Brasil e a Covid-19: Geração de novas variantes, exportação, isolamento e risco de maior catástrofe humana | Por Ângelo Augusto Araújo

No Amazonas, as variantes virais apresentadas são muito mais agressivas do que as observadas anteriormente.
No Amazonas, as variantes virais apresentadas são muito mais agressivas do que as observadas anteriormente.

Em meios ao crescimento assustador de contaminados e mortos pelo Sars-Cov-2, as fronteiras de diversos países começam a ser levantadas [1],[2],[3], ascende no mundo o medo das novas variantes virais, que são muito mais infecciosas e parecem ser mais virulentas (mais agressivas) [4],[5], assim como, a insegurança das vacinas[6], mesmo as que são desenvolvidas com a tecnologia diferenciadas (Pfizer BioNTech e Moderna), por serem uma promessa, e não apresentar dados seguros do seu poder de imunização[7]. Os países desenvolvidos que têm uma grande quantidade de imunizados, não sendo ainda suficientes para conter a pandemia e evitar o surgimento de novos sorotipos virais, declaram guerra ao inimigo, coronavírus, e impõe restrições as nações das quais o Sars-Cov-2 está totalmente descontrolado e com grande possibilidade de mutação[8]. Infelizmente, como era de se esperar, devido a nossas características de enfrentamento da pandemia, o Brasil está ficando isolado do mundo[9],[10]. Com grandes números de variantes virais que são identificadas a cada dia[11],, sendo que observadas a alta agressividade[12] e a péssima estratégia de controle epidemiológico[13], espera-se, no seguimento, uma grande catástrofe humana[14], muito maior do que já está sendo observada[15].

As mutações virais sempre foram os maiores desafios para o desenvolvimento das vacinas[16]. O vírus do HIV é um vírus RNA que carregas características que se assemelham ao coronavírus por ser de grande mutabilidade. A capacidade de modificar, transformar, formar novas variantes, é um traço marcado na filogênese viral, no sentido de adquirir novas características que venham assegurar a sua perpetuação. Por exemplo, supostamente temos um Vírus “A”, ao qual ele é isolado e tem toda as características que o identifica. Quando a vacina é produzida para o vírus “A”, o sistema imunológico irá procurar, identificar e eliminar, o vírus que terá determinadas características. Quando o vírus não encontra barreiras, no caso de um corpo que não tenha sido imunizado, ele penetrará nas células e usando o próprio material biológico do indivíduo infectado, o vírus modificará as suas próprias características, usará disfarce, para driblar o sistema imunológico (Sistema de defesa dos organismos), e continuar a sobrevivência viral e a replicação (reprodução) para causar novas infecções. Esse processo é chamado de mutação com produção de novas variantes (novos disfarces) e são eternos e indefinidos.

As novas vacinas que propõem o modelo RNA, foram premiadas em 2013, após a pesquisa ter sido publicada na revista “Science”[17], porque devido a estudos com o HIV e outra variante do coronavírus, dois cientistas norte-americanos descobriram o processo que levavam os vírus mutantes a adquirirem novos disfarces, era uma proteína capsular (cápsula que envolve o vírus) denominada Proteína F. Essa Proteína é denominada F, por conta da sua capacidade fusional, ou seja, antes, por exemplo, do vírus entrar na célula do hospedeiro ela tem a característica “A”, depois quando o vírus, utilizando dos processos biológicos da célula infectada, replica e sai das células para invadir (infeccionar) novas células, ele transformará (adquirirá novos disfarces – novas variantes), fundindo em outra proteína, e driblará o sistema de defesa, adquirindo novas características, exemplo; vírus Aa, vírus Aa1…vírus Aaz100… assim indefinitivamente.

Esse estudo laureado pela revista “Science”, tornou-se um grande avanço e esperança da medicina para a profilaxia de diversas outras infecções virais, pois, propusera uma vacina RNA com capacidade de bloquear a Proteína F, antes mesmo que o vírus adentrasse na célula do hospedeiro. Gerou com isso um grande “bum” no mercado de produção de vacina e acendeu grandes esperanças para o controle de infecções virais, não somente do coronavírus. As empresas Pfizer BioNTech e Moderna adotaram a tecnologia, a Johnson & Johnson (Vetor) e a Novavax (Recombinante) [18].  As duas primeiras empresas citadas saíram na frente nos testes, produção e autorização para o uso das vacinas, todavia, os desafios das mutações virais frequentes, assim como, as poucas experiências da recém tecnologia produzida, trouxeram a insegurança do entendimento da mutabilidade viral (novas variantes) e da capacidade de que a perspectiva teórica do controle de mutação possa realmente ocorrer[19]. Ainda, não se sabe a segurança das vacinas para pessoas abaixo de 18 anos de idade[20] (que as novas variantes virais estão mostrando mais agressiva entre os jovens). As duas últimas empresas citadas, Johnson & Johnson e a Novavax apresentaram resultados recentes de estudos mostrando baixa eficácia das vacinas[21],[22],[23]. Destacando aqui, o teste da Novavax, o qual enfrentou variações virais na África do Sul e teve resultados decepcionantes, eficácia em torno de 49,4%[24].

