Brasil e a Coronavac: Baluarte Político | Por Ângelo Augusto Araújo

Lote de doses de vacinas contra o Covid-19.
Lote de doses de vacinas contra o Covid-19.

Em meio aos riscos ascendentes de uma infecção muito mais agressiva e letal pelas variantes do Sars-Cov-2[1], perdido na confusão dos conceitos sem fundamentações a respeito da pandemia, o governo federal do Brasil levanta um baluarte da necessidade da vacina Coronavac da qual nunca acreditou, sendo que passou de vacina chinesa a vacina do Brasil[2], assim como, as manifestações políticas Brasil a fora[3], replicam de forma espetaculosa a posse da solução que seguramente não tem.

O medo das variantes virais que está surgindo, somados ao pavor da onda descendente que parte do estado do Amazonas[4], a sensação da impotência por não ter realizado de forma rigorosa o controle epidemiológico da pandemia, a desconsideração de um planejamento bem estruturado e a reserva de contingência das melhores vacinas, assim como, o peso de ser o país que ocupa o segundo lugar no ranking dos números de pessoas mortas pela covid-19, mobiliza políticos em toda extensão territorial do Brasil, no intuito de ser o portador da solução divina que resolverá os problemas da pandemia. Cenários cinematográficos que fazem lembrar a novela “O Bem Amado” e seu representante político local, Odorico Paraguaçu, tornou um retrato que pode ser observado na grande maioria dos municípios brasileiros. As montagens dos cenários que documentaram os primeiros pacientes sendo imunizados, em meios a discursos cansativos e ridículos, relembrando pensamentos romanos clássicos, “Pão e Circo”, reflete exatamente o que a vacina para o coronavírus representa para muito dos políticos no Brasil: Imagem e votos.

Dentre todos os imunizantes conhecidos no mundo e relativamente testados, a vacina Coronavac é uma das que demonstrou menor eficácia. Com aproximadamente 50.38%[5] de resultados positivos (0,38% acima do mínimo exigido pela ANVISA[6]), é uma das poucas vacinas aceitas com possibilidades imunizantes pelo mundo. Os países desenvolvidos, como o Reino Unido por exemplo, nem se quer considerou a utilização desse imunizante aos seus cidadãos[7]. Não porque estão cheios de imunizantes, mas porque estruturou e qualificou os melhores agentes imunizantes (atualmente apresentados) para expor a população as melhores condições de profilaxia. Para os brasileiros, depois de desdém do governo federal (vacina chinesa[8]) e a desconsideração na firmação de contratos com vacinas que representam melhor eficácia, por exemplo a Pfizer BioNtech[9], estreou entre os países marginais, em desenvolvimento, como sendo um dos poucos países a aprovar o uso da vacina “chinesa” fora da China[10]. Mas será porque motivo uma vacina com tão baixo poder de imunização, pesquisa divulgada pelo próprio Instituto Butantã[11] que desenvolve e produz a vacina junto com a China, reservou e ocupou tantos espaços na mídia e se estenderam tantos tapetes vermelhos?  A resposta está mais que evidente e comentada no tópico acima.

Em 19 de maio de 2020, o Jornal da USP[12] destacava a falta de investimentos e estratégias para a inovação no Brasil, pesquisas científicas, informando que seria muito difícil sair da crise causada pela Covid-19 sem que ocorresse o incentivo científico. Em reportagem publicada pela BBC Brasil[13], o qual relatava os cortes nos orçamentos voltados a pesquisa científica e o êxodo dos cérebros, o que congelaria as investigações científicas e o Brasil seria punido por décadas. Dentre as multifaces e suas respectivas feiuras que a pandemia demonstrou, uma delas é deficiências de produção de tecnologias no Brasil. O motivo não é porque não temos excelentes pesquisadores, mas o baixo estímulo a pesquisa científica. O mais interessante é que, dentro das vacinas aprovadas para uso no Reino Unido, Oxford AstraZeneca, uma das coordenadoras do estudo é uma brasileira[14].

Com a possibilidade de importar 2 milhões de doses da vacina AstraZeneca da Índia, levou o Ministro da Saúde, Pazuello[15], a declarar, cinicamente, uma disputa mundial para ser um dos primeiros países a conseguir imunizar mais pessoas no mundo, desconsiderou a proporcionalidade populacional, assim como, a qualidade do imunizante. Uma questão mais humilhante, ainda, é que após as desconsiderações diplomáticas perante ao governo chinês, tanto a Fiocruz, que produzirá a AstraZeneca, como o Butantã, que produzi a Coronavac, depende de matéria prima chinesa[16]. Além do mais, alguns jornais anunciam os problemas que teremos com a contingência das seringas e agulhas a serem usadas[17].

Portanto, os shows políticos proporcionados pelas 6 milhões de doses, as quais darão para imunizar 3 milhões de pessoas (duas doses para cada pessoa selecionada), representarão, possivelmente, aproximadamente 1,5 milhões de pessoas imunizadas, caso os resultados de eficácia sejam, realmente, de acordo com a pesquisa citada (50,38%). O quanto tempo durará essa imunização e qual será a capacidade de imunizar contra as novas variantes virais, será uma grande questão a ser respondida. As pessoas que serão imunizadas por essa quantidade de doses, representarão menos de 2% da população, o que não será suficiente para proteger a maioria da população. Os shows políticos divulgados pelos governos e prefeituras no Brasil, remete somente aos interesses políticos (comédia de terror) e a falsa sensação de segurança que poderá induzir ao relaxamento das pessoas quanto aos cuidados.

Recentemente, em entrevista na CNN, o médico, ex-ANVISA[18], relata que a Coronavac é o que temos. Realmente é o que temos e os porquês, foram demonstrados acima. Em medicina, a consideração por uma intervenção de tão baixa eficácia é relevada somente em situações de emergência, da qual nunca saímos. Sinceramente, é uma comedia de terror estender o baluarte político para tão poucas doses e falta de opções. Ao invés de shows, estandartes e baluartes com tantas comemorações, teríamos motivos para nos envergonharmos.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

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Referências

[1] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/19/mais-rapida-grave-e-letal-entre-jovens-medicos-relatam-nova-covid-no-am.htm, acessado em: 19/01/2021.

[2] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/19/mais-rapida-grave-e-letal-entre-jovens-medicos-relatam-nova-covid-no-am.htm, acessado em: 19/01/2021.

[3] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-01/rio-da-inicio-vacinacao-contra-covid-19-aos-pes-do-cristo, acessado em: 19/01/2021.

[4] Disponível em: https://www.moneytimes.com.br/pazuello-diz-que-situacao-de-manaus-pode-ser-replicada-no-norte-e-nordeste/, acessado em: 19/01/2021.

[5] Disponível em: https://istoe.com.br/eficacia-da-coronavac-e-de-5039-diz-anvisa/, acessado em: 19/01/2021.

[6] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-01/taxa-de-eficacia-geral-da-coronavac-e-de-5038, acessado em: 19/01/2021.

[7] Disponível em: https://www.bbc.com/news/health-55045639, acessado em: 19/01/2021.

[8] Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/veja-10-vezes-em-que-bolsonaro-criticou-coronavac-24843568, acessado em: 19/01/2021.

[9] Disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/pfizer-vacinas-agosto-2020/, acessado em: 19/01/2021.

[10] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/12/27/brasil-sera-o-primeiro-pais-do-mundo-que-podera-dar-aval-a-coronavac, acessado em: 19/01/2021

[11] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/coronavac-tem-eficacia-geral-de-504-no-estudo-feito-pelo-butantan.shtml, acessado em: 19/01/2021.

[12] Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/falta-de-investimento-e-estrategia-para-inovacao-dificultarao-saida-da-crise-no-brasil/, acessado em: 19/01/2021.

[13] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-40504128, acessado em: 19/01/2021.

[14] Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/104832-brasileira-chefe-do-departamento-que-pesquisa-vacina-de-oxford-participa-de-acao-da-onu, acessado em: 19/01/2021.

[15] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/18/a-governadores-pazuello-oficializa-entrega-e-projeta-antecipar-vacinacao.htm, acessado em: 19/01/2021.

[16] Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/01/18/materia-prima-para-a-fabricacao-da-coronavac-e-da-vacina-de-oxford-vem-da-china.ghtml, acessado em: 19/01/2021.

[17] Disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/11/23/falta-de-planejamento-e-risco-para-logistica-de-vacinacao-contra-covid.ghtml, acessado em: 19/01/2021.

[18] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2021/01/12/coronavac-e-eficaz-segura-e-a-unica-vacina-que-temos-no-brasil-diz-ex-anvisa, acessado em: 19/01/2021.

Ângelo Augusto Araújo
Sobre Ângelo Augusto Araújo 44 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.