Covid-19: A Magia das Vacinas | Por Ângelo Augusto Araújo

Primeiro-ministro Boris Johnson estabeleceu como meta imunizar 25 milhões de pessoas, nas primeiras etapas da vacinação contra a Covid-19.
Primeiro-ministro Boris Johnson estabeleceu como meta imunizar 25 milhões de pessoas, nas primeiras etapas da vacinação contra a Covid-19.

Com aproximadamente 2 milhões de mortos e 95 milhões de contaminados[1], o mundo aguarda ansioso e com muita esperança a vacina para Covid-19. Contudo, o conhecimento médico confronta com um planeta desesperado por uma solução urgente que, “aparentemente”, venha resolver todos os problemas da pandemia. As ciências da saúde catabolizam rapidamente os processos biológicos e os protocolos, no intuito de entregar essa “solução mágica” que atenderá aos anseios dos governos e da população. Os mercados financeiros[2] aplaudem para cada resultado alcançado e a população de alguns países, inclusive o Brasil[3], como já estivesse em posse dos imunizantes 100% eficazes, relaxam nas medidas de contingenciamento e encontra-se, prontamente, preparadas para virar as páginas dos horrores dessa pandemia.

Os países que tardaram, mas compreenderam a importância do planejamento de contingenciamento, fundamentados na epidemiologia, estão em uma corrida contra o relógio para tentar realizar a vacinação em massa e, consequentemente, diminuírem os números de contaminados, afastamento dos labores, demandas por leitos hospitalares e mortos[4]. A responsabilidade civil com seus cidadãos e em posse desse entendimento, fazem com que os governantes dos países que se organizaram, saibam que: não existirão soluções “mágicas das vacinas” que venham resolver, prontamente, os problemas causados pelo Sars-Cov-2. Pois, já é difícil encontrar uma solução para as cepas virais conhecidas do coronavírus, imaginem agora considerando a mutabilidade[5],[6] (A mutação de uma cepa viral é um assunto óbvio e considerado pela ciência, todavia, a prevenção da infecção viral por vacinas torna-se mais difícil quando a mutação viral é acelerada, pois, naturalmente, as vacinas são desenvolvidas para cepas específicas. Novas cepas terão que ser feitos novos testes[7]).  Os testes que irão passar toda a população, quando ocorrer a imunização em grande escala, demonstrarão quão as vacinas serão capazes de imunizar e seus devidos para-efeitos, todavia, isso requererá tempo, e até lá, não descartam a manutenção dos planejamentos de contingenciamento[8].

O Reino Unido (RU), atualmente, tem aproximadamente uma população de 66 milhões de habitantes[9], dentre os quais 12 milhões de pessoas acima de 65 anos[10]. Estabeleceu a meta de imunizar, prontamente, 25 milhões de pessoas, ditas como grupos de alta prioridade, sendo que o governo promete até metade de fevereiro vacinar 15 milhões de pessoas, primeira dose[11]. Em 8 de dezembro 2020[12], iniciou o programa de imunização, encontra-se, atualmente, com 3,2 milhões de pessoas vacinadas, considerando que, de acordo com o tipo de imunizante, necessitará de 2 doses[13]; e fez como reserva de contingência as seguintes vacinas:

Estimativas de vacinas requeridas pelo Governo do Reino Unido.
Estimativas de vacinas requeridas pelo Governo do Reino Unido.

O RU tem como vacinas aprovadas para uso: Pfizer-BioNTech (conservação a -70 ºC), Moderna (-20 ºC) e AstraZeneca (última a ser aprovada, 30 de dezembro, e conservada em temperatura de refrigeração normal).

Em 5 de janeiro de 2021[14], o Primeiro Ministro do RU, Boris Johnson, preocupado com os recentes picos de contaminação e mortes, observando um aumento de 40% dos casos desde a primeira onda, com quase 30 dias após o início da vacinação, tendo como resultado a maior exposição das pessoas e das novas mutações virais observadas (capacidade de transmissão, infecciosidade, 60% a 70% mais alta), veio a público para anunciar que: Mesmo com um programa de vacinação bem estabelecido, e com as promessas dos resultados de imunização, o RU entrará em lockdown, e, possivelmente, estenderá o programa de restrições até a Páscoa[15].

No Brasil, atualmente, inicia-se a segunda onda, mesmo com a aparência de que a primeira onda não ter acabado (endemização[16]). Os casos na Amazonas aumentaram bruscamente, começaram a sinalizarem os mesmos caminhos de contaminação apontados nos primeiros picos da pandemia[17]. Novas variantes virais, mais contagiosas, além da que foi encontrada no RU, são descobertas na Amazonas[18], o mundo volta a olhar com olhos diferentes para a nós, a Itália restringe voos provenientes do Brasil[19]. A falta de planejamento, de organização, de desconsideração, que ficou bem aparente desde o início da pandemia, deixa claro os rastros da soma que nos eleva ao segundo lugar no ranking de contaminados e mortos[20].