Os países desenvolvidos e que estão mais bem posicionados nesse entendimento, vêm levantando as fronteiras na tentativa de conter as novas variações virais, assim como, tentando a todo custo imunizar o maior número possível de pessoas, no propósito de conter a produção das novas variantes virais[25]. Os objetivos traçados são reduzirem o maior número possível de novos infectados (imunização em massa e os programas de isolamento social) como conter, rastrear, isolar, qualificar e procurar soluções específicas para infecções com as cepas novas, que porventura surgirem em determinadas localidades do país.  Por esse motivo, estão levantando as fronteiras aos países que são os possíveis riscos, até que tenha a certeza da total ação das suas estratégias.

O que acontece no Brasil? Infelizmente, por conta da desconsideração e priorização do controle pandêmico, não temos no Brasil um mapa epidemiológico e a, consequente, distribuições dos processos estratégicos de controle pandêmico bem traçado[26]. No Brasil, o rastreamento, localização e isolamento dos focos de infecção nunca foram as nossas prioridades. Atualmente, temos a disseminação, desenfreada, do coronavírus pelo Brasil inteiro, sendo que, todos os dias são identificadas as cepas novas (variantes virais) em diversas localidades[27]. Tendo em vista que, a exemplo do Amazonas, as variantes virais apresentadas são muito mais agressivas do que as observadas anteriormente, além do mais, foram identificadas em diversas regiões do Brasil[28]. Em consequência, as vacinas distribuídas no Brasil, Astrazeneca e a Coronavac (Chinesa)[29], vacinas de vetor viral (segunda geração) e vírus inativados (primeira geração), com exceção da primeira, são tecnologias antigas de vacina, as quais, infelizmente, não terão capacidade de imunização perante as variantes virais[30], sendo que a primeira (Astrazeneca), ainda, encontra em estudo de segurança e eficácia em pessoas acima de 65 anos de idade[31]. Todavia, até então, as duas vacinas propostas para os brasileiros não contam com essa nova tecnologia de bloqueio da Proteína de Fusão (Proteina F – Mutação 2P[32]). Consequentemente, para ao menos tentar bloquear a formação de novas variantes virais, teríamos que imunizar ao menos 60% da população (atualmente estamos com menos de 2% da população imunizada e sem reserva de vacina)[33].

Portanto, conclui-se que, o processo de isolamento do Brasil com o mundo será uma perspectiva natural daqui para frente. A quantidade de novos infectados e a possibilidade de surgimento das novas variantes, põem o Brasil como um potencial risco de exportação de novas cepas virais do coronavírus para o mundo. Infelizmente, para conter as novas ondas de contaminação, até que as tecnologias propostas demonstrem capacidades imunizantes, o processo de isolamento do Brasil seguirá em frente. Para os brasileiros, os quais estão em meios ao descontrole pandêmico, baixo recursos, poucas vacinas, tecnologias ultrapassadas, sobrará o aumento da catástrofe humana e o agravamento das consequências econômicas e isolamento, seguiremos em formação de “uma bola de neve” que poderá durar muito tempo, endemização [34] com altos níveis de contaminados e mortos.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.


Referências

[1] Disponível em: https://www.diplomatie.gouv.fr/en/coming-to-france/coronavirus-advice-for-foreign-nationals-in-france/, acessado em: 30/01/2021.

[2] Disponível em: https://www.gouvernement.fr/en/coronavirus-covid-19, acessado em: 30/01/2021.

[3] Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-europe-55863069, acessado em: 30/01/2021.

[4] Disponível em: https://www.theguardian.com/science/2021/jan/24/the-new-mutants-what-we-know-about-the-covid-variants-worrying-health-officials-worldwide, acessado em: 30/01/2021.

