Dançarinos brasileiros nos Estados Unidos criam show online inspirados na quarentena e no Black Lives Matter

O bailarino Fábio Mariano é natural de Niterói, no Rio de Janeiro. Atualmente atua nos Estados Unidos.O bailarino Fábio Mariano é natural de Niterói, no Rio de Janeiro. Atualmente atua nos Estados Unidos.

Os Estados Unidos continuam sendo o país com mais casos de Covid-19 no mundo – cerca de 3,5 milhões. Apesar de estados como Nova York estarem reabrindo aos poucos, outros como a Flórida registram picos de contaminações, causando temores de que o coronavírus volte a se espalhar onde a curva já foi reduzida. A quarentena artística, portanto, ainda não tem previsão de acabar. Dançarinos brasileiros estão se reinventando nesse momento em que não podem manter suas rotinas de treino e apresentações. E com o movimento Black Lives Matter, também refletem sobre representatividade negra na dança.

Alexandre vinha de uma rotina de ensaios, aulas e viagens pelo mundo. Acolhido na casa de amigos, se viu livre para criar e se conhecer melhor.  Ele se voltou para uma música que marcou sua vida para criar uma coreografia inspirada neste momento de reclusão: Melodia Sentimental, de Heitor Villa-Lobos. Os movimentos de sua dança espelham a rapidez da vida antes da pandemia e, no silêncio da música, volta para seu interior e expande movimentos mais lentos. Ele fez uma parceria com a intérprete Luciana Branco, que cantou à capela.

“Quando a música termina e fala ‘Acorda vem ver a lua’ é aquele lugar de tudo o que você armazenou e você realmente expande para fora, entende o mundo de uma outra maneira”, diz Alexandre. “Eu acho que a arte tem essa facilidade de elevar os sentimentos, de suavizar a dor. Como artista, a gente se sente na responsabilidade de continuar fazendo, mesmo que minimamente.”

Dançando, apesar da crise

Assim como ele, outros artistas brasileiros nos Estados Unidos estão tentando manter sua rotina, sua renda e sua motivação. Para ajudar nesse processo, a artista de circo Marcela Duarte e a bailarina Luísa Righeto criaram apresentações via zoom – já foram duas com a emoção de se apresentar ao vivo. Há cerca de dois anos, elas fundaram a companhia Ziriguidum para divulgar ritmos brasileiros em Nova York.

As duas, que já se apresentaram com apoio do icônico teatro Dixon Place, no East Village, também ficaram sem local para dançar. Na apresentação mais recente, elas mostraram seis performances diferentes de balé, dança contemporânea e samba.  “O principal é para apoiar os artistas que perderam seus trabalhos de espetáculo de dança e de aula de dança”, diz Marcela. “Motivar não só o público, mas também os artistas que estão se apresentando. É tão legal ter uma comunidade com quem a gente pode compartilhar o que a gente ama e nos dá motivação de criar mais”, dizem. Com um público de cerca de 60 pessoas, elas focaram no trabalho de bailarinos negros com inspiração no Black Lives Matter. Parte da renda arrecadada foi doada para negócios de donos negros, além dos artistas que se apresentaram.

“A gente precisa do seu cabelo negro”

Alexandre, que cresceu na periferia de Campinas, ficou contente com o enfoque e lembra que havia pouca discussão sobre raça e inclusão da cultura negra no Brasil. “Eu costumava cortar o meu cabelo muito curto. E nunca entendi que isso estava enraizado numa questão de discriminação mesmo, por não aceitar o cabelo negro. E a primeira coisa que meu diretor falou é você vai parar de raspar o cabelo curto desse jeito, a gente precisa do seu cabelo.”

Outro bailarino a se apresentar, Fábio Mariano, 27, cresceu em Niterói, no Rio de Janeiro, e tem uma experiência parecida. Fez audições para diversas companhias no Brasil e não conseguiu seu espaço. Em 2016, resolveu sair do país e foi contratado por uma companhia americana em Atlantic City, Nova Jersey. Hoje ele dança em Memphis, no Tennessee, na Collage Dance Collective, cuja missão é promover a diversidade racial no balé. Ele também está fazendo sua parte.

“Eu até criei uma plataforma chamada Blacks in Ballet com dois amigos, a Ingrid Silva e o Juan Gaudino. Nosso objetivo é mostrar que é exatamente possível sim você ser negro e fazer balé e ter uma carreira,” diz. “Existem muitos bailarinos negros pelo mundo. Ainda é triste que a maioria… a maioria não, todos, têm que sair do Brasil para fazer uma carreira.” Ele diz também que muitas companhias no mundo alegam que não há bailarinos negros qualificados e a plataforma vem mostrar que não é o caso. E diz que não basta contratar esses bailarinos, é preciso incluí-los e integrá-los com as mesmas oportunidades de crescimento.

Durante sua quarentena, Fábio também ia começar uma turnê que foi cancelada. Mas ele voltou a ter motivação quando foi chamado para fazer algumas performances no Instagram. Depois, veio o convite da companhia Ziriguidum. Criou a coreografia “Can’t stop what’s coming” (Não é possível parar o que está vindo) inspirada na quarentena, com movimentos da dança contemporânea em sua sala. Também iluminou o ambiente, ora acendendo uma luz branca e hora uma luz vermelha.

A companhia Ziriguidum está planejando novos espetáculos via zoom, ainda sem data definida. (Acompanhe as novidades no Instagram) Enquanto isso, artistas como Alexandre, Fábio, Marcela e Luísa nos transportam para experiências que nos põem em contato com nossos sentimentos e nossa humanidade. “O que me mantém inspirado é para continuar, para não desistir. Continuar com esperança do que estar por vir, que apesar de tudo o que está vindo, que está acontecendo, a gente tem de ter esperança, uma hora a gente vai sair dessa situação que não tem sido fácil para ninguém.”

*Com informações de Paula Moura, da RFI.

O bailarino Fábio Mariano é natural de Niterói, no Rio de Janeiro. Atualmente atua nos Estados Unidos.

O bailarino Fábio Mariano é natural de Niterói, no Rio de Janeiro. Atualmente atua nos Estados Unidos.

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Redação do Jornal Grande Bahia
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