Sergipe e a Covid-19, a ajuda dos céus | Por Ângelo Augusto Araújo

Casos da Covid-19 apresentam redução em Sergipe.
Casos da Covid-19 apresentam redução em Sergipe.

O número de mortes pela Covid-19 em Sergipe deixou o estado com cicatrizes inapagáveis pelo tempo. Mesmo o tempo que confortará a dor dos entes que ficaram, a história do desastre será contada por séculos e ligada aos nomes das figuras “importantes”, mostrando os rastros dos desgovernos que permitiram e permitem aumentar o sofrimento de uma população já tão sofrida e desigual. Ultimamente, a dor e as preces das pessoas, sofridas e temerosas com “os castigos” causados pelas apatias dos governantes, parecem que vem sortindo efeitos no sentido de controlar os desastres das infecções pelo Sars-CoV-2. Os gráficos de registros diários de novos casos de contaminação e óbitos, assim como, os níveis de ocupação hospitalar diminuindo, parecem demonstrar uma curva descendente, esboçando sinais de controle pandêmico[1]. Mas, pergunta-se: Como pode se explicar o controle pandêmico, se não existiram atitudes efetivas de rastreamento e isolamento dos infectados?

Em Sergipe, como em algumas localidades do Brasil, a pandemia parece ter perdido o fôlego. Excluindo os domingos e segunda-feira que refletem o rastreamento do final de semana, os números de contaminação e óbitos, assim como, a taxa de ocupação hospitalar vêm caindo significativamente. Partindo da hipótese que não existiram atitudes, de grande monta, efetivas para controlar a pandemia, a exemplo dos outros países[2], os fatos que poderiam explicar a estabilização, ou mesmo a queda dos números, estariam relacionados, particularmente em Sergipe, a:

·         Baixa testagem[3] – Essa primeira hipótese poderia, de fato, justificar o não aumento do número de casos de novos contaminados, contudo, não justificaria a queda no número de óbitos e diminuição do internamento hospitalar.

·         Adesão ao uso de máscaras, higiene das mãos e cuidados no distanciamento social[4] – Essa hipótese de cunho social é muito viável, podendo, em partes, ser refutada quando se faz o levantamento da quantidade de pessoas em situação de vulnerabilidade[5]. Considerando que 42,8% da população sergipana é classificada como pobre[6] e 82% dos municípios de Sergipe tem doenças por falta de saneamento básico[7]. Destacando que Sergipe tem um dos piores índice Gini e IDH do país[8], somados a isso, a baixa escolaridade[9], o que, possivelmente, levará a boa compreensão das necessidades do autocuidado. Cobrar higienização, uso e troca de máscaras de forma regular, sem um auxílio efetivo do governo, é uma hipocrisia tamanha. Recentemente, um grande jornal publicou que Sergipe está ranqueado na 16ª  posição[10], em âmbito nacional, relacionada a adesão ao isolamento social. É possível verificar a utilização de máscaras e o respeito ao distanciamento social nas zonas que habitam as classes média e alta do estado, todavia, o mesmo não se observa nos interiores e periferia das grandes cidades. Mesmo entre as pessoas mais esclarecidas e com o poder financeiro melhor, observa-se o uso incorreto do utensílio, imagine para os que faltam essas faculdades.

·         Teoria da conspiração governamental[11] – Nessa hipótese, que tem alguns adeptos, inclusive diversas vezes comentadas pelo governo federal, o registro de casos pelos estados e municípios nunca foram os reais. Segundo essa teoria, existiam complôs de governantes, a fim de adquirirem maiores quantidades de verbas para seus locais de atuação, com a finalidade de promover o desvio de recursos para uso político. Sendo que os números de casos de contaminação pelo Sars-CoV-2 eram alardeados pela mídia, com a finalidade de causar temor na população e garantir o envio de recursos para o controle da pandemia. Essa hipótese, também, é refutada facilmente observando o comportamento da taxa de ocupação dos hospitais[12], assim como, o registro de óbitos no portal da transparência[13] e o número de sepultamentos nos cemitérios.

