Sergipe, diário de bordo, os tropeços no enfrentamento da Covid-19, modelo que poderá refletir o Brasil – Parte 2 | Por Ângelo Augusto Araújo

Falhas no enfrentamento à pandemia da Covid-19 resulta em mistanásia.Falhas no enfrentamento à pandemia da Covid-19 resulta em mistanásia.

Para alguns fazem quase 4 meses isolados em seus domicílios e com suas atividades econômicas suspensas, ainda saudáveis, e a pandemia sendo somente notícias de jornais. Para outros, a Covid-19 bateu fortemente nas suas portas, contagiando alguns com pouco ou quase nenhum sintoma, permitindo a sensação de alívio temporário e o

medo de reinfecção, possivelmente, mais forte que a anterior. Entretanto, para os mais susceptíveis aos desastres da Covid-19, alguns que tiveram sorte e conseguiram vagas para internamentos, lutam nas unidades hospitalares pela vida, em meio aos ambientes que transcrevem os desesperos pelas sobrecargas de serviços. Todavia, para os que não tiveram tanta sorte, aparecem diariamente inominado como um número nas estatísticas dos boletins que descrevem a quantidade de mortes. Mas, o pior é descrever esse cenário sem uma perspectiva de mudança para melhor, sem ainda previsão para a concretização da vacina, calcula-se uma mudança para pior.

No último boletim[1], 09/07/2020, foi registrado em Sergipe a ocorrência de 33.416 casos, sendo que entre esses estão 901 óbitos. Ainda segundo o boletim, foram processados 61.956 testes, dentre os quais estão os pacientes que foram “descartados”, os casos confirmados (descrito acima), e os 4.872 casos que estão esperando resultados. Evidentemente, não estão nessa contabilidade as pessoas que aguardam para serem testadas. Em verdade, o que se observa é que:

·         Parece que o número de casos ainda não é maior, pois, tem relação com a capacidade limite de testes realizados pelo estado. Essa lógica pode ser fundamentada nas notas de rodapé, relacionada aos exames que são enviados para serem processados na FIOCRUZ.

·         O estado de Sergipe estava sem atualizar o seu estoque de RT-PCR, desde o dia 05/06/2020, sendo que o teste RT-PCR é considerado padrão ouro pela OMS. A quantidade disponível desse exame caía diariamente, sofreu pequeno acréscimo no boletim do dia 09/07/2020.

·         Aparecem em todos os boletins, dentre os testes processados e com maior quantidade, o “teste rápido”. Como destacado em artigo do mesmo autor, o teste rápido tem pouca utilidade devido a baixa sensibilidade e especificidade[2]. Todavia, é o teste que é mais investido pelo governo de Sergipe. Os investimentos nas aquisições desses testes rápidos são atualizados com mais frequência nos boletins. Destaca-se que o teste rápido não fecha e não descarta diagnóstico.

·         A relação com a melhor forma de controle da pandemia é o entendimento epidemiológico, rastreamento massivo com RT-PCR e isolamento dos infectados. As localidades que tiveram esse entendimento, como a Alemanha, Itália, França, Espanha, dentre outros, a relação de rastreamento por exame foi elevadíssima. Na Alemanha, por exemplo, a relação foi de 16:1, ou seja, 16 pessoas testadas para pegar e isolar 01 pessoa infectada. Em Sergipe, essa relação está na proporção de menos que 2:1, ou seja, estão testando somente os casos suspeitos[3]. Os pacientes assintomáticos e oligossintomáticos continuam infectando os susceptíveis.

·         Desde quando a cadeia de transmissibilidade não é interrompida, o reflexo, logicamente, é o aumento dos contaminados. As pessoas mais susceptíveis as consequências graves da infecção, assim como, os reinfectados irão, logicamente, procurar com mais frequência as unidades de saúde. Em Sergipe, segundo o último boletim, já não existem mais vagas nas unidades privadas para os doentes com a Covid-19, ou seja, quem tem uma condição financeira diferenciada terá que disputar as poucas vagas existentes no setor público. No artigo do mesmo autor que debate sobre a diferenças das taxas de mortalidade entre dois países[4], destaca que a demanda dos pacientes infectados não fazendo pressão na oferta de estruturas hospitalares, ou seja, a disponibilidade com folga para o atendimento dos infectados, parece ter grande influência na quantidade de óbitos. Em outro artigo, o autor debate sobre os modelos de gestão baseado nos limites da urgência[5].  A gestão pública brasileira parece ter sempre trabalhado sobre a pressão da demanda, o que não seria diferente nesse momento.

No panorama geral do Brasil, com relação ao registro de novos casos relatados pelos boletins das ocorrências, percebe-se um padrão cíclico de registro dos novos casos[6]. De um modo geral, as curvas ainda não demonstram evidências claras de formação de platô, o que retrataria início de controle pandêmico, o que se observa como padrão em plena pandemia são os ciclos de queda dos novos registros nos finais de semana. Outra, questão é: será que os outros estados brasileiros estão seguindo a cartilha de descontrole pandêmico observado no estado de Sergipe?

