Covid-19 e Saúde Pública: Estatística Desumanas | Por Ângelo Augusto Araújo

88.383.771 casos da Covid-19 foram registrados no mundo, neste domingo (10/01/2021).
88.383.771 casos da Covid-19 foram registrados no mundo, neste domingo (10/01/2021).

Nas últimas semanas, os casos de Covid-19 vêm aumentando bruscamente em alguns países. Na Europa, por exemplo, países como o Reino Unido[1] e Alemanha[2] impuseram medidas mais duras de controle pandêmico, decretando Lockdown e modificando alguns critérios de finalização do isolamento social de pessoas que tiveram contato com infectados e daqueles que já estão com a doença[3]. As vacinas prometem imunização, contudo até colhermos os resultados da eficácia e da duração dos efeitos imunizantes, teremos, ainda, que aguardar um tempo significativo[4]. Portanto, até lá, a única solução para diminuir os efeitos danosos da pandemia, estará nas mãos dos governos de cada país, destacando a estatística prestada a ética do Dever, os quais tem a obrigação de reafirmar a responsabilidade civil de cada e com cada indivíduo.

A medicina, como toda a ciências naturais, estrutura todos os pensamentos em dados estatísticos, toda a forma de referenciar as patologias que acometem o ser humano, são fundamentadas nas experiências e observações históricas refletida pelos números. A individualidade do ser é transformada em uma escala numérica para facilitar o entendimento da magnitude dos problemas, de massa, que se propõem a enfrentar. Para analisar estatisticamente uma comunidade, no intuito de determina a qual será a melhor maneira de alargar uma compreensão, têm que se realizar correlações estatísticas importantes para mirar os melhores direcionamentos para o controle de uma determinada patologia, nesse caso a Covid-19.

Entretanto, como a pandemia permitiu a visualização de muitas questões problemáticas ligadas as relações do individuo com o indivíduo e do indivíduo com o planeta, esse desastre humano que estamos vivenciando, a pandemia pelo Sars-Cov-2 e suas variantes, esclarece a todos a necessidade de observar a importância do outro, como ser único e diverso, em uma cadeia de fatos que poderá atingir toda humanidade. Então, o que deveremos repensar estatisticamente com as lições que a pandemia nos ensina?

Nos boletins atuais da comunidade europeia, os quais tercem orientações sob a pandemia, como exemplo, os dados estatísticos que apontam o período de incubação, indicam que 99% da Covid-19 manifesta-se entre o 2º e 14º dias[5]. Ou seja, é possível dentro de uma curva de transmissibilidade ocorrerem pacientes que apresentem manifestações da doença antes e após esse período. Outro dado importante[6], é que 37% a 44% das pessoas podem transmitir a doença em estágios pré-sintomáticos.  Ainda observando os dados estatísticos[7], nota-se que as possibilidades dos portadores assintomáticos e sintomáticos leves continuarem carregando cepas virais, possíveis de transmissão, na oro-faringe após 10 dias de teste positivo (RT-PCR) para os assintomáticos, e para os sintomáticos leves, 10 dias + 3 dias sem sintomas, é evidente, por esse motivo, alguns países adotaram critérios de dupla checagem antes da reintegração do individuo, ou seja, repetir os testes novamente (RT-PCR). Todavia, os critérios de controle pandêmico estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde[8], baseando nas fundamentações econômicas e estatísticas, nas quais observam-se as limitações dos recursos para necessidade ilimitadas, recomenda-se que:

  • Quando o indivíduo tiver contato com infectado, deve procurar fazer o teste (RT-PCR), mesmo assintomático. Caso o teste dê negativo não será descartado a possibilidade de vir positivar a posteriori. Caso dê positivo, se o individuo não apresentar sintomas após 10 dias, poderá ser reintegrado a comunidade. Entretanto, caso apresente positivo e tenha sintomas leve, deve esperar 10 dias + 3 dias sem sintomas para reintegrar, ou a quantidade de dias com sintomas + 3 dias sem sintomas (por exemplo: 30 dias sintomático + 3 dias sem sintomas) para se reintegrar[9].

