O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço | Por Madalena de Jesus

Amílcar de Jesus, pai da jornalista Madalena de Jesus.
Meu pai, Amílcar de Jesus, amor além da vida.

Muito tempo antes de conhecer o belíssimo texto de Martha Medeiros, que certamente serviu de inspiração para a igualmente bela música do Jota Quest, eu já sabia que o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço. Aninhada nos braços do meu pai ou enlaçada pelo afago de minha mãe, aprendi, bem cedo, o valor do carinho mais verdadeiro que existe. Como fingir o calor que une dois corpos, por inteiro, sem reservas?

Por isso decidi fugir das queixas contra esse 2020 realmente desafiador, em todos os sentidos. Fisicamente todos ficamos – e ainda estamos – expostos a um vírus devastador. Emocionalmente, nos submetemos a um exercício nada fácil, principalmente para pessoas como eu, que têm necessidade quase vital do contato físico, da presença, da conversa, da risada compartilhada, do colo amigo.

Mas como em tudo na vida, há um outro lado. Foi graças a essas renúncias que aprendemos muito. Ficamos mais próximos de quem está mais distante. Paradoxal, mas absolutamente real. Foi também um ano de reencontros. De repente, uma ligação ou uma mensagem via Whatsapp de alguém que eu não tinha notícias há anos, em alguns casos, décadas. E depois outras e outras e mais outras… E isso foi muito bom!

O novo modelo de trabalho (home office), sem dúvida o maior de todos os desafios do ano que se finda, provocou um redemoinho na minha exaustiva rotina para dar conta de dois empregos e mais algumas atividades extra. Apesar do volume maior de demandas, eu ganhei algo que há mais de 40 anos eu não tinha: tempo para ficar em casa. E aí tarefas como cozinhar, lavar roupa e cuidar da casa passaram a ter um novo significado.

Se eu fui feliz em 2020? A pergunta é difícil, especialmente se eu colocar na conta os amigos que perdi para esse vírus invisível e mortal (Robson e Benício, saudade eterna, e em seus nomes minha solidariedade a todas as vítimas da Covid-19) e as dores compartilhadas com os familiares de outros, que venceram a doença. Sem falar do medo que nos acompanha dia e noite, dentro ou fora de casa, disfarçado pela máscara que iguala e, ao mesmo tempo, separa.

Mas certamente chegarei a 2021 mais forte, mais tolerante para umas coisas e mais intransigente para outras – outro paradoxo – principalmente quando está em jogo a empatia. Sim, porque temos que cuidar de nós mesmos para proteger o outro. E esperando não somente a vacina, mas a possibilidade de dar e receber todos os abraços que ficaram guardados desde março, porque “Tudo que a gente sofre/Num abraço se dissolve/Tudo que se espera ou sonha/Num abraço a gente encontra”…

*Madalena de Jesus, jornalista e professora de Língua Portuguesa e Literatura.

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Sobre Carlos Augusto 9605 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).