Covid-19 e o retorno as aulas: a desconcatenação ideológica | Por Ângelo Augusto Araújo

Pacientes do Amazonas são transferidos para o Pará para tratamento da Covid-19.
Pacientes do Amazonas são transferidos para o Pará para tratamento da Covid-19.

Abordar a desconcatenação ideológica e relacioná-la ao retorno as aulas em plena pandemia, será uma tarefa muito difícil, pois, os inúmeros pontos de vista que deverão ser avaliados, torna o tema de alta complexidade que gerarão inúmeros debates. Todavia, por ser uma interpelação transdisciplinar de grande importância para o desenrolar da pandemia, tenta-se aqui desenvolver o início de debates a partir de uma síntese que tem como prioridade: a preservação da vida humana.

Para fundamentar a discussão, inicialmente, parte-se do princípio de que os impactos psicossociais impostos pela pandemia transpõem as visões históricas do que se viveu até o momento[1]. A mobilidade comportamental da sociedade é parte de um eterno devir que se apresenta dia a após dia. Todas as experiências vividas até então estão em “cheque”, propondo a todos um movimento entrópico que as visões mais assertivas para o futuro transcrevem instabilidade e insegurança. Como será o amanhã? Essa pergunta é proposta como a dúvida eterna de viver, todavia, em tempos que rompem com as ordens experienciadas, tornam-se essa questão mais improvável de ser respondida. Enfim, as experiências passadas nos remetem aos tempos em que os encontros sociais, o corpo a corpo, no qual a interação psico-afetiva fundamentava as bases de formação comportamental do indivíduo, demostrando a importância do outro[2],[3]. As escolas deveriam e devem desempenhar esse papel social, posicionando o individuo em meio da sociedade e facilitando o convívio com a alteridade. Todavia, o que se observa no Brasil, mesmo antes da pandemia, foi o devir para uma nova ordem, na qual prevalece a competitividade, ao invés da ajuda mútua, e o individualismo, ao invés do coletivismo[4]. Esses movimentos sociais e dos indivíduos, em particular, de certo modo, já estavam sendo perceptivos, visto que as pessoas se isolavam em seus aparelhos eletrônicos e as conversas se tornavam, cada vez mais, intermediada pelos áudios, vídeos, interpretações escritas e pelos emojis que descrevem as emoções. As taxas de suicídio entre os jovens[5], anualmente, é parte de uma tendência crescente, claramente agravada pela pandemia, que vem sendo fomentada pelo isolamento social[6].

Na argumentação inicial transcrita, no tópico anterior, descreve-se a importância fundamental da escola como ponto de encontro social e auxílio do posicionamento do indivíduo perante a sociedade. Demonstra-se, ainda, os impactos sociais causados pela a falta de percepção do papel da escola no desenvolvimento psicossocial do indivíduo e sua relação com a alteridade[7]. Destaca-se os efeitos da competitividade e do individualismo, que muita das vezes, é fomentado no ambiente escolar, no sentido de que somente os melhores terão lugar ao sol, como uma das consequências, nos últimos tempos, o consumo de substâncias psicotrópicas bate recordes ano após ano[8], com aumento significativo durante a pandemia[9].

Dada essa argumentação, de certo modo com ponderações, na qual exalta-se o efeito da reabertura das escolas e sua importância no desenvolvimento comportamental do indivíduo, destacando que os modelos atuais propostos para o Brasil deverão ser mais bem discutidos, de outra maneira, pensa-se o indivíduo como vetor de propagação do coronavírus. Recentemente, em conversas com professores do ensino fundamental e médio, existem relatos da ansiedade causada pelo retorno das aulas. Mesmo com o número de estudantes reduzido em sala de aulas, os professores expõem que as atividades comuns, durante os intervalos entre as aulas, ocorrem aglomeração e muito dos estudantes relaxam nos cuidados pessoais. O sentimento de alguns professores é que estão indo de encontro a contaminação viral dia a dia, assim como, os perigos dos estudantes conduzirem os agentes infectantes no retorno aos seus domicílios. Em relato, um professor do ensino médio comenta: “Diariamente, é fácil observar os descuidos das crianças e adolescentes, mesmo em ambiente doméstico que a pessoa é observada individualmente, como será esse cuidado em ambiente coletivo?”

Na atualização número 39 sobre o coronavírus da OMS (Organização Mundial de Saúde)[10] publicada em 21 de outubro de 2020, as observações sobre os riscos da transmissão do coronavírus em escolares são as seguintes:

  • A contaminação pelo coronavírus foi mais frequentemente observada entre os estudantes do ensino médio do que no ensino fundamental.
  • Os estudos demonstram que as crianças menores de 10 anos são menos susceptíveis a infecção do que as de maiores idades.
  • A transmissão entre os adultos que trabalham nas escolas é muito mais comum do que as transmissões entre as crianças.
  • Os estudos de modelos demonstram que o fechamento das escolas causa menos impacto no controle pandêmico de que outras medidas de contenção.

