Prefeitura do interior da Bahia envia para os seus cidadãos os Kits Morram em Casa | Por Ângelo Augusto Araújo

Profissionais da saúde prescrevem o ‘Kit Morra em Casa’.Profissionais da saúde prescrevem o ‘Kit Morra em Casa’, como pseudo forma de salvação para casos da Covid-19.

Os números de contaminados crescem diariamente no mundo inteiro[1], os lugares que se atentaram para as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), abrem a economia cautelosamente[2], entretanto, os países que desconsideraram as recomendações da OMS[3], vivem sob tropeços[4], sem perspectivas de controle pandêmico, assim como, assustados pelos aumentos bruscos das demandas dos pacientes infectados com a Covid-19[5]. Os reflexos dessas situações são observados em atitudes esdruxulas que começam aparecer em algumas localidades[6].

Os sentimentos de desespero e despreparo para enfrentar as situações críticas, estão sendo comumente observados no decorrer da pandemia. Diante dos apelos pontuados por inúmeros órgãos, nacionais e internacionais, chamando a atenção para centralidade dos pensamentos e ações, destaca-se o auto equilíbrio, que nessa situação crítica, é um ponto muito importante para os formadores de opiniões, assim como, para os gestores. Sem as posses das razões, as condutas propostas devem ser checadas pelas normas e regulamentações que, nem sempre, têm efeitos imediatos. A população fica exposta aos devaneios e as crenças dos profissionais da saúde e gestores, os quais fundamentam seus pensamentos na óptica observacional, alienada, que não passaram pelos filtros da ciência, medicina baseada em evidência, e nem pelas questões de ordens éticas. Nessa fase que ascende a contaminação, causado pela poucas medidas adequadas para controle pandêmico, os desesperos somados aos processos negacionistas, associados ao pavor e medo da morte, denegação, relacionam-se com as inexistências de condutas médicas que aliviem o grande peso da responsabilidade pelas mortes, assim como, o sentimento de frustração do nada mais a fazer. Tudo isso vêm estimulando o pensamento, desestruturado, fora da lógica que fundamenta toda medicina, mas, que permite bases para reabertura econômica.

Nessa segunda-feira (13/07/2020), aparece como denúncia no segmento de notícias de um importante jornal do país[7], o envio de “Kits Covid” para pacientes “sintomáticos”, composto por Hidroxicloroquina, Ivermectina e Azitromicina, pela prefeitura de Itagi – Bahia. Segundo a matéria do jornal, quando o secretário de saúde do município foi questionado a respeito dos envios dos kits, respondendo em nome da prefeitura, fundamentou que os envios dos “kits Covid”, baseavam-se na “diminuição da exposição da população a possíveis contaminados durante a busca pelas medicações nas farmácias”. Esse pensamento desmedido fundamenta-se no “princípio da beneficência”, assim como, nas bases clientelistas políticas conhecidas por todos nós.

A atitude do secretário de saúde faz parte dos reflexos, de todo um contexto, que vão desde a publicização de assuntos médicos sem medidas de consequências, a politização de condutas médicas. Faz parte dos despreparos dos profissionais que ignoraram aspectos éticos[8], infringiram, no mínimo, o artigo 113 do código de ética, e autorizaram a automedicação, sem critérios, para a população[9]. É, também, o reflexo da busca pelo ineditismo[10] e da auto projeção dos indivíduos, que procura está em evidência por pequenos momentos, mesmo que lhe custe o desgaste da sua imagem. Faz parte da politização das autoridades que se desarticulam das suas posições políticas e assumem o papel de médico prescritor[11]. Os reflexos de tudo isso, também, é observado na óptica política da gestão pública, demonstrando o despreparo e a falta de debates dos gestores públicos, que não observam as cadeias de consequências das suas atitudes desmedidas.

Na visão ética principialista, fundamentada no princípio da não maleficência, o mínimo que a medicina condena é a automedicação. Supondo que os pacientes fossem capazes de se auto avaliar, entendendo sobre as bases de diagnósticos e sabendo fazer fundamentações de uso de medicamentos, com as ponderações dos riscos e benefícios, partindo desse pressuposto, não seria necessário a medicina e nem todo os recursos tecnológicos. De outro modo, as diversidades das questões humanas, somente, devem ser avaliadas e ponderadas por profissionais de saúde, dentro de uma composição, que somente o médico será capaz de fazer o diagnóstico dos problemas pontuais de cada indivíduo. Partindo de outro pressuposto, composto por uma medicação aprovada para o uso, de alguma patologia qualquer, somente um profissional de saúde bem formado será capaz de indicar ou não um tratamento medicamentoso, visando a beneficência e não maleficência para o indivíduo.

No caso relatado, alguns profissionais que advogaram o posicionamento do secretário de saúde, esqueceram de ponderar algo muito importante que o Conselho Federal de Medicina vem defendendo faz décadas, o ato médico. Quando se delega ao indivíduo a auto checagem dos seus problemas de saúde e autoriza a ele se automedicar, de certo modo, abre o precedente para as demais doenças, assim como, expõe o paciente aos riscos dos efeitos colaterais da auto medicação e, por não ser médico,  não percebe a evolução da doença, pela crença que já está sendo medicado, pode resultar no agravamento do quadro clínico, somado aos efeitos colaterais das drogas, e na morte em domicílio. Nessa atitude contraditória, que cursa o caminho contrário da boa norma médica, tem as consequências de relegar a importância do médico, profissional treinado para o ato, assim como, expõe o individuo aos riscos, sem precedentes, de automedicação, nesse caso dos “Kits Covid” tratam-se de medicações experimentais e com uma série de efeitos colaterais altamente perigosos[12].

Portanto, as tratativas para casos como esse, de aspectos tão esdrúxulos, no qual a apropriação dos atos exclusivos de médicos, não pode ser justificada pela menor exposição do indivíduo aos riscos de contaminação. Assim como, mesmo que as medicações utilizadas não fossem experimentais, as prescrições e as orientações de uso teriam o seu caráter particular, por esse motivo, devem ser usadas sob a óptica médica.

No Brasil existem relatos de aumento das mortes em domicílio relacionadas com a Covid-19[13]. Caso como esses devem ser revistos e analisados pelo Ministério Público e Conselho Federal de Medicina, inoportunamente, esses “Kits Covid” poderão está relacionados com mortes em domicílio, pacientes que teriam contra indicação de uso. A solução apresentada, cientificamente, para o controle da propagação do coronavírus, foi motivo de muitos artigos[14],[15]. As tristezas causadas pelas frustações de veem pessoas morrendo, acumulando-se nos hospitais e nos necrotérios, não poderão ser escondidas distante dos olhos dos gestores públicos com as mortes em domicílio, assim como, atenuadas pelos alívios dos placebos, com dose de venenos, nos Kits Morram em casa e livre-me dos problemas.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Referências

[1] https://www.worldometers.info/coronavirus/

[2] https://ourworldindata.org/covid-exemplar-germany

[3] https://edition.cnn.com/2020/07/10/politics/donald-trump-coronavirus-no-plan/index.html

[4] https://edition.cnn.com/2020/07/08/americas/brazil-coronavirus-corruption-intl/index.html

[5] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/06/19/lotados-hospitais-no-interior-paulista-recusam-novas-internacoes-por-covid-19.htm

[6]  https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/07/12/bahia-prefeitura-cria-delivery-de-kit-covid-com-cloroquina-e-ivermectina.htm

[7] Idem

[8] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/05/hidroxicloroquina-e-covid-19-aspectos-bioeticos-e-riscos-de-implicacoes-juridicas-por-angelo-augusto-araujo/

[9] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/brasil-e-a-covid-19-descontrole-desespero-e-o-clamor-pela-prudencia-por-angelo-augusto-araujo/

[10] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/covid-19-e-bioetica-racionalidade-relacionada-ao-ineditismo-e-pertencimento-por-angelo-augusto-araujo/

[11] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/hidroxicloroquina-verdades-e-debates-desproporcionais-por-angelo-augusto-araujo/

[12] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/hidroxicloroquina-para-covid-19-tragedia-ou-solucao-anunciada-por-angelo-augusto-araujo/

[13] https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/mortes-em-casa-disparam-especialistas-afirmam-que-numeros-podem-indicar-subnotificacao-de-covid-19-24467945

[14] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/brasil-e-covid-19-uma-historia-de-cegueira-epidemiologica-por-angelo-augusto-araujo/

[15] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/covid-19-epidemiologia-o-caminho-da-salvacao-por-angelo-augusto-araujo/

Profissionais da saúde prescrevem o ‘Kit Morra em Casa’.

Profissionais da saúde prescrevem o ‘Kit Morra em Casa’, como pseudo forma de salvação para casos da Covid-19.

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