Salvador: Personalidades políticas e intelectuais da Bahia protestam contra a exoneração de Amadeu Alves da Casa da Música e levantam a voz em defesa da Lagoa de Abaeté

Amadeu Alves, músico.
Amadeu Alves, músico.

Contra a injusta e persecutória medida governamental, assim se manifestou o professor, escritor e membro da Academia de Letras da Bahia, Carlos Ribeiro:

Tristes tempos estranhos / Por Carlos Ribeiro

Vivemos tempos estranhos. Não bastasse a imposição, no nosso cotidiano, de pessoas negando o efeito de um vírus que em apenas seis meses matou 136 mil brasileiros, eis que surge, na elogiada Bahia do governador Rui Costa, uma nova espécie de negacionismo: do talento, da criatividade, do benefício social e do sucesso do seu próprio governo na área cultural.

Não é isso algo espantoso?

Sim, porque o sucesso de uma administração se dá no pleno e bem-sucedido funcionamento de cada um dos seus órgãos e unidades. Diz então o bom senso que devemos preservar as que funcionam bem, e corrigir as que funcionam mal. Corrigir as que funcionam mal para que passem a funcionar bem, preservar as que funcionam bem para que não venham a funcionar mal.

Elementar, meu caro Watson, diria o velho Holmes.

Mas não vivemos em tempos de lógica sherlockiana.

Eis então que um dos mais reconhecidos e elogiados espaços culturais do referido governo — a Casa da Música do Abaeté —, na plenitude de uma atuação elogiada por seus inúmeros frequentadores, moradores da própria região, além de um sem-número de músicos e artistas da Bahia e do Brasil, é objeto e cenário de uma mensagem singular que diz algo mais ou menos assim: “Está fazendo a coisa certa? Precisamos corrigi-la!”

O Governo do Estado, através dos seus secretários e diretores (não todos, pois há gente por lá que acredita ser melhor mesmo corrigir o que está errado), não apenas diz para não fazer a coisa certa, mas, principalmente, para impedir alguém de fazê-la.

E eis que o Governo do Estado, através da sua Secretaria de Ações Inexplicáveis, surpreende a todos com uma portaria no Diário Oficial, datada de 17 de setembro, informando à comunidade — e ao próprio gestor da Casa da Música, o músico Amadeu Alves — que este foi exonerado… “a pedido”.

Surpreendido por ter sido exonerado a pedido???

Mas exonerado, a pedido, por quê? Por ter ali exercido, nos últimos 13 anos, desde o primeiro governo do PT na Bahia, um trabalho exemplar de registro, preservação, educação e difusão cultural, além de inúmeras atividades de preservação ambiental, à frente de uma equipe valorosa, como está devidamente documentado no próprio blog da Secretaria da Cultura?

Na contramão deste escriba pouco versado no jogo bruto dos interesses políticos, há quem diga que tal atitude nada tem de estranha e inexplicável; que diz respeito, simplesmente, a interesses mal explicados de quem, em oposição a todos aqueles que clamam pela conservação e preservação do Parque Metropolitano do Abaeté, instala na área mesma da Casa da Música uma estação de tratamento de esgoto… na própria lagoa!

Quem quiser mais informações sobre isso, visite a página do movimento “#abaeteviva” no instagram (https://www.instagram.com/p/CE4HHQiFteh/). Há ali um abaixo-assinado de moradores do bairro de Itapuã e arredores, demandando a realização de uma Audiência Pública para que sejam prestados esclarecimentos à população sobre as reais necessidades de construção de uma Estação Elevatória de Esgoto às margens da Lagoa do Abaeté.

“Declaramos, outrossim, que somos contrários a essa obra, que certamente vai acarretar mau cheiro e outros danos à preservação ambiental do Parque do Abaeté, que já vem sofrendo continuado abandono e descaso por parte do Poder Público. Acreditamos firmemente que, com boa vontade e empenho, alguma solução técnica que cause menos impacto ao meio ambiente e à população possa ser encontrada”, informa o documento que conta, às 15h59m deste sábado, 19/9/20, com 13.985 assinaturas, além de mensagens gravadas e escritas de personalidades como Juca Ferreira, Caetano Veloso… e Amadeu Alves.

Mas, insisto na tese de que vivemos tempos estranhos – ou, mais que estranhos, bizarros. E, se clamamos aos céus por uma saída, devemos lembrar do que disse, certa vez, o poeta Carlos Drummond de Andrade:

“Ao ver a luz no fim do túnel,

certifique-se de que não é o trem!”

*Fonte: (https://casadamusicabahia.wordpress.com/)

(Postagem da página pessoal de Carlos Ribeiro no Facebook, em 19 de setembro de 2020. Carlos Ribeiro é professor, escritor e membro da Academia de Letras da Bahia).

Outro protesto e apelo: o publicitário Edson Barbosa

O publicitário Edson Barbosa também se pronunciou sobre o assunto, solicitando do Governo da Bahia a imediata “readmissão de Amadeu Alves na direção da Casa da Música” e “uma explicação cabal, pública, sobre a obra que destrói parte do meio ambiente, no Abaeté”.

Escreve Edson Barbosa:

Fosse o Governo Bolsonaro, ou mesmo a administração de ACM Neto, que estivesse construindo uma obra de saneamento na lagoa do Abaeté, no modo como está sendo feito pelo Governo do Estado. Fosse Amadeu Alves, demitido inexplicavelmente da direção da Casa da Música, um servidor municipal ou federal. Eu pergunto, como estariam reagindo os partidos políticos tidos como de esquerda, democratas, progressistas, queixosos de injustiças? Em tempos de pandemia, sem a oitiva respeitosa dos ancestrais, por que fazer assim? Onde estão os que protestaram veementemente contra a destruição da flora sagrada, para a construção do BRT? Onde estão o exército da major, a negritude de Olívia, a educação do Bacelar, o senador do doido, a municipalidade de Bruno? Justiça se faça pela presença ativa de Hilton e pela ausência desejável da extrema direita. Peço respeitosamente aos meus amigos Rui e Pellegrino, pessoas às quais respeito, agradeço e aplaudo, por muito do que fizeram e fazem pela Bahia, Salvador e o nosso povo: 1. A readmissão de Amadeu Alves na direção da Casa da Música. 2. Uma explicação cabal, pública, sobre a obra que destrói parte do meio ambiente, no Abaeté. Por hora é isso.

Edson Barbosa, comunitário de Piatã, devoto do Abaeté.

(Postagem da página pessoal de Edson Barbosa da Silva Filho no Facebook, em 28 de setembro de 2020).

Protesto contra a construção da Estação Elevatória na Lagoa de Abaeté
Protesto contra a construção da Estação Elevatória na Lagoa de Abaeté
Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]