Contudo, o que se discuti aqui não é, especificamente, a fórmula estatística de manejo das observações das cargas virais e riscos de transmissibilidade probabilístico, mas a forma de observações não particularizada dentro do pensamento estatístico desumano utilitário e econômico. Pensamento que desconsidera a probabilidade, possibilidade, pequena de transmissão, que, caso fosse considerada, diminuiria muito os casos de Covid-19 com a retestagem (RT-PCR). Nesse modelo que é adotado pelo país que abriga o maior número de casos e mortes (Estados Unidos da América)[10][11], fica mais que evidente que a preocupação não é com a saúde humana, mas sim com a economia. Visto que, a epidemiologia não serviu para a fundamentação do controle pandêmico, e os números de infectados e mortes batem recordes um dia após o outro, assim como, a aposta está desesperadamente voltada para a eficácia das vacinas.  Alguns países vêm modificando os critérios de alta de isolamento, obrigando as pessoas que testaram positivo, reavaliar com novo teste para afastar a possibilidade de transmissão antes da reintegração comunitária. No Brasil, que segue um modelo de heteronomia desgovernamental[12], existem diversos relatos de pessoas suspeitas que até o momento lutam para fazer o primeiro teste[13].

Portanto, a individualidade e a diversidade do ser estão atreladas ao dia a dia dos profissionais de saúde que, na ponta de linha de uma cadeia produtiva, têm que lhes dar com as particularidades dos seus pacientes, coisa que o sistema desconsidera. Inúmeras vezes, as expectativas dos seres humanos não saem como números que representam uma grande maioria. A transferência de responsabilidades de todo um sistema que desconsidera o indivíduo, mostra como a estatística é observada dentro de um pensamento Utilitarista econômico, desumano, sendo que é desconsiderada a ética do Dever para com todos e suas particularidades. Até as vacinas provarem suas eficácias ou a pandemia consegui convencer as pessoas e os governos da importância do outro, teremos que conviver com o medo e a endemização de uma doença que poderia ser controlada[14].

Os próprios dados que revelam as quantidades de óbitos e contaminados já são estatística desumanas.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

_____________________

Referências

[1] Disponível em: https://www.bbc.com/news/uk-55538937, acessado em 10/01/2021.

[2] Disponível em: https://www.deutschland.de/en/news/coronavirus-in-germany-informations, acessado em 10/01/2021.

[3] Disponível em: https://www.bbc.com/news/uk-wales-55325223, acessado em 10/01/2021.

[4] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/os-desafios-no-desenvolvimento-de-vacinas-para-a-covid-19-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 10/01/2021.

[5] Disponível em: https://www.rivm.nl/en/novel-coronavirus-covid-19/coronavirus-disease-covid-19, acessado em 10/01/2010.

[6] Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/sites/default/files/documents/Guidance-for-discharge-and-ending-of-isolation-of-people-with-COVID-19.pdf, acessado em 10/01/2021.

[7] Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/sites/default/files/documents/COVID-19-Discharge-criteria.pdf, acessado em 10/01/2021.

[8] Disponível em: https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/52318/OPASWBRACOVID-1920080_por.pdf?sequence=1&isAllowed=y, acessado em: 10/01/2021.

[9] Idem 8.

[10] Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/if-you-are-sick/isolation.html, acessado em: 10/01/2021.

[11] Disponível em: https://www.worldometers.info/coronavirus/, acessado em: 10/01/2021.

[12] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/a-heteronomia-desgovernamental-em-tempos-de-covid-19-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 10/01/2021.

[13] Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/11/25/pacientes-com-sintomas-de-covid-19-reclamam-de-demora-no-agendamento-de-testes-e-relatam-falta-de-kits.ghtml, acessado em: 10/01/2021.

[14] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/07/brasil-e-covid-19-endemizacao-sendo-concretizada-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 10/01/2021.

Eficácia da vacinação para imunizar contra o SARS-CoV-2 ainda necessita ser verificada.
Eficácia da vacinação para imunizar contra o SARS-CoV-2 ainda necessita ser verificada.
86.749.940 casos da Covid-19 foram registrados no mundo, nesta sexta-feira (08/01/2021).
86.749.940 casos da Covid-19 foram registrados no mundo, nesta sexta-feira (08/01/2021).
Sobre Ângelo Augusto Araújo 47 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.