Capítulo I do Caso Faroeste 2: Como o irmão do fazendeiro Nelson Vígolo entregou R$ 250 mil em propina disfarçada em uma caixa com folhas de ofício para pagamento à desembargadora do TJBA Sandra Inês Rusciolelli

Capítulo I do Caso Faroeste 2 | O advogado do fazendeiro, propina em Rondonópolis.Capítulo I do Caso Faroeste 2 | O advogado do fazendeiro, propina em Rondonópolis.

A reportagem do Jornal Grande Bahia (JGB) narra, com exclusividade, síntese de trecho do relato dos fatos inscritos na Ação Penal Nº 953 – DF (2020/0082853-9 | Número único 0082853-14.2020.3.00.0000), que tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Encaminhada por fonte ao JGB, a peça processual contém 26 páginas do voto do ministro relator do STJ Og Fernandes, na qual são apontados como réus os membros de Organização Criminosa (ORCRIM), no âmbito do Caso Faroeste, Nelson José Vígolo, empresário, proprietário do Grupo Bom Jesus; Vanderlei Chilante, advogado do empresário; Sandra Inês Moraes Rusciolelli Azevedo, desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) e Vasco Rusciolelli Azevedo, advogado, filho da desembargadora.

Outra pessoa citada na peça processual é Geraldo Vígolo, irmão e sócio de Nelson Vígolo no grupo agropastoril. Empresa que se encontra em recuperação judicial.

O esquema da Orcrim tem um delator envolvido, o advogado e ex-servidor do TJBA Júlio César Cavalcanti Ferreira, cuja Colaboração Premiada foi homologada, em 31 de março de 2020, pelo ministro Og Fernandes. O Termo de Colaboração possui 25 anexos, sendo que em cada anexo são apontadas possíveis práticas criminais envolvendo empresários, grandes escritórios de advocacia, assessores, juízes e desembargadores que atuam no estado. Ele foi denunciado criminalmente na 1º fase do Caso Faroeste. Conforme Relatório de Inteligência Financeira (UIF nº 46683), Júlio César promoveu movimentações financeiras suspeitas no montante de R$ 24.526.558,00.

Os membros da Orcrim foram denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) por corrupção ativa e passiva, lavagem de ativos, evasão de divisas, organização criminosa e tráfico influência.

Os fatos narrados pelo JGB parecem ter sidos tirados de uma peça cinematográfica, mas, infelizmente, reproduzem a realidade dos acontecimentos.

Capítulo I

O advogado do fazendeiro: propina em Rondonópolis

Em 16 de março de 2020, em Rondonópolis, Mato Grosso, a Polícia Federal deflagrou a operação controlada de monitoramento de Júlio César, criminoso confesso do esquema de corrupção do Caso Faroeste.

Enquanto uma equipe da PF seguia os passos do delator, outro grupamento policial fazia vigilância no endereço do escritório do advogado Vanderlei Chilante, situado na Avenida Bandeirantes, nº 1897.

Durante a vigília, os policiais observaram que o veículo Ford, modelo Ranger, de placa QCR-4941, pertencente a empresa Bom Jesus Agropecuária Ltda (CNPJ 08.895.796/0001-08), possivelmente, conduzido por Geraldo Vígolo, estacionou nas proximidades do escritório de advocacia.

O condutor desembarcou do automóvel portando uma caixa e se dirigiu ao escritório de advocacia de Vanderlei Chilante. Minutos depois, da entrada do condutor do veículo Ranger, o advogado é visto, saindo do próprio escritório, portando uma caixa, semelhante a trazida pelo condutor da Ranger.

Vanderlei Chilante se dirige ao próprio veículo e se desloca para um segundo encontro secreto.

Minutos depois, mediante uso de equipamentos de vigilância da PF, foi registrado o encontro do advogado Vanderlei Chilante com o advogado Júlio César.

Nesse segundo encontro, a Polícia Federal registrou, em áudio e vídeo, o momento em que Vanderlei Chilante conversa com Júlio César e lhe franqueia acesso à porta do carona do veículo, uma caminhonete branca, de onde Júlio César retira a caixa de papelão e a leva ao quarto do hotel.

Na sequência, Vanderlei Chilante, deixa o local, enquanto o criminoso Júlio César, franqueia aos policiais, acesso ao quarto, onde foi localizada a referida caixa de papelão. Aberta a caixa e retiradas as folhas de ofício que estavam no topo, foi encontrada pela PF a quantia de R$ 250 mil em espécie, em três blocos envoltos em fita lacre.

A propina paga em  Rondonópolis foi parar em Salvador, capital da Bahia.

Capítulo II

O 2º Capítulo do Caso Faroeste 2 aborda como a propina paga em Rondonópolis foi entregue em um motel e, na sequência, foi parar no apartamento de luxo em Salvador, onde tem residência a desembargadora Sandra Inês Rusciolelli Azevedo e que tem como vizinho o filho Vasco Rusciolelli.

Um dos fatos curiosos narrados no Capítulo II, por fonte do JGB, é a conexão entre as unidades residenciais ocorrer através de porta interna, evitando que fossem registradas imagens da circulação de reuniões secretas envolvendo pessoas que visitavam o advogado, para tramar possíveis crimes com a conivência da desembargadora.

Com a possível delação promovida pelo empresário Nelson Vígolo e o advogado Vanderlei Chilante, os fatos narrados na reportagem do JGB podem ter desdobramentos nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Bahia, Pará e Piauí, locais onde o poderoso grupo econômico agropastoril Bom Jesus opera.

O Caso Faroeste

Em 10 de dezembro de 2019, a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou ao STJ 15 pessoas por envolvimento no Caso Faroeste 1 – entre elas quatro desembargadores do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) e três juízes estaduais – pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.

A ação judicial foi decorrente de inquérito instaurado a partir da descoberta de indícios da existência de uma organização criminosa que funcionou entre 2013 e 2019, e que tem como principal operador Adaílton Maturino dos Santos.

O esquema envolveu a venda de sentenças e outros crimes que tinham como propósito permitir a grilagem de terras nos municípios de Formosa do Rio Preto e Santa Rita De Cássia, situados no oeste da Bahia.

Dada a complexidade do Caso Faroeste e a apreensão de novos elementos de prova, os investigadores solicitaram ao relator, ministro Og Fernandes, a continuidade das diligências para aprofundar as apurações em relação a fatos e pessoas não relacionados na denúncia apresentada.

Baixe

Ação Penal Nº 953 que tramita no STJ e na qual são réus a desembargadora Sandra Inês Rusciolell, o empresário Nelson Vígolo e outros

Pedido de busca e apreensão criminal nº 10 contra a desembargadora do TJBA Sandra Inês Moraes Rusciolelli Azevedo e outros

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Capítulo II do Caso Faroeste 2: O encontro entre Júlio César e Vasco Rusciolelli Azevedo; Advogado, filho da desembargadora, recebeu propina oriunda do latifundiário Nelson Vígolo

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About the Author

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).