colapso total da economia mundial e evitaram uma Grande Depressão. No entanto, a disparidade total no tamanho dos pacotes de estímulo lançados pelos países desenvolvidos e em desenvolvimento os colocou em diferentes trajetórias de recuperação, aponta o documento.

O incentivo gasto per capita dos países desenvolvidos tem sido quase 580 vezes maior do que o de  países menos desenvolvidos, embora a média per capita de renda dos países desenvolvidos seja apenas 30 vezes maior do que a dos países menos desenvolvidos. A disparidade drástica ressalta a necessidade de maior apoio e solidariedade internacional, incluindo alívio de dívida para o grupo de países mais vulneráveis.

Além disso, financiar estes pacotes de incentivo acarreta o maior empréstimo de tempos de paz, aumentando o débito global em 15%. Este aumento massivo da dívida irá prejudicar indevidamente as gerações futuras, a menos que parte significativa seja canalizada para investimento sustentável e produtivo e para estimular o crescimento.

De acordo com o relatório, o comércio global diminuiu 7,6% em 2020, em um cenário de interrupção massiva global nas cadeias de suprimento e nos fluxos turísticos. Prolongadas tensões comerciais entre as maiores economias e impasses nas negociações de comércio multilateral já estavam restringindo o comércio global antes da pandemia.

“A crise atual reitera a importância de revitalizar o sistema de comércio multilateral regulamentado para colocar a economia mundial numa trajetória de recuperação robusta e resiliente”, afirmou o sub-secretário-geral do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Liu Zhenmin. “Precisamos tornar o comércio global resiliente a choques para garantir que ele continue a ser o mecanismo de crescimento para os países em desenvolvimento”, ressaltou.

O relatório destaca oportunidades para os países em desenvolvimento caso consigam priorizar investimentos que avancem no desenvolvimento humano, incluam inovação e tecnologia e fortaleçam infraestrutura, incluindo a criação de cadeias de suprimento resilientes.

Ao destacar a importância de investimentos de incentivo, o relatório mostra que enquanto a maioria do gasto com estímulo foi para a proteção de empregos e apoio ao consumo atual, ele também inflou bolhas de preço de ativos em todo o mundo, com os índices de bolsas de valores alcançando novas altas durante vários meses.

“A profundidade e a severidade desta crise inédita prenunciam uma recuperação lenta e dolorosa”, afirmou o economista chefe e assistente do secretário-geral para o Desenvolvimento Econômico, Elliott Harris. “Enquanto entramos numa longa fase de recuperação com o início das campanhas de vacinação contra a COVID-19, precisamos começar a impulsionar investimento de longo prazo que trace o caminho rumo a uma recuperação mais resiliente, acompanhada por uma orientação fiscal que evite austeridade prematura e uma abordagem sustentável reformulada de dívida, esquemas de proteção social universais e aceleração para transição para a economia verde”.

A crise inédita – que matou mais de 2 milhões de pessoas, retirou muitas outras vidas, colocou famílias na pobreza, exacerbou a desigualdade de renda e de riqueza entre comunidades, paralisou o comércio internacional e a economia global – precisa de uma resposta extraordinária. Em última instância, o relatório destaca a importância do alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – o modelo para um mundo mais justo, pacífico e resiliente.

“Promover o crescimento inclusivo e equitativo, reduzir a desigualdade e melhorar a sustentabilidade ambiental é o melhor plano que temos para recuperar da crise e proteger o mundo de crises futuras. Consolidar a resiliência deve guiar cada aspecto da recuperação e veremos as mulheres tendo papéis cruciais como campeãs de resiliência”, acrescentou Maria-Francesca Spatolisano, assistente do secretário-geral para Coordenação Política e Assuntos Interagenciais da UNDESA.

Relatório

Situação e Perspectivas Econômicas Mundiais 2021 é um relatório produzido pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (UNDESA), em parceria com a Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e cinco comissões regionais da ONU. A Organização Mundial do Turismo também contribuiu como o documento.

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Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).