Os desesperos e os despreparos na busca por soluções para evitar que essa grande onda que desce da Amazonas tome conta de todo o Brasil, é demonstrado pela falta de habilidade diplomática de um governo que prepara um avião em direção a Índia, para buscar 2 milhões de dose da AstraZeneca, sem se quer ter autorização do governo indiano[21]. E o que nos resta? Ao Brasil, restam as burocracias e morosidades da ANVISA em nome do que pouco tem, Ciências; Aos brasileiros restam 6 milhões de doses da vacina Coronavac, com 50,38% de eficácia (A que provou menor eficácia), produzidas no Butantã em parceria com a China, mesmo contragosto do governo federal, assim como, a falta de planejamento de um governo medíocre, desumano e desorganizado, que desdenhou o tempo inteiro da pandemia, das vacinas, das medidas de contenção do coronavírus, e que carregará os números exorbitantes de contaminados e mortos[22], [23].

Portanto, todos os brasileiros já estão muito cansados, com medo das possíveis consequências e longe da tranquilidade aparente que vivíamos antes da pandemia. Os primeiros experimentos com uso das vacinas, ainda, são insuficientes para definir como serão os próximos períodos, todavia, observa-se que até os resultados se concretizarem, teremos que manter a vida seguindo as mesmas formas de cuidados. As soluções mágicas que esperamos, somente existirão no mundo de contemplação política e econômica. A pandemia está evidenciando diversas problemáticas humanas, principalmente, o individualismo. No Brasil, além do que se encontra evidente, demonstra o retrato de uma sociedade que não se consegue organizar, mesmo diante da morte evitável. A inconsequência do agora, refletirá em óbitos e maiores perdas financeiras no amanhã. As experiências dos países, mais bem organizados, transformadas em números, demonstram que serão necessários tempo e testes para considerar a segurança do cidadão na retomada de seus afazeres. Conclui-se que: a magia da vacina para covid-19, esperada no mundo de contemplação política e econômica, necessitará de tempo e responsabilidade do e com o cidadão.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

_____________________

Referências

[1] Disponível em: https://www.worldometers.info/coronavirus/, acessado em: 17/01/2021.

[2] Disponível em: https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/11/24/bolsas-europeias-sobem-com-noticias-de-vacinas-e-inicio-da-transicao-nos-eua.ghtml, acessado em: 17/01/2021.

[3] Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,dados-do-ibge-mostram-que-populacao-brasileira-relaxou-nas-medidas-de-isolamento-social,70003477833, acessado em 17/01/2021.

[4] Disponível em: https://www.dw.com/en/coronavirus-digest-germany-reaches-1-million-vaccine-doses/a-56248119, acessado em: 17/01/2021.

[5] Disponível em: https://www.japantimes.co.jp/news/2021/01/11/national/science-health/new-coronavirus-variant-japan/, acessado em 17/01.2021.

[6] Disponível em: https://www.bbc.com/news/health-55507012, acessado em: 17/01/2021.

[7] Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-021-00031-00, acessado em 17/01/2021.

[8] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55060895, acessado em: 17/01/2021.

[9] Disponível em: https://www.ons.gov.uk/peoplepopulationandcommunity/populationandmigration/populationestimates, acessado em: 17/01/2021.

[10] Disponível em: https://www.ageuk.org.uk/globalassets/age-uk/documents/reports-and-publications/later_life_uk_factsheet.pdf, acessado em: 17/01/2021.

[11] Disponível em: https://www.bbc.com/news/health-55045639, acessado em: 17/01/2021.

[12] Disponível em: https://www.bbc.com/news/uk-55227325, acessado em: 17/01/2021.

[13] Idem 11

[14] Disponível em: https://www.bbc.com/news/uk-55538937, acessado em: 17/01/2021.

[15] Idem 8

[16] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/07/brasil-e-covid-19-endemizacao-sendo-concretizada-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 17/01/2021.

[17] Disponível em: https://covid.saude.gov.br/, acessado em: 17/01/2021.

[18] Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,nova-variante-do-virus-tem-maior-potencial-de-transmissao,70003583168, acessado em 17/01/2021.

[19] Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/covid-19-italia-proibe-voos-do-brasil-contra-nova-variante-de-virus-24842108, acessado em 17/01/2021.

[20] Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/v%C3%ADrus-verbal-as-frases-de-bolsonaro-sobre-a-pandemia/g-54080275, acessado em: 17/01/2021.

[21] Disponível em: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2021/01/15/azul-diz-que-adiou-voo-que-partiria-para-india-para-buscar-vacina-contra-a-covid-19-nova-data-nao-foi-informada.ghtml, acessado em: 17/01/2021.

[22] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/essa-de-50-e-uma-boa-pergunta-bolsonaro-ao-ironizar-eficacia-da-coronavac.shtml, acessado em 17/01/2021.

[23] Idem 17

Primeiro-ministro Boris Johnson visita as instalações da Oxford Biomedica, empresa responsável por fabricar a vacina Oxford/AstraZeneca contra a Covid-19.
Primeiro-ministro Boris Johnson visita as instalações da Oxford Biomedica, empresa responsável por fabricar a vacina Oxford/AstraZeneca contra a Covid-19.
Ângelo Augusto Araújo
Sobre Ângelo Augusto Araújo 44 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.