Entretanto, destaca-se aqui que o papel da criança na propagação da pandemia, ainda, não é completamente entendido, vale ressaltar que a intepretação dos dados está vinculada ao desenvolvimento da infecção e não ao processo de ser portador assintomático do vírus. Sendo que, a OMS enfatiza que todas as crianças, de todas as idades, principalmente os adolescentes, podem ser infectados e transmitir o vírus[11].

A racionalidade que leva aos riscos de propagação da pandemia, apontados pela abertura das escolas, segundo a OMS[12], deve ser ponderada aos danos causados para criança com o fechamento das escolas:

  • Dificuldades na aprendizagem.
  • Encerramento dos serviços escolares, como: imunização, refeições, doenças mentais pelo isolamento do convívio social, etc.
  • Riscos de violência doméstica, inclusive abusos sexuais.
  • Problemas em adaptação com educação a distância e dificuldade dos pais de saírem para o trabalho.

Portanto, considerando todos os itens pontuados pela OMS, a instituição que representa os interesses humanos, destaca que deverão ser observados as condições das escolas, as condições sociais e culturais do povo, assim como, a situação da pandemia para prescrever os modos de reabertura escolar, ou seja, as situações devem ser particularizadas.

Seguindo as recomendações e propondo formas próprias de reabertura escolar, alguns países propuseram e vincularam a reabertura das escolas com a testagem e monitoramento de contaminação dos escolares, semanalmente, condicionando a abertura e o fechamento das instituições de acordo com a detecção do número de infectados e riscos de propagação comunitária[13],[14]. Todavia, desde outubro de 2020, quando foi publicado a atualização proposta pela OMS, o número de contaminação, internação e fatalidade (mortes) em crianças e adolescentes está crescendo assustadoramente[15],[16],[17],[18]. Algumas observações descrevem que as novas variantes do Sars-Cov-2 são muito mais letais e agressivas entre os jovens[19],[20],[21]. No dia 04 de janeiro de 2021, vendo os números de casos e mortes pela Covid-19 crescerem exorbitantemente, o Reino Unido[22] decretou o fechamento das escolas e, atualmente, estão questionando se até a Pascoa reabrirá ou não[23]? No Canadá, como diversos outros exemplos pelo mundo, as escolas no estado de Ontário[24] estão fechadas desde dezembro.

No Brasil, vivemos com a endemização da Covid-19[25], mesmo com os anúncios dos aumentos de casos e das novas variantes virais, mais infecciosa e, possivelmente, mais virulentas entre os jovens, a grande maioria dos estados propõe a reabertura das escolas fundamentadas nos argumentos abordados inicialmente, os quais não deixam de ser muito importantes. Todavia, as dificuldades das particularizações e checagens das instituições, somadas a baixa testagem e rastreamento do vírus nas escolas, com certa periodicidade (triagem aleatória com exames, amostras, para afastar os escolares e os trabalhadores adultos contaminados – vinculado ao programa de fechamento ou abertura da escola em uma localidade) [26], além das questões culturais, comportamentais (interação e proximidade), a desigualdade social e vulnerabilidade[27], põem em alerta aos riscos de reaberturas das escolas como um fator de retroalimentação positiva para a pandemia.

Conclui-se que a desconcatenação ideológica, de alguns dos setores da educação, no sentido de enxergar a importância da escola no aspecto de sociabilização (coletivismo), e que a falta de entendimento da necessidade do fechamento das escolas, em algumas localidades, é muito importante para o controle pandêmico[28], podem agravar os riscos da pandemia e gerar lições distorcidas do papel das instituições escolares, enfatizando o individualismo e as prioridades financeiras. Evidentemente, devem ser ponderado os danos ao desenvolvimento psicossocial dos indivíduos, destacando a segurança e o momento crítico que todos nós estamos vivenciando, o qual o foco principal é a preservação da vida. De longe, sabemos que o homem é um ser social, que precisamos da interação com o outro, entretanto, nesse momento os pensamentos dos setores de educação devem estar concatenados na preservação coletiva, que não deixa de ser uma grande lição de civilidade. Sendo assim, as escolas e os seus, respectivos, representantes devem ensinar as lições de coletivismo e respeito a cada indivíduo, fortalecendo a ideia de que, nesse difícil período da vida, todos nós lutaremos juntos e em comunhão. As dificuldades e os transtornos causados pela pandemia deverão ser pensados e resolvidos de forma conjunta, e se for preciso, as escolas ficarão fechadas, dando, com isso, lições de sociabilização (coletividade). A desconcatenação ideológica das escolas e seus representantes, se ligada as pressões financeiras, forçando a abertura das instituições de qualquer maneira, em plena ascendência da pandemia, com o aumento dos riscos de contaminação e mortes, são lições de incivilidades.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

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Referências

[1] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-05/psiquiatras-veem-agravamento-de-doencas-mentais-durante-pandemia, acessado em: 23/01/2021.

