Jornalista Malu Fontes destaca participação de advogados no esquema de corrupção do Caso Faroeste

Malu Fontes, jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole.
Malu Fontes, jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole.

Em artigo publicado na quinta-feira (17/12/2020) no Metro1, site de notícias do Grupo Metrópole,  com título ‘Os advogados e a Faroeste’, a jornalista e pesquisadora Malu Fontes comenta sobre a participação de advogados nos esquemas de corrupção do Caso Faroeste.

O envolvimento de advogados em atos de corrupção foi abordado pelo Jornal Grande Bahia (JGB) na reportagem publicada na quarta-feira (16) com título ‘OAB Bahia é denunciada por manter ativo nos quadros da advocacia líder de Organização Criminosa do Caso Faroeste’.

Confira ‘Os advogados e a Faroeste’, artigo de Malu Fontes

Até as pedras do estacionamento do Tribunal de Justiça da Bahia sabem que não se monta uma organização criminosa como essa do escopo da Operação Faroeste sem a participação ativa e igualmente criminosa de dezenas de advogados que se tornam milionários em poucos anos, dividindo propinas de compra e venda de sentenças. Mas também se sabe como é a via-crúcis da rotina dos profissionais do direito que não aderem a essas práticas para defender seus clientes em processos contra gente poderosa.

Antes, era só o cidadão comum que não confiava na Justiça. Diante dos esquemas que se montam nos bastidores dos tribunais, e vendo as estratégias reveladas a cada uma dessas operações da Polícia Federal, são os advogados que temem já ao entrar com processos, por se saberem potencialmente derrotados, mesmo que seus clientes estejam cobertos de razões e direitos. Dependendo quem é o juiz ou a juíza do caso e contra quem se briga, os autos podem valer muito pouco e quase nada. Vitórias e derrotas se dão em outras dimensões, por outras razões, seguindo e segundo princípios e valores bem distantes dos da justiça.

O próprio universo das cortes judiciárias no Brasil já tem uma característica que desencoraja quem não tem acesso às bancas mais bem relacionadas. Qualquer levantamento primário mostrar que para cada juiz e juíza, desembargador e desembargadora, há um escritório de advocacia vinculado por sobrenome, comandando por mulheres, maridos, filhos, genros, noras, parentes de qualquer ponto na árvore genealógica.

Placa Fria

Claro que todo mundo jura que não há interferência. Claro que até se faz de conta que é impossível interferir, já que não é exatamente difícil o processo decidido pelo desembargador A ter como representante o escritório dos parentes da desembargadora C ou ter como lobistas amigos caros ao juiz D. As coisas são assim, arrumadinhas para não colocar em cena explicitamente as subjetividades, em nome do impedimento ético e coisa e tal. Ora, estamos no Brasil, onde da caixa de Pandora até a esperança escapou de há muito. Quem, a sangue frio, acredita que um advogado de um escritório sem a grife do parentesco com as togas vence facilmente, com base exclusivamente nos autos, um processo mais complexo ou envolvendo cifras e interesses desses vultosos?

E isso vale para todos os estados, todas as instâncias da justiça. Frequentemente, vemos na imprensa ilações dando conta de relações pouco transparentes e pouco republicanas entre ministros do Supremo e escritórios de respectivos parentes. O ambiente já é corporativo e nepótico desde a gênese. No mesmo tempo em que os togados do Tribunal de Justiça da Bahia atingidos pela Faroeste se contorcem em coro para dizer que são inocentes e que foram pegos para Cristo, por forças ocultas sabe-se lá operadas por quem, advogados ensaiam algum alívio, por vislumbrar, quem sabe, algumas possibilidades futuras de terem seus processos julgados por senhorzinhos e senhorinhas que no dia seguinte não estejam na Papuda ou tentando fugir em carros com placa fria.

*Malu Fontes, jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole.

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Carlos Augusto
Sobre Carlos Augusto 9376 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).