Região árabe tem oportunidade de se recuperar melhor da Covid-19 | Por António Guterres

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António Guterres, secretário-geral da ONU.
António Guterres ressalta “tremenda diversidade e potencial” da região árabe e dos desafios enfrentados por todos os países e que a era pós-Covid traz uma oportunidade para redesenhar o modelo econômico global.

A pandemia do Covid-19 expôs falhas, fissuras e fragilidades nas sociedades e nas economias em todo o mundo, e a região árabe não é uma exceção.

A região árabe é abençoada com uma tremenda diversidade e potencial. Mesmo assim, todos os países árabes: ricos em petróleo, de renda média ou menos desenvolvidos enfrentam dificuldades na resposta.

A pandemia global expôs desafios endémicos.

A economia regional sofreu vários choques tanto do vírus como da queda acentuada dos preços do petróleo, das remessas e do turismo.

As previsões económicas estão nos níveis mais baixos dos últimos 50 anos.

A economia regional deverá cair mais de 5% – com alguns países a enfrentarem contrações de dois dígitos.

Com outros milhões de pessoas a serem empurradas para baixo, um quarto da população árabe poderá viver na pobreza.

Em uma região já cheia de tensões e desigualdades, isso terá profundas consequências na estabilidade política e social.

Algumas comunidades são especialmente atingidas incluindo mulheres e migrantes, que representam 40% da força de trabalho, e os 55 milhões de pessoas que já contam com assistência humanitária para sobreviver.

Aqueles apanhados pelos conflitos armados enfrentam desafios particulares, especialmente os 26 milhões de refugiados e pessoas deslocadas internamente, que estão entre os mais expostos ao vírus.

Mas a pandemia da Covid-19 também pode ser um momento para resolver conflitos de longa data e fragilidades estruturais.

Quatro conjuntos de prioridades podem orientar a resposta para recuperar melhor e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Primeiro: medidas imediatas para retardar a propagação da doença, acabar com o conflito e atender as necessidades urgentes dos mais vulneráveis.

Isso significa dar prioridade a cuidados de saúde que salvam vidas, respeitando o apelo de um cessar-fogo global; garantir assistência humanitária aos mais vulneráveis incluindo refugiados, deslocados e comunidades de acolhimento; presta apoio de emergência a indivíduos e famílias; e tomar medidas para aliviar a dívida, promover o comércio e expandir o apoio, por exemplo, através de um fundo de solidariedade regional.

Segundo: devemos intensificar os esforços para combater as desigualdades, investindo em saúde e educação universais; proteção social e tecnologia.

A região abriga a maior lacuna de género do mundo no desenvolvimento humano. A recuperação da Covid-19 é uma oportunidade de se investir em mulheres e meninas, garantir igualdade de direitos e de participação, o que trará benefícios duradouros para todos.

A educação e as oportunidades também são críticas para os jovens da região que enfrentam taxas de desemprego cinco vezes maiores que as dos adultos. Com os investimentos certos, a juventude árabe, que é agora a maior faixa etária da região, também pode ser o seu maior ativo.

Terceiro, impulsionar a recuperação económica redesenhando o modelo económico, favorecendo economias verdes mais diversificadas.

Isto significa criar empregos dignos sustentáveis; introdução de medidas tributárias progressivas; acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis e ter mais em conta os riscos climáticos.

Quarto: este é o momento de dar prioridade aos direitos humanos, garantir uma sociedade civil vibrante e meios de comunicação livres, e criar instituições mais responsáveis que aumentarão a confiança dos cidadãos e fortalecerão o contrato social.

Todas essas etapas são fundamentais para ajudar a região árabe a recuperar melhor e a melhorar a sua capacidade de suportar futuros choques.

A região árabe pode lá chegar aproveitando ao máximo o notável potencial, compaixão e engenho do seu povo.

Juntos, podemos transformar uma crise em uma oportunidade. Será bom para a região e para o nosso mundo.

Obrigado.

*António Guterres, secretário-geral da ONU.

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