Brasil e Covid-19, endemização sendo concretizada | Por Ângelo Augusto Araújo

2.343.366 casos da Covid-19 foram registrados no Brasil, nesta sexta-feira (24/07/2020).2.343.366 casos da Covid-19 foram registrados no Brasil, nesta sexta-feira (24/07/2020).

Desde 26 de fevereiro de 2020, quando foi registrado o primeiro caso do novo coronavírus no Brasil, os números de contaminados e óbitos não param de crescer. Entretanto, quando se observava as curvas logarítmicas e os gráficos em barras de registros de novos casos de contaminações e óbitos causados pelo Sars-CoV-2, até a última semana, percebia-se a formação que configurava o platô em ambas as curvas. Todavia, os dados observados nas séries temporais apontavam juntamente com outras informações, incongruências, que diferiam das concretizações epidemiológicas de controle pandêmico. No decorrer dos últimos 5 dias (24/07/2020)[1], as características observadas foram sendo confirmadas, apontando para a endemização da contaminação pelo novo coronavírus, evidenciando que para o Brasil, infelizmente, o controle epidemiológico somente ocorrerá com o surgimento das vacinas.

O Controle da Pandemia

A epidemiologia é a melhor arma para uma doença infectocontagiosa que não tem tratamento e nem vacina[2]. A organização Mundial de Saúde (OMS)[3], desde o início dos riscos de pandemia, vem disparando alerta para o mundo inteiro com orientações sobre o controle, informando como as nações devem se preparar para enfrentá-la. As localidades que entenderam e adotaram as informações dispostas pela OMS, conseguiram, até então, controlar a pandemia, baixando significativamente o número de contaminados e óbitos[4]. Entenderam que a única ferramenta que teria a disposição era a epidemiologia, com isso, trataram de realizar as medidas de mitigação, propondo para a população o isolamento social e / ou lockdown, que tem como objetivo diminuir o número de contaminados, para que o sistema de saúde possa rastrear, localizar e isolar os focos de contaminação, quebrando a cadeia de transmissibilidade. Atualmente, nos países que conseguiram desenvolver em plenitude essa estratégia, voltaram, em partes, aos exercícios das atividades econômicas. Contudo, mesmo com os números reduzidos de novos contaminados, as vigilâncias do comportamento social e rastreamento intensificaram, sendo que: é proibido a circulação de pessoas em espaços públicos sem uso das máscaras e sem os cuidados adequados de higienização; é proibido adentrar em alguns estabelecimentos que estejam com a capacidade, minimamente, estabelecida de distanciamento entre as pessoas; e os rastreamentos e a testagem são intensificados para todos os indivíduos que tiveram contato com infectados, mesmo assintomáticos. Destaca-se que, todas essas medidas estão sendo adotadas com a finalidade de conter o crescimento dos contaminados pelos riscos de congestionar o sistema de saúde.

O que se fez no Brasil

No Brasil, a relação da pandemia com a epidemiologia nunca foi bem estabelecida[5]. Isso é posto em evidência, desde que, a melhor arma que teríamos para controlar a pandemia era a epidemiologia, entretanto, o governo federal, por diversas vezes, tentou ocultar os dados epidemiológicos, as motivações econômicas passavam por cima dos fatos que demonstrava a destruição do melhor instrumento de controle pandêmico. Os problemas agravavam-se somados pelas conveniências das soluções mágicas, como por exemplo da Ivermectina, “se não matar o vírus aniquila alguns parasitas”, com preço muito acessível, que trataria e preveniria a Covid-19,  e o Brasil  seria um dos poucos países que detinha esse conhecimento, sendo que a pandemia alastrou e destruiu vidas mundo a fora…, placebos como esses são empurrados de garganta abaixo para população, gerando uma falsa sensação de segurança[6]. Sem o amparo financeiro adequado, cansada do isolamento social sem o sentido bem estabelecido, a população vem se expondo ao risco de contaminação, consequentemente, os números de novos casos de infectados e óbitos não param de crescer, assim como, as unidades hospitalares encontram-se congestionadas.

O isolamento social proposto era para que os governantes executassem o rastreamento e isolamento dos infectados. Evitando, com isso, que a população se expusesse aos riscos de contaminação. Todavia, boa parte da população cumpriu, de certo modo, o que estava sendo proposto, apesar da baixa aderência em diversas localidades motivada pela confusão de entendimento causado pelo governo federal. Entretanto, a parte que caberia aos estados, aumento da testagem com RT-PCR, rastreamento e isolamento dos infectados, não foi devidamente executada. Então, conclui-se que, na maioria das localidades do Brasil, não estão sendo rastreados os infectados e seus contatos. Portanto, os apelos de fiquem em casa, figura como uma hipocrisia, para alguns, para outros, torna-se a esperança de que tudo isso irá passar (sem a vacina, isso não irá acontecer), e para os demais, está vinculado a esperança do surgimento da vacina[7]o mais breve possível.

Situação atual do Brasil

Na última quarta feira (22/07/2020), o Brasil teve o seu maior pico de registros de casos novos desde o início da pandemia, 67.860 novos casos, logo no dia seguinte (23/07/2020), teve o segundo maior pico, 59.961 novos casos. Esses dois últimos picos modificam completamente a visão estatística descritiva observacional e inferencial, demonstrando uma tendência de alta contínua da série temporal, desde o início da pandemia. Juntamente com essa informação, aparecem nos boletins de ocorrência, das diversas localidades do Brasil, o registro de exames e óbitos retroativos a data da emissão dos boletins, assim como, uma quantidade enorme de pessoas aguardando os resultados dos exames. Somado a essa informação, aumentam as queixas da população a respeito da dificuldade de realizar o exame de triagem para o Sars-CoV-2[8]. Todos esses dados configuram que, possivelmente, o país, ou diversas localidades do país, estão com a capacidade limites diários de realização de exames. Esses são fatores muito significantes que impedem o controle pandêmico.

Evidenciando os padrões cíclicos das apresentações dos resultados demonstrados, que refletem os finais de semana, o país diminui bruscamente a testagem, mesmo encontrando-se em pandemia e com o estado declarado de Emergência em Saúde Pública e calamidade, observa-se a queda significativa de novos registros nos domingos e segundas-feiras. Tudo isso é parte da composição dos pensamentos da nossa gestão pública que, por não ter feito um planejamento de contingenciamento adequado, praticamente para de trabalhar nos finais de semana e perde tempo precioso para o controle pandêmico. Uma das grandes lições que aprendemos em medicina é que a doença não espera.

Portanto, quando se analisa os gráfico de barras que registra os óbitos diários nota-se, a partir do dia 02/06/2020, a formação de platô, mas, o que isso quer dizer: Na óptica da estatística pura poderia significar controle pandêmico, contudo, com as lentes epidemiológicas, ajuntando os significados de todos os comportamentos observados, demonstra-se uma endemização da doença em altos níveis de contaminação.

Considerações finais

Conclui-se que, os somatórios dos significados observados, desde o início da pandemia e a relação que foi estabelecida, retratam um país sufocado pela pressão econômica e as angústias de um longo isolamento social, assim como, asfixiado pelos doentes que lotam os hospitais, sem que exista um plano rigoroso e cientificamente fundamentado para sair desse grande buraco negro que as ingerências o colocou. Veem-se publicações, como a do Ministério Público Federal exigindo que algumas unidades da federação se mantenham fechadas as atividades comerciais[9], entretanto, perdem-se no sentido de que o fechamento serve apenas para facilitar a identificação e rastreamento de infectados.

Portanto, no atual momento da pandemia, para se ensaiar o controle pandêmico com bases na epidemiologia, teria, realmente, que promover um strict lockdown para muitas localidades, por, no mínimo, 15 dias, e multiplicar o rastreamento (testagem) por 15, após isso, fazer a abertura gradual e bem planejada, não mais fundamentada na quantidade de vagas hospitalares ofertada, que representa a aceitação e naturalização da morte[10] por incompetência da gestão, mistanásia[11]. Tendo em vista que esse caminho não se evidencia no horizonte, assim como, a falta do entendimento da complexidade e dos reflexos pandêmicos para o país, até o surgimento das vacinas, em tempo a ser definido, a proposta atual da maioria dos gestores públicos é acostumar-se com os índices de mortalidade diários causados pela pandemia[12].

Se for pensar em imunização de rebanho, a ideia da tragédia se tornará mais veemente, sendo que, na melhor das hipóteses para atingir a imunização teríamos que ter no mínimo 50% da população do país contaminada, o que seria algo em torno de 105 milhões de pessoas. Partindo do pressuposto da atual taxa de letalidade, desconsiderando o aumento da letalidade por causa da saturação da oferta hospitalar, atualmente, a letalidade do Brasil é 3,7%, ou seja, quando atingir a imunização de rebanho teríamos entorno de 3,9 milhões de mortos. Esperamos que essa triste realidade não venha ser concretizada, dentro de um entendimento que existem muitