As Fake News e as cartas falsas | Por Luiz Holanda 

Apesar de parecer recente, o termo fake news, ou notícia falsa, em português, é mais antigo do que aparenta. Segundo o dicionário Merriam-Webster, essa expressão é usada desde o final do século XIX. O termo é em inglês, mas se tornou popular em todo o mundo para denominar informações falsas que são publicadas, principalmente, em redes sociais.
Apesar de parecer recente, o termo fake news, ou notícia falsa, em português, é mais antigo do que aparenta. Segundo o dicionário Merriam-Webster, essa expressão é usada desde o final do século XIX. O termo é em inglês, mas se tornou popular em todo o mundo para denominar informações falsas que são publicadas, principalmente, em redes sociais.

Estamos vivendo uma época em que a distribuição deliberada de notícias falsas via jornal impresso, televisão, rádio ou mesmo online com a intenção de enganar tornou-se uma pandemia pior do que a do Coronavírus. Este tipo de notícia é escrito e publicado com a intenção de se obter ganhos financeiros ou políticos com notícias sensacionalistas para chamar a atenção.

O conteúdo intencionalmente enganoso emprega manchetes atraentes ou inteiramente fabricadas para aumentar o número de leitores, principalmente via on line. A quantidade de sites com essas notícias e a falta de editores conhecidos também vem crescendo, pois já descobriram que esse meio de divulgação torna difícil processar os autores por calúnia.

Diante desse fato, estamos repetindo velhas histórias com novas tecnologias, como aconteceu nas últimas eleições. Em 9 de outubro de 1921, no ambiente polarizado da campanha eleitoral para presidente da República, o jornal Correio da Manhã publicou na sua capa o que parecia ser uma carta de Arthur Bernardes, governador de Minas Gerais e candidato à presidente da República, dirigida ao senador Raul Soares.

Na realidade, as cartas eram duas, escritas numa linguagem chula e deselegante contendo ofensas a Nilo Peçanha, concorrente de Bernardes na disputa presidencial. Além de ofensivas, as cartas questionavam a integridade moral das forças armadas. Na primeira carta, o marechal Hermes da Fonseca era chamado de “sargentão sem compostura”. Quando questionado sobre a autoria das cartas, Bernardes negou, apontando erros gramaticais que ele jamais cometeria.

Hermes também era candidato a presidente da República, e o banquete em que foi lançada oficialmente a sua candidatura foi descrito como uma “orgia”. Na carta, exigia-se a punição dos militares venais, que, segundo a missiva, eram quase a totalidade. E que, se o presidente não tivesse força para puni-los, que os comprasse “com seus bordados e galões”.

A segunda carta se referia a uma prorrogação da Convenção, “porque ela deveria ter sido realizada antes da chegada do Nilo, pois como V. disse, esse moleque é capaz de tudo. Remova toda dificuldade como bem entender, não olhando despesas”.

O resultado todo sabemos. Os militares exigiram a renúncia de Artur Bernardes e apoiaram abertamente o candidato Nilo Peçanha. Nada disso adiantou, pois Bernardes venceu as eleições. Tempos depois os autores confessaram a falsificação, afirmando que as cartas  visavam eliminar a candidatura de Bernardes em favor do marechal Hermes da Fonseca.

As fake News atuais são as cartas falsas do passado. A diferença é o potencial de circulação no ambiente online, sobretudo em virtude do uso das redes sociais digitais. Apesar de as notícias fabricadas serem um fenômeno antigo, sua disseminação abre margem para que a desinformação atinja um novo patamar. Esse problema ganhou visibilidade pela capacidade de influenciar o processo eleitoral acentuando a polarização política.

O problema é que as fake News se transformaram em política de Estado, uma das bases do neopopulismo de organização do poder, segundo o filósofo francês Pierre-André Taguieff. Esse discurso passional e apelativo já foi delineado por Max Weber, com a diferença de que, hoje, ele ocupa um espaço invisível e intocável, feito no ar: as redes sociais.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.

Luiz Holanda
Sobre Luiz Holanda 338 Artigos
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]