No diário que descreve os registros da evolução dessa pandemia no Brasil, as páginas são repetidas, os alertas estão escritos nas datas que antecediam esse total descontrole. Ainda não tínhamos tantos infectados, consequentemente, nem tantos mortos. Atualmente, as páginas do diários estão sendo preenchidas pelos registros de pessoas que tiveram as suas vidas atenuadas por motivos evitáveis (Mistanásia)[7], escritas pelo sofrimento da população que perderam seus entes queridos, assim como, pelo temor de contaminação das pessoas que ainda não passaram por essa terrível experiência, ou dos que passaram, pelos riscos de reinfecção. Entretanto, a parte mais obscura do diário de bordo, é a naturalização da morte[8], e a aposta em medicações experimentais como profilaxia[9].

Em artigo publicado pela CNN[10], retrata a corrupção no Brasil em meio a explosão dos números de casos de contaminados. Como já se não bastassem os sofrimentos causados pela pandemia. Em artigo publicado no Jornal Grande Bahia (JGB), o autor comenta sobre a proposta de endemização da contaminação pelo novo coronavírus, da mesma forma que foi percebida para os outros problemas[11]. O que parece, como observado pela CNN para os Estados Unidos da América[12], é que o Brasil encontra-se mergulhando profundamente em um grande buraco negro da Covid-19 sem planos para sair.

Para finalizar a página desse diário de bordo, os que tiveram a possibilidade de permanecer em isolamento por aproximadamente 4 meses, e ainda tiveram a sorte de não se contaminar, finaliza-se essa página, com  esperança voltada para o surgimento de uma vacina segura e eficaz, que a princípio não se disponibilizará tão rápido. Portanto, resta apenas a paciência, tolerância e a capacidade financeira de auto sustentação, tendo em vista que em Sergipe, assim como, no Brasil, a gestão pública não se atentou para a única arma que tínhamos: a epidemiologia, caminhos da salvação[13] (O Brasil na época tinha 43.592 casos e 2.769 óbitos). Reforça-se o apelo pela a não naturalização da morte [14].

Para os que infelizmente não tiveram, ou não tem mais a possibilidade de se resguardar, lamenta-se com a tristeza dos riscos expostos a má sorte, já que os horizontes próximos não esboçam outras soluções. E aos que perderam pessoas queridas ou têm entes hospitalizados, entrega-se ao criador os vossos confortos, assim como, as lembranças registradas no diário dos responsáveis pelo descontrole da pandemia.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Referências

[1] https://todoscontraocorona.net.br/wp-content/uploads/2020/07/Boletim-09.07.2020.pdf, acessado dia 10/07/2020.

[2] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/sergipe-os-tropecos-no-enfrentamento-da-covid-19-um-modelo-que-podera-refletir-o-brasil-por-angelo-augusto-araujo-e-rodrigo-silva/, acessado dia 10/07/2020.

[3] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/sergipe-os-tropecos-no-enfrentamento-da-covid-19-um-modelo-que-podera-refletir-o-brasil-por-angelo-augusto-araujo-e-rodrigo-silva/, acessado dia 10/07/2020.

[4] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/05/covid-19-estruturas-ofertadas-e-a-demanda-diferencas-na-mortalidade-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 10/07/2020.

[5] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/05/covid-19-limites-da-urgencia-modelo-de-gestao-no-brasil-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 10/07/2020.

[6] https://covid.saude.gov.br/, acessado dia 10/07/2020.

[7] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/governo-de-sergipe-descaracteriza-a-recomendacao-internacional-e-assume-a-mistanasia-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 10/07/2020.

[8] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/os-riscos-de-naturalizacao-da-morte-pela-covid-19-no-brasil-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 10/07/2020.

[9] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/brasil-e-a-covid-19-descontrole-desespero-e-o-clamor-pela-prudencia-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 10/07/2020.

[10] https://edition.cnn.com/2020/07/08/americas/brazil-coronavirus-corruption-intl/index.html, acessado dia 10/07/2020.

[11] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/07/a-pandemia-pelo-novo-coronavirus-parece-ter-causado-a-cura-para-outros-males-entretanto-evidencia-a-mistanasia-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 10/07/2020.

[12] https://edition.cnn.com/2020/07/10/politics/donald-trump-coronavirus-no-plan/index.html, acessado dia 10/07/2020.

[13] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/covid-19-epidemiologia-o-caminho-da-salvacao-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 10/07/2020.

[14] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/os-riscos-de-naturalizacao-da-morte-pela-covid-19-no-brasil-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 10/07/2020.

Micrografia eletrônica de varredura colorida de uma célula fortemente infectada com partículas do vírus SARS-CoV-2 (amarelo), isoladas de uma amostra de paciente. A área preta da imagem é espaço extracelular entre as células. Imagem capturada no NIAID Integrated Research Facility (IRF) em Fort Detrick, Maryland.

Micrografia eletrônica de varredura colorida de uma célula fortemente infectada com partículas do vírus SARS-CoV-2 (amarelo), isoladas de uma amostra de paciente. A área preta da imagem é espaço extracelular entre as células. Imagem capturada no NIAID Integrated Research Facility (IRF) em Fort Detrick, Maryland.

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About the Author

Ângelo Augusto Araújo
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.