[5] Disponível em: https://news.sky.com/story/covid-19-should-we-be-worried-about-the-new-coronavirus-mutation-12161566, acessado em: 30/01/2021.

[6] Disponível em: https://www.sciencemag.org/news/2020/12/mutant-coronavirus-united-kingdom-sets-alarms-its-importance-remains-unclear, acessado em: 30/01/2021.

[7] Disponível em: https://www.washingtonpost.com/health/interactive/2021/01/25/covid-variants/, acessado em: 30/01/2021.

[8] Disponível em: https://www.euronews.com/2021/01/28/germany-considers-stopping-flights-from-countries-with-covid-variants, acessado em: 30/01/2021.

[9] Idem 7

[10] Disponível em: https://br.usembassy.gov/u-s-citizen-services/security-and-travel-information/, acessado em: 30/01/2021.

[11] Disponível em: https://www.medscape.com/viewarticle/944748, acessado em: 30/01/2021.

[12] Disponível em: https://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2021/01/21/958953434/reinfections-more-likely-with-new-coronavirus-variants-evidence-suggests, acessado em: 30/01/2021.

[13] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/brasil-e-a-covid-19-descontrole-desespero-e-o-clamor-pela-prudencia-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 30/01/2021.

[14] Disponível em: https://www.pewresearch.org/science/2020/12/03/intent-to-get-a-covid-19-vaccine-rises-to-60-as-confidence-in-research-and-development-process-increases/ps_2020-12-03_covid19-vaccine-intent_00-03/, acessado em: 30/01/2021

[15] Disponível em: https://br.financas.yahoo.com/noticias/brasil-pior-pais-gestao-publica-pandemia-covid-19-101819277.html, acessado em: 30/01/2021.

[16] Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK8439/, acessado em: 30/01/2021.

[17] Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2021/01/they-spent-12-years-solving-a-puzzle-it-yielded-the-first-covid-19-vaccines, acessado em: 30/01/2021.

[18] Idem 15.

[19] Idem 8.

[20] Disponível em https://www.bbc.com/news/health-55045639, acessado em: 30/01/2021.

[21] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/business/2021/01/29/eficacia-da-vacina-decepciona-e-acoes-da-johnson-johnson-caem-nos-eua, acessado em: 30/01/2021.

[22] Disponível em: https://www.npr.org/sections/coronavirus-live-updates/2021/01/29/961887796/johnson-johnson-vaccine-is-66-effective-in-preventing-moderate-to-severe-covid-1, acessado em: 30/01/2021.

[23] Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/vacina-da-novavax-tem-eficacia-reduzida-contra-variante-sul-africana/, acessado em: 30/01/2021.

[24] Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/01/29/novavax-anuncia-eficacia-de-89percent-em-vacina-contra-covid-e-acoes-disparam.ghtml, acessado em: 30/01/2021.

[25] Ibidem 8.

[26] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/07/sergipe-diario-de-bordo-os-tropecos-no-enfrentamento-da-covid-19-modelo-que-podera-refletir-o-brasil-parte-2-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 30/01/2021.

[27] Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/01/19/virologista-faz-alerta-sobre-novas-variantes-do-coronavirus-no-brasil.htm, acessado em: 30/01/2021.

[28] Disponível em: https://www.acritica.com/channels/coronavirus/news/nova-cepa-presente-no-am-seria-razao-da-explosao-de-casos-da-covid-em-manaus, acessado em: 30/01/2021.

[29] Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/12/28/vacinas-plataformas-como-funcionam/, acessado em: 30/01/2021.

[30] Disponível em: https://epoca.globo.com/sociedade/aumento-de-casos-reinfeccao-menor-eficacia-das-vacinas-por-que-variante-do-coronavirus-detectada-em-manaus-preocupa-mundo-1-24857717, acessado em: 30/01/2021.

[31] Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2021/jan/28/why-has-germany-advised-against-oxfordastrazeneca-jab-for-over-65s, acessado em: 30/01/2021.

[32] Ibidem 15.

[33] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2021/01/covid-19-a-magia-das-vacinas-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 30/01/2021.

[34] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/07/brasil-e-covid-19-endemizacao-sendo-concretizada-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 30/01/2021.

Reportagem da Rádio França Internacional (RFI), publicada neste sábado (30/01/2021), destaca bloqueio à voos oriundos do Brasil, em decorrência da elevada incidência da Covid-19.
Reportagem da Rádio França Internacional (RFI), publicada neste sábado (30/01/2021), destaca bloqueio à voos oriundos do Brasil, em decorrência da elevada incidência da Covid-19.
Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.