Túlio Cícero Viana lança segunda edição do livro ‘O Consagrado Defensor: uma história da Ayahuasca’ | Por Juarez Duarte Bomfim

Dácio Mingrone com a filha Semilla e Padrinho SebastiãoDácio Mingrone com a filha Semilla e Padrinho Sebastião

Início do século XXI, quando ainda era escassa a bibliografia sobre os temas Santo Daime e Ayahuasca, me deparei com um livro de memórias, de título peculiar, na prateleira de uma livraria: O Consagrado Defensor (1997) de Túlio Cícero Viana. Desde então, as imagens desta obra sempre me acompanham e são recorrentes. É como se eu tivesse lido e relido tal livro inúmeras vezes. E foi motivado por esta leitura que, certa vez, em Rio Branco – Acre, fui conhecer a mítica Colônia 5 Mil, onde o Sr. Sebastião Mota de Melo começou a sua Missão de divulgador da Doutrina do Santo Daime.

Como muitos hippies e andarilhos dos anos 1970, Túlio Viana e Dácio Mingrone tinham ouvido falar de uma misteriosa comunidade religiosa que fazia uso de uma beberagem alucinógena no seio da Floresta Amazônica, liderada por um líder carismático, receptivo a esses jovens cabeludos que levavam uma vida alternativa — tipos humanos fora dos padrões convencionais da sociedade conservadora brasileira. Assim, varando as matas, ramais, rios e igarapés amazônicos eles chegaram à comunidade religiosa do Santo Daime, na zona rural da Capital do Acre.

Quando eu visitei a Colônia 5 Mil pela primeira vez, me deparei com um quadro já familiar ao meu coração e minha mente, construção literária saída das páginas do livro de Túlio Viana, que se tornaram realidade: no portão de entrada do templo daimista, com os dizeres entalhados acima, a frase imperativa “Hei de Vencer” — lema do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento e dos discípulos diletos de Raimundo Irineu Serra, Mestre Fundador da Doutrina do Santo Daime. É assim que começa a saga de Túlio e Dácio de muitos anos de convivência com aquela comunidade religiosa, liderada pelo Padrinho Sebastião, da qual se fizeram integrantes.

O Consagrado Defensor é um Interessante e surpreendente livro, de belos e místicos momentos bem narrados pela verve lírica do autor.
Dácio Mingrone, inseparável amigo estradeiro de Túlio Viana, é o outro “principal personagem” deste livro de memórias. Isso faz também de O Consagrado Defensor um livro de celebração da amizade. Dácio faleceu precocemente, ainda muito jovem. Certa vez, perguntei ao amigo Túlio: “você sente falta do Dácio? Sente saudade?” Com olhar saudoso, com um tom de emoção na voz, ele me respondeu: “todos os dias da minha vida”.

Além do interesse literário que o livro desperta, pela sua qualidade narrativa, também suscita interesse historiográfico, sociológico e antropológico, pois trata do cotidiano de uma comunidade místico-religiosa, encravada na Floresta Amazônica, que nos seus rituais faz uso de um potente psicoativo, o Daime/Ayahuasca, que tem despertado o interesse da comunidade cientifica do mundo inteiro, por seu potencial terapêutico.

Sou suspeito para escrever sobre o livro, pois de tão entusiasta da obra, me esforcei para conhecer o cara, e nos tornamos amigos. É que sua história, sua mística cristã é também a minha. Na Colônia 5 Mil, Túlio tentou fazer uma revolução, atendendo os ditames do misterioso hino de dona Maria Damião: “novas revoluções aqui com os estrangeiros”. Agora sei que revolução foi realizada: uma revolução literária.