·         A Covid-19 é uma “gripezinha”[14] – A hipótese de ser uma “gripezinha” é prontamente refutada no sentido da alta infecciosidade viral (transmissibilidade), assim como, a grande quantidade de óbitos que vem deixando no seu caminho. Contudo, quando se observa no Brasil e, particularmente, em Sergipe, a taxa de letalidade oficial é de 3,3% e de 2,5%, respectivamente. Considerando os inúmeros casos que não foram identificados pela falta de rastreamento, e os modelos estatísticos[15] sugerindo que o número de contaminados é 7 vezes mais, ou seja, a taxa de letalidade cairia exorbitantemente, caso essa premissa seja comprovada, ficando em torno de 0,47% e 0,36%, respectivamente.

Entretanto, a alta infecciosidade não caracterizaria uma “gripezinha”, assim como, mesmo se tratando de uma possível baixa taxa de letalidade, não justificaria a desconsideração, a falta de atitudes e a exposição de toda a população ao vírus, pois, levou embora 104.201 brasileiros e 1.653 sergipanos. Destaca-se que nada justifica a dor, o sofrimento e a morte, assim como, a loteria da vida individual, sem saber quem será susceptível ou não. O papel do estado é proteger a população, se não, não haveria sentido em manter toda uma estrutura constitucional da nação, atitudes contrárias são ditas anticonstitucionais[16].

Partindo dessa hipótese que julgaria a existência de um grande número de infectados e assintomático, justificando, ainda, a queda do número de registro de novos contaminados, óbitos e baixa internação hospitalar, permite-se a abertura da próxima hipótese.

·         Imunização de rebanho atingida[17],[18] – Essa hipótese parece ser possível, considerando a baixa testagem e o obscurecimento epidemiológico, e a probabilidade de muitas pessoas terem sido infectadas e assintomáticas. Possivelmente, poderíamos ter atingido a imunização coletiva, entretanto, para provar essa hipótese, teria que ser realizado o teste qualitativo sorológico (não o teste rápido) em grande parte da população. Porém, as questões imunológicas ainda estão longe de serem totalmente compreendidas.

·         Maior resistência dos brasileiros ao Sars-CoV-2[19] – Essa hipótese já foi levantada pelo governo federal. Devido ao obscurecimento epidemiológico, exposto anteriormente, possivelmente, teríamos 07 vezes a mais infectados do que aparecem nos números oficiais, tendo em vista, que estão testando apenas as pessoas suspeitas. Nessa hipótese, a letalidade oficial não representaria a realidade, portanto, existiria algo na estrutura biológica dos brasileiros que precisaria ser mais bem esclarecido.

·          As benditas chuvas sazonais[20] – O estado de Sergipe, principalmente na zona litorânea, está chovendo muito. As chuvas como estão ocorrendo e, no momento, com os apelos de fiquem em casa favorecendo a não aglomeração, consequentemente, a diminuição da transmissibilidade. As contras-argumentações poderia está relacionada com o período de maior infecções respiratórias, contudo, com o baixo contato, baixa transmissão. Somado a isso, poderia se advogar o uso de máscaras, mesmo que incorretamente utilizadas, seria mais uma barreira à contaminação.

Portanto, nessa pandemia que levou a vida de 104.201 brasileiros e dentre eles 1.653 sergipanos, os sofrimentos causados pelas perdas financeiras e, principalmente, das vidas, não serão brevemente apagados pelo tempo. Entretanto, a epidemiologia sugere que parecem esboçar nos gráficos e curvas os sinais de declínios pandêmicos. Todavia, os fatos que fizeram as curvas apresentarem uma tendência de baixa, não figuram como ações ativas e associadas a atitudes governamentais. A exposição da população ao alastramento da pandemia é o que está mais evidente. A sorte, o acaso, o grande mistério é o que vem desenhando o controle pandêmico. A responsabilidade de quem deveria zelar e cuidar, pelo ao menos na visão da materialidade, foi entregue, e se estabeleceu uma relação com o ocultismo (o criador), o que ainda a ciência não explica. As preces, dores e os sofrimentos transcrevem a força da paz, fraternidade e solidariedade que, de certo modo, não foram compreendidas pela maioria dos responsáveis por deixarem a pandemia se alastrar e causar tantos transtornos. As dores das perdas poderão ser, em partes, cicatrizadas pelo o tempo, mas, a história reviverá, ligando os nomes as suas respectivas responsabilidades.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Referências

[1] Informação disponível em: https://covid.saude.gov.br/, acesso em: 13/08/2020.

[2] Informação disponível em: https://www.nytimes.com/2020/04/04/world/europe/germany-coronavirus-death-rate.html, acesso em: 13/08/2020.

[3] Informação disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/sergipe-os-tropecos-no-enfrentamento-da-covid-19-um-modelo-que-podera-refletir-o-brasil-por-angelo-augusto-araujo-e-rodrigo-silva/, acesso em: 13/08/2020.

[4] Informação disponível em: https://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2020/08/12/sergipe-cai-no-indice-de-isolamento-social-e-fica-na-16a-posicao-no-pais.ghtml, acesso em: 13/08/2020.

[5] Informação disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/8908/1/Vulnerabilidade%20Sergipe.pdf, acesso em: 13/08/2020.

[6] Informação disponível em: http://www.jornaldacidade.net/cidades/2018/12/305044/pobreza-afeta-428-da-populacao-sergipana.html, acesso em: 13/08/2020.

[7] Informação disponível em: https://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2018/11/07/estudo-aponta-que-82-dos-municipios-de-sergipe-registraram-doencas-relacionadas-a-falta-de-saneamento-basico.ghtml, acesso em: 13/08/2020.

[8] Dados do IBGE, podem ser acessados: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/se.html, acesso em: 13/08/2020.

[9] Informação disponível em: http://www.jornaldacidade.net/cidades/2018/06/301061/se-possui-o-segundo-pior-idh-da-educacao-do-ne.html, acesso em: 13/08/2020.

[10] Idem 4

[11] Informação disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/sem-provas-bolsonaro-questiona-numero-de-mortos-por-covid-19-fala-em-fraude-para-uso-politico-24333952, acesso em: 13/08/2020.

[12] Informação disponível em: https://todoscontraocorona.net.br/boletins/, acesso em: 13/08/2020.

[13] Informação disponível em: https://transparencia.registrocivil.org.br/registros, acesso em: 13/08/2020.

[14] Informação disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/governo/gripezinha-e-histeria-cinco-vezes-em-que-bolsonaro-minimizou-o-coronavirus/, acesso em: 13/08/2020.

[15] Informação disponível em: http://ccs2.ufpel.edu.br/wp/2020/05/25/covid-19-no-brasil-varias-epidemias-num-so-pais/, acesso em: 13/08/2020.

[16] Informação disponível em: http://www.saude.am.gov.br/planeja/doc/constituicaofederalde88.pdf, acesso em: 13/08/2020.

[17] Informação disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53427741, acesso em: 13/08/2020.

[18] Informação disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/imunidade-de-rebanho-covid-19-sao-paulo-manaus/, acesso em: 13/08/2020.

[19] Informação disponível em: https://www.publico.pt/2020/07/07/mundo/noticia/gripezinha-imunidade-brasileiro-dez-momentos-bolsonaro-desvalorizou-covid19-1923479, acesso em: 13/08/2020.

[20] Informação disponível em: https://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2020/06/03/chuvas-acima-da-media-e-ventos-extremos-podem-ser-registrados-em-sergipe-no-proximo-trimestre-diz-meteorologista.ghtml, acesso em: 13/08/2020.

Ângelo Augusto Araújo
Sobre Ângelo Augusto Araújo 35 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.