Para analistas, eleitor priorizou política tradicional em 2020

Resultado das eleições municipais deste ano aponta o fortalecimento de partidos de centro e de gestores com nomes consolidados.
Resultado das eleições municipais deste ano aponta o fortalecimento de partidos de centro e de gestores com nomes consolidados.

Nas eleições municipais de 2020, os eleitores brasileiros voltaram atrás nas decisões tomadas há dois anos. Essa é a conclusão de analistas ouvidos pela Agência Senado sobre o retrato da apuração dos votos deste domingo (15/11/2020). Para eles, prevaleceu a opção pela política tradicional.

Enquanto o pleito de 2018 viu o triunfo de candidatos que se vendiam como “anti-políticos”, o resultado nas cidades este ano marcou um fortalecimento de partidos de centro e de gestores com nomes consolidados. Para o historiador Antônio Barbosa, professor da Universidade de Brasília (UnB), o mais importante é que esse rearranjo foi alcançado nas urnas.

O maior significado das eleições de ontem foi que a sociedade, e não os governantes, tomou para si a responsabilidade de pisar no freio e recolocar nos trilhos a política brasileira. O eleitor viu que cometeu um monumental equívoco [em 2018] e buscou outro caminho.

Rafael Silveira, consultor legislativo do Senado, avalia que o eleitorado, ao privilegiar lideranças pragmáticas, enterrou a proposta de renovação política encarnada em candidatos neófitos.

O projeto da ‘nova política’ foi de pouquíssimo fôlego. A população demonstrou que quer mais segurança, menos ambiente de incerteza. Os outsiders tiveram muito menos espaço e tivemos o reforço de partidos que mostram capacidade de articulação mais significativa.

Segundo os especialistas, o principal reflexo das eleições municipais dentro do Congresso Nacional deverá ser a dinâmica entre o governo do presidente Jair Bolsonaro e a sua base de apoio. Isso porque grande parte desse grupo não tem uma aliança “orgânica” com o chefe do Executivo, mas sim um “contrato de ocasião”. Partidos como DEM, PSD e PP, que cresceram nos municípios em relação a 2016, poderão usar esse sucesso como poder de barganha para negociar melhores termos na relação com o Planalto.

Esses partidos vão ter muito mais musculatura para atuar no Congresso e conduzir o governo para onde acharem melhor. O presidente manifestou de forma inequívoca nesses dois anos uma certa dificuldade de entender a lógica da política, e vai se tornar espécie de refém do ‘Centrão’, que tende a ditar a pauta — afirmou Antônio Barbosa.

O consultor Rafael Silveira destaca também que candidatos mais afinados com o presidente, que contaram com o seu apoio explícito durante a corrida eleitoral, em geral tiveram desempenhos ruins. Em face disso, as legendas que se fortaleceram tentarão ocupar esses espaços, de olho nas eleições nacionais de 2022.

Alguns desses partidos vão ensaiar candidatos, usando sua participação no governo para fortalecer o próprio protagonismo. Já começaram a colher alguns resultados afirmando uma identidade diferenciada do presidente. A população consegue ler dessa maneira — avaliou.

Oposição de centro

Para o professor Antônio Barbosa, o fortalecimento do centro político terá repercussões além das articulações na esfera governista. Ele observa que esse movimento poderá redefinir os termos das próximas disputas eleitorais.

A análise leva em consideração também o recuo na presença dos partidos de esquerda, que perderam espaços em prefeituras e câmaras municipais. Para Barbosa, é possível falar na perspectiva de uma “oposição de centro”.

Não existe mais a polaridade que nos acompanhou desde o início da redemocratização. O eleitorado acordou para o fato de que a política é um bem e precisa ser tratada dessa forma, nada de extremismos estéreis, grosseria, violência.

Equilíbrio

Senadores que comentaram o resultado das eleições municipais também deram preferência ao retrato de “equilíbrio” nas urnas. Para eles, a população buscou resultados práticos e diálogo.

“O eleitor sinalizou agora que busca equilíbrio, experiência administrativa e rejeita extremos. Isso basicamente se traduz em diálogo, convivência pacífica e soluções negociadas para os sérios problemas que iremos enfrentar”, escreveu nas redes sociais o senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Líder da oposição, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) ressaltou parceria entre os parlamentares e os candidatos vitoriosos e pediu responsabilidade de todos.

“Nos colocamos à disposição para contribuir nos futuros mandatos dos prefeitos em busca da melhoria de vida do nosso povo. Aos que perderam, não vale o ódio. Aos que venceram, não vale a soberba”, aconselhou.

O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) também fez uma sinalização para o futuro e deixou uma mensagem de valorização da política.

“Temos que fazer da política um instrumento transformador. Ela é a única ferramenta democrática para que as mudanças sociais sejam realizadas. Ética, trabalho e transparência, essa é nossa missão”, escreveu.

Para Paulo Paim (PT-RS), a população deu o recado de que quer superar um período de antagonismos extremos e colher avanços.

“A democracia se fortaleceu. Estamos vencendo a ideologia do ódio. A população não quer mais saber do discurso extremista ‘nós contra eles’, ‘eles contra nós’. A população quer resultados práticos: saúde, emprego, renda, educação”, observou.

Já Carlos Viana (PSD-MG) também rejeitou o radicalismo e convidou os colegas a ouvirem o pedido feito pelos eleitores.

“Para quem gosta ou não gosta da política é tempo de analisar com equilíbrio o Brasil que surge das urnas. A meu ver, as eleições deram uma recado muito importante. Não queremos radicalismo em nenhuma das pontas. Votamos um país com mais diálogo e planejamento”, publicou.

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