Túlio Cícero Viana e Dácio Mingrone, festival daimista de dezembro de 1978

Túlio Cícero Viana e Dácio Mingrone, festival daimista de dezembro de 1978

Túlio Viana por ele mesmo

Era o ano de 1995, finalmente decidira escrever minhas memórias dos anos contundentes na Colônia 5 Mil, em Rio Branco – Acre. Fazia uns anos que vinha ajuntando anotações, para seguir com a lembrança viva de tudo. Toda aquela história povoava minha mente e minha alma, e de certa forma, me angustiava. Como todo o universo da ayahuasca ainda era novidade naquela época, aventurei-me neste projeto. Naquele momento, meu amigo e companheiro de aventuras, Dácio, seguia vivo e uma das minhas maiores preocupação era que ele aprovasse meu trabalho. No entanto, ele, nesta época, vivia entre o Brasil e Espanha. No ano de 1988, ele voou para Velho Continente, levando a ayahuasca. A Espanha começava a mergulhar nas experiências e terapias místicas, tanto com a Gestalt, como com plantas de poder e outros enteógenos, principalmente com grupos nascidos da influência de Carlos Castañeda. Também se destacavam, nesta época, Claudio Naranjo, Paolo Quatrini, Alejandro Jodorowsky e os grupos mais antigos, que usavam o LSD, cogumelos e peyote, mas a ayahuasca era uma grande novidade. Dácio, com seu espírito livre, sua alegria contagiante e sua criatividade existencial, logo conquistou muitos amigos e organizava grupos de trabalhos com a ayahuasca.

Eu seguia no Brasil e, a princípio, fui responsável por abastecê-lo com artesanatos minerais e joias em prata com pedras brasileiras, assim, nos ajudávamos mutuamente, mas a ideia de escrever nossas façanhas no Acre ia amadurecendo. Assim foi que, no ano de 1995, comecei o projeto de escrever o livro. Não foi fácil, pois a batalha para viver e cuidar da família, a essa altura, era considerável. Todavia, a aquisição do meu primeiro computador, um multimídia 486, um luxo para a época, empolgou-me a focar no objetivo. Confesso que era um exercício de muito esforço e uma terapia sem dimensão. Naquele momento, ainda guardava um pequeno ranço com toda a história, mas tinha claro o imenso valor do Padrinho Sebastião, quanto o estimava, o respeito por sua pessoa, sua sabedoria, e por tudo que ele significou e significa para nós. Não só por ele, mas toda a sua família, a querida Madrinha Rita, sua esposa e todos os seus filhos, principalmente, Alfredo e Valdete.

Todavia tinha uma história para contar, foi real, teve seus momentos ternos, mas teve seus momentos conflitivos, tinha que seguir a narrativa, como quem faz uma reportagem, mas sendo personagem dos fatos. Não queria, de forma alguma, colocar-me como um opositor daquele povo com o qual vivi e que amo até os dias atuais. Assim, era como narrar uma história da minha própria família. O que mais me preocupava era como meu amigo Dácio receberia este livro, lendo tudo que falei sobre ele. Afinal, nós ainda seguíamos companheiros de jornada, trabalhando juntos, embora ele morasse em Búzios e eu em Ouro Preto. Se fosse ficar esperando pelo aval de todos, nunca faria o livro, e então, segui em frente. Em 1997, o livro ficou pronto, foi uma jornada exaustiva durante dois anos. Imprimi na Editora Littera Maciel, de Belo Horizonte.

No final deste mesmo ano, embarquei para Espanha com uma mala de mercadorias e uma bolsa cheia de livros. O nome do livro surgiu enquanto eu escrevia: O Consagrado Defensor. Logo na chegada, no aeroporto de Barajas, Madrid, o livro começou a mostrar sua onda positiva. Um Guarda Civil, como é conhecido a mais importante corporação militar da Espanha, tirou-me do meio de centenas de passageiros para essas inspeções de rotina nos aeroportos e fronteiras. Passou pelos raios-X bolsa e mala. Acho que no aparelho de raios-X, aquela quantidade de livros lhe sugeriu que fosse outra coisa. Ele abriu minha bolsa em um ímpeto policial, como, “te fraguei, rapaz”, mas quando se deparou com aquela quantidade de livros, e depois que lhe disse, “fui eu que escrevi”, toda a sua ira se transformou, convertendo-o, em um educado cidadão. Tirou um exemplar, examinou, conferiu meu nome com o passaporte e me parabenizou por ter escrito um livro, não quis nem mais averiguar minha mala, essa sim, estava cheia de mercadorias, joias em prata e esculturas em pedras preciosas, talvez tivesse que pagar um imposto, mas, afinal, liberou-me no canal verde. Fiquei feliz. Entrei com aquele monte de livros no território espanhol e minha mala, claro.

A primeira coisa que fiz foi passar um livro para Dácio ler e esperar se ele ia aprovar ou ia ficar bravo comigo. Ele leu muito rápido, dois dias depois, apareceu na Urbanização Rosa Luxemburgo, em Aravaca, povoado pertencente à grande Madrid, onde estava hospedado, na casa de Luis e Manoli. Bastou ver-lhe, com aqueles olhos brilhantes e um grande sorriso na cara, que sabia, foi aprovado. Logo me abraçou e falou, “cara, está demais, adorei. Esse livro vai fazer sucesso, você vai ter de rachar o lucro comigo”. E sorria, sorria com vontade. Minha alma encheu de felicidade, passei na mais importante prova.

No final, o livro não fez aquele sucesso, como de verdade imaginou Dácio, mas estava escrita a nossa história. Marcávamos nosso pioneirismo na história do Santo Daime, da Ayahuasca.

No ano 2000, dia 7 de abril, Dácio veio a falecer em São Paulo, vítima de um câncer agressivo, porém, uma semana antes de falecer, eu liguei para ele da minha casa em Santo Antônio do Leite, distrito de Ouro Preto. Estava alegre, bem emocionado. Logo foi me falando o porquê da sua alegria, “Túlio, tinha dado um cochilo aqui, quando despertei, sabe quem estava sentado na beirada da cama, o Padrinho Sebastião, brilhava muito e me confortou bastante”. Padrinho Sebastião faleceu na madrugada do dia 20 de janeiro de 1990, em Pedra de Guaratiba, Rio de Janeiro. Quando ele me disse aquilo, meu coração gelou, sabia que meu amigo ia embora. Não tinha como ficar alegre igual a ele, mas tentei dissimular. Embora a gente saiba da naturalidade da morte, mas era muito para o meu coração, que meu amigo fosse partir, tão jovem, para tão longe.

A primeira edição d’O Consagrado Defensor dediquei ao meu irmão Alex Augusto, que foi meu primeiro grande amigo, que partiu bem pronto, quando nossa jornada apenas começava.

Quando surgiu a ideia de fazer esta 2ª edição, que foi assim uma coisa meio maluca, quase para o final do ano passado, 2019, pensei, vou dar uma aprimorada no livro, pois, em 2020, completa 40 anos da história principal que conto, a Nova Revolução aconteceu em junho de 1980, e depois, que pensei nisso, começaram a acontecer várias coisas, incentivando-me a seguir neste projeto. Remexer nessa coisa toda juntou uma energia bem forte, tinha momentos que ficava em dúvida. Agora, com ajuda de tanta gente, a 2ª edição vai terminando e estou escrevendo essa introdução. Com a enorme satisfação de poder dedica-la a esse grande amigo Dácio, que marcou minha vida, meu ser para todo sempre. Incrível que ele faleceu no dia 7 de abril, e logo depois, por uma dessas coincidências do destino, nomearam o 7 de abril como o Dia Mundial da Saúde. E para completar com mais uma coincidência, abril de 2020, provavelmente marcará nosso país como uma etapa importante na luta contra esta pandemia que assolou a humanidade, chamada COVID-19, a doença do novo Coronavírus. Para muitos pensadores modernos, essa pandemia marca, finalmente, o fim do século XX.  Uma revolução se iniciou na nossa civilização, o mundo não será o mesmo, nós todos fomos convidados a refletir e repensar nossas atitudes, um vírus nos fez ajoelhar e olhar para dentro: quem somos? E o que aconteceu naquele microcosmo de uma comunidade no Acre, volta a acontecer comigo, desta vez, em âmbito mundial. Vamos à luta, construir um novo mundo.

Boa leitura a todos.

Chapadão do Céu – Goiás, 14 de abril de 2020.

Jorge Nobre de Carvalho e Túlio Cícero Viana

Jorge Nobre de Carvalho e Túlio Cícero Viana

Túlio Cícero Viana por Jorge Nobre de Carvalho

Túlio Cícero Viana, um jovem obstinado e estudioso, que muito jovem ingressou no curso de Geologia em Ouro Preto – MG, onde por questões ideológicas e existenciais resolveu interromper os estudos e fazer uma incursão pela América Latina, terminando por aportar no Acre, onde conheceu o Padrinho Sebastião e a Colônia 5 Mil, vindo a integrar o numeroso grupo de hippies que acorria em busca da Bebida Sacramental Ayahuasca ou Santo Daime que era servida pelo já famoso “Velho da Barba Branca” — Padrinho Sebastião.

Devido à sua vivência na Colônia 5 Mil, Túlio decide escrever a Saga do Padrinho Sebastião no seu primeiro livro — O Consagrado Defensor, o mais fiel, minucioso e inspirador relato da História do Beija Flor da Floresta e seu já numeroso exército de seguidores.

Túlio tem uma forma especial de escrever, que desperta o interesse do leitor pela sua escrita fluente, de linguagem coloquial, com toques engraçados e enfoques com profundas reflexões espirituais, tornando a leitura extremamente prazerosa.

A amizade de Túlio e Dácio enriquece a obra, na medida em que eles cultivam os melhores sentimentos de solidariedade, de lealdade, de respeito e de amor fraternal, sentimentos que se perpetuam através dos descendentes de Dácio, que hoje segue sua missão no Reino Divinal.

Júlio César Nave e Túlio Cícero Viana

Júlio César Nave e Túlio Cícero Viana

Túlio Cícero Viana por Júlio César Nave

Túlio e Dácio, aventureiros por natureza e incansáveis investigadores do sentido maior da existência. Túlio, através desta inspirada narrativa, convida o leitor a um profundo mergulho nos misteriosos encantos da poderosa Floresta Amazônica.

Em suas andanças pelo mundo, encontram no Acre um povo liderado pelo Padrinho Sebastião Mota de Melo que faz uso de uma milenar medicina indígena, o Santo Daime (conhecida também como Ayahuasca, Yagé…), que leva a atingir os mais elevados graus de consciência, a Chave que abre as portas da percepção do autoconhecimento: a revelação do Divino Interior.

Sobre Túlio Cícero Viana

Túlio Cícero Viana nasceu em Curvelo, em 13 de julho de 1957. Com apenas um ano e meio de idade, viu seus pais ir de mudança para capital, Belo Horizonte.

Em 1960, Seu Luiz e Dona Célia foram para o Planalto Central, Goiânia, no embalo do surgimento de Brasília. Foi dos pais que herdou essa paixão por viajar e buscar mundos novos, assim seguiu vivendo. Nos anos 1970 abandonou a universidade de Geologia em Ouro Preto, para se aventurar na Amazônia, onde morou no Acre, Peru, Equador e Colômbia. Da experiência no Acre, na Colônia 5 Mil, escreveu, O Consagrado Defensor, em 1977. Para continuar nômade, aprendeu a fazer Joias em prata e esculpir pedras preciosas, tornando-se feirante das mesmas. Durante 20 anos trabalhou no circuito europeu de feiras de pedras e joias. Em 2010 conhece sua terceira companheira, Márcia, passa  a se dedicar a agricultura para sobreviver e agrofloresta como ideal, termina o livro Urubamba, fruto da vivencia no Peru, juntamente com seu amigo Dácio, na aldeia dos Matsiguengas.

E-mail do autor [email protected]

Links para aquisição do livro:

Livraria Polo Books

https://www.livrariapolobooks.com.br/literatura/romance/o-consagrado-defensor-uma-historia-da-ayahuasca?fbclid=IwAR32b49VxXKPZlhfYQWqwe4I3DI6NZlfgvWCcNvyBz25vMNvbj3_KgiTZho

amazon.com

https://www.amazon.com/Consagrado-Defensor-Hist%C3%B3ria-Ayahuasca-Portuguese/dp/6555020350?fbclid=IwAR1Gwknf7LRf4uPH9ZWDD9r4FjzHHWdEmC5nbmtK6BU0sQTM85x4SPyUCgk

Sebastião Mota de Melo, Padrinho Sebastião (7.10.1920 – 20.01.1990)

Sebastião Mota de Melo, Padrinho Sebastião (7.10.1920 – 20.01.1990)

Cecilia Maringoni, Juarez Bomfim, Tulio Viana e Marcia Cunha

Cecilia Maringoni, Juarez Bomfim, Tulio Viana e Marcia Cunha

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]