[2] PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth D. Desenvolvimento humano. Artmed editora, 2013.

[3] PALANGANA, Isilda Campaner. Desenvolvimento e aprendizagem em Piaget e Vigotski: a relevância do social. Summus Editorial, 2015.

[4] Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872004000100002, acessado em: 23/01/2021.

[5] Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/suicidio-e-segunda-causa-de-morte-entre-jovens-de-15-a-24-anos-diz-oms/, acessado em: 23/01/2021.

[6] Disponível em: https://exame.com/mundo/setembro-amarelo-suicidio-entre-criancas-e-jovens-nos-eua-aumenta-57/, acessado em: 23/01/2021.

[7] Idem 4

[8] Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2020/02/1705441, acessado em: 23/01/2021.

[9] Disponível em: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/06/06/52-usam-psicoativos-para-lidar-com-a-pandemia-no-brasil-diz-estudo.htm, acessado em: 23/01/2021.

[10] Disponível em: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/risk-comms-updates/update39-covid-and-schools.pdf, acessado em: 23/01/2021.

[11] Idem 10

[12] Ibidem 11

[13] Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/community/schools-childcare/indicators.html, acessado em: 23/01/2021.

[14] Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/sites/default/files/documents/COVID-19-in-children-and-the-role-of-school-settings-in-transmission-first-update_0.pdf, acessado em: 23/01/2021.

[15] Disponível em: https://services.aap.org/en/pages/2019-novel-coronavirus-covid-19-infections/children-and-covid-19-state-level-data-report/, acessado em: 23/01/2021.

[16] Disponível em: https://www.inquirer.com/health/coronavirus/coronavirus-children-covid-teens-adolescents-school-reopening-20210115.html, acessado em: 23/01/2021.

[17] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/12/crescem-em-sp-casos-e-internacoes-por-covid-19-entre-criancas-de-ate-dez-anos.shtml, acessado em: 23/01/2021.

[18] Disponível em: https://edition.cnn.com/2020/11/23/health/us-coronavirus-monday/index.html, acessado em: 23/01/2021.

[19] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55409699, acessado em: 23/01/2021.

[20] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/05/es-tem-quase-90-dos-leitos-pediatricos-de-uti-para-covid-19-ocupados.htm, acessado em: 23/01/2021.

[21] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/19/mais-rapida-grave-e-letal-entre-jovens-medicos-relatam-nova-covid-no-am.htm, acessado em: 23/01/2021.

[22] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/01/covid-19-bate-recorde-no-reino-unido-e-eleva-pressao-para-fechar-escolas.shtml, acessado em: 23/01/2021.

[23] Disponível em: https://www.bbc.com/news/education-51643556, acessado em: 23/01/2021.

[24] Disponível em: https://ca.news.yahoo.com/canadas-ontario-weighs-keeping-schools-183417576.html, acessado em: 23/01/2021.

[25] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/07/brasil-e-covid-19-endemizacao-sendo-concretizada-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 23/01/2021.

[26] Disponível em: https://www.gov.uk/guidance/covid-19-paediatric-surveillance, acessado em: 23/01/2021.

[27] Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/09/25/prefeitura-de-sp-define-regras-da-reabertura-de-escolas-para-atividades-em-outubro-alunos-poderao-ficar-no-maximo-2-horas.ghtml, acessado em: 23/01/2021.

[28] Disponível em: https://www.wsj.com/articles/why-some-schools-close-as-covid-19-cases-rise-when-others-stay-open-11605789414, acessado em: 23/01/2021.

Células CCL-81 fortemente infectadas com partículas do vírus SARS-CoV-2. As pequenas estruturas esféricas no centro da imagem são partículas do vírus SARS-CoV-2. As protrusões semelhantes a fios que se estendem das células são projeções celulares ou pseudópodes.
Células CCL-81 fortemente infectadas com partículas do vírus SARS-CoV-2. As pequenas estruturas esféricas no centro da imagem são partículas do vírus SARS-CoV-2. As protrusões semelhantes a fios que se estendem das células são projeções celulares ou pseudópodes.
Ângelo Augusto Araújo
Sobre Ângelo Augusto Araújo 42 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.