Bolivianos vão às urnas sob a sombra da instabilidade; Com apoio de Evo Morales, Luis Arce lidera disputa à presidente da Bolívia

Luis Arce lidera disputa à presidente da Bolívia.
Luis Arce lidera disputa à presidente da Bolívia. País realiza sua primeira eleição presidencial sem a participação de Evo Morales em mais de duas décadas. Muitos esperam que pleito ajude o país a superar de uma vez o caos político – mas isso é muito pouco provável.

Bolivianos das áreas mais ricas de La Paz começaram a armazenar suprimentos essenciais e a fazer fila para comprar gás antes da eleição presidencial deste domingo (18/10/2020), temendo a volta dos conflitos letais que se seguiram à votação conturbada do ano passado.

Aquela eleição, depois anulada, levou à renuncia de Evo Morales, líder de esquerda, e mergulhou o país em um vácuo político precário – um governo conservador interino que não foi eleito está no poder desde então.

Agora os 7,3 milhões de eleitores da Bolívia estão em uma encruzilhada enquanto o país sofre com a pandemia de coronavírus: a volta do partido socialista de Morales ou uma guinada para o candidato de centro Carlos Mesa, um ex-presidente que ficou em segundo lugar em 2019.

Muitos, porém, querem simplesmente evitar o derramamento de sangue do ano passado, quando ao menos 30 pessoas foram mortas.

“Quero paz. Chega de confusão. Não queremos mais sangue derramado. Nenhum sangue de nenhum partido político”, disse Sandra Rivero, cujo parente Marcelo Terrazas perdeu a vida em meio à violência do ano passado.

A votação de domingo agora será uma repetição daquela de 2019. Luis Arce, candidato do partido socialista e aliado próximo de Morales, aparece nas pesquisas de opinião à frente de Mesa, mas aparentemente não com uma vantagem suficiente para evitar um segundo turno em 29 de novembro.

A votação, que será presencial com protocolos de saúde por causa da pandemia de coronavírus, começará na manhã de domingo, e os primeiros resultados devem sair perto das 20h locais.

A capital administrativa La Paz é uma cidade dividida radicalmente por classe e raça. Os mais ricos e mais brancos moram na parte inferior, fundada por espanhóis em uma altitude na qual o oxigênio é mais abundante e a temperatura é mais alta. Quanto mais se sobe, mais pobreza se vê.

Na abastada Zona Sur, motoristas esperaram até uma hora para encher os tanques nesta sexta-feira, e grupos de WhatsApp ferviam com iniciativas frenéticas de medidas de segurança.

“As pessoas sofreram muito no ano passado”, disse Freddy Chipunavi, açougueiro do mercado de classe média de Collasuyo, acrescentando que nos últimos dias vendeu 70% a mais de carne bovina a clientes que temem a escassez de alimentos vista no ano passado devido ao bloqueio de estradas.

Muitos bolivianos criticam Morales por se aferrar ao poder durante tempo demais e de contornar limites constitucionais. Outros dizem que ele foi deposto por um golpe, e seu partido alertou para uma repetição, atiçando tensões durante uma campanha tensa.

A alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, ex-presidente chilena, disse em um comunicado na sexta-feira que ninguém quer ver uma repetição das “extensas violações e abusos aos direitos humanos” de 2019.

“É essencial que todos os lados evitem novos atos de violência que possam desencadear um confronto”, disse ela.

Caos político na Bolívia
A Bolívia vive um período de turbulência e instabilidade política desde a eleição presidencial do ano passado. Morales, acusado de fraudar a votação, foi forçado a renunciar pelo Exército boliviano. Ele foi sucedido por um governo provisório conservador chefiado por Jeanine Áñez, que, apegada ao poder, adiou a eleição geral mais de uma vez devido à pandemia de coronavírus.

Evo Morales e Luis Arce, em foto de janeiro
O pleito deste domingo visa finalmente trazer a estabilidade de volta ao país. Mas Maria Teresa Zegada, socióloga da Universidade de Cochabamba, duvida que isso aconteça. “O MAS está ameaçando não reconhecer um resultado eleitoral vantajoso”, afirma.

A especialista argumenta que, se a oposição boliviana vencer, ela será “permanentemente confrontada com a pressão de movimentos sociais, que são controlados pelo MAS”. Zegada acredita que a Bolívia poderia, então, se afundar numa instabilidade política de longo prazo, como não se vê desde os anos 1990.

As empresas, em particular, estão preocupadas com a perspectiva de manutenção da turbulência política. “Precisamos de estabilidade para poder fazer planos, e precisamos que o Estado apoie as empresas privadas em vez de dificultar as coisas para elas”, diz Pedro Colanzi, do Instituto Boliviano de Comércio Exterior, sediado em Santa Cruz. A cidade abriga 30% de toda a população da Bolívia e é responsável por mais de um terço de seu produto interno bruto (PIB).

A Bolívia é um país profundamente polarizado quando se trata de poder econômico e político, uma situação agravada pelas contínuas tensões entre a população indígena e não indígena. Juntos, esses fatores tornam governar o país algo muito desafiador.

Oposição dividida

“Se o MAS vencer, podemos enfrentar um autoritarismo – mas a oposição cometeu erros também e falhou em aproveitar uma grande oportunidade [que foi ocupar o poder]”, diz o ex-parlamentar Alejandro Colanzi.

Muitos bolivianos estão decepcionados com a presidente interina Áñez e seus aliados, que se envolveram em escândalos de corrupção e manifestaram sentimentos religiosos extremistas e calúnias raciais. Áñez, por exemplo, chegou a se referir aos povos indígenas do país como “selvagens”.

Muitos acreditam que ela e seus ministros se preocupam apenas com seu ganho pessoal, em acertar contas e desfazer as políticas sociais de Evo Morales.

Carlos Mesa, principal candidato da oposição

A oposição do país, entretanto, está dividida. O moderado professor universitário Carlos Mesa, que deverá receber cerca de 30% dos votos, segundo apontam pesquisas de opinião, é apoiado pela classe média urbana liberal da Bolívia.

Já a elite conservadora e empreendedora torce pelo populista de direita Luis Fernando Camacho, projetado para levar 15% dos votos neste domingo. Alguns pediram que Camacho desistisse da corrida para aumentar as chances de Mesa, mas o populista rechaça a ideia, em meio às animosidades entre ele e o professor.

Enquanto isso, o candidato Luis Arce provavelmente se beneficiará de uma oposição dividida. De acordo com as leis eleitorais da Bolívia, ele só precisa de 40% dos votos – e uma vantagem de dez pontos percentuais sobre o segundo colocado – para vencer no primeiro turno.

O cientista político Diego von Vacano está convencido de que o candidato do MAS seria bom para o país neste momento: “Arce não é como Morales; é um tecnocrata cosmopolita e a única garantia de que a Bolívia não vai voltar ao neoliberalismo e privatizar suas reservas de lítio”, afirma.

Preocupações com o futuro

Independente de quem vencer as eleições neste domingo, governar a Bolívia será um desafio. “O MAS tem uma ala reformista que apoia o vice-presidente David Choquehuanca em vez de Arce e Morales, então tensões são inevitáveis”, diz a socióloga Zegada.

Roger Cortez, especialista em socioeconomia, também prevê problemas à frente. “O MAS propaga um modelo econômico baseado no capitalismo de Estado e na exploração de recursos naturais.” Além disso, afirma ele, “a pandemia empurrou entre 1 e 2 milhões de bolivianos de volta à pobreza”.

Cortez também não acredita que a agricultura de corte e queima e as plantações geneticamente modificadas na planície boliviana sejam sustentáveis.

Mesa prometeu uma nova abordagem econômica, mas foi vago nos detalhes. De qualquer forma, será difícil formar maiorias num Parlamento tão fragmentado.

Muitos bolivianos, portanto, estão bastante pessimistas quanto ao futuro. Uma pesquisa online conduzida pela Fundação Friedrich Ebert, da Alemanha, apontou que 78% dos entrevistados veem a situação da Bolívia piorando, e 57% esperam o fim da violência após as eleições. Enquanto isso, impressionantes 80% se disseram preocupados com a economia e pobreza crescente.

*Com informações do DW, Agência Brasil, Reuters TV e Daniel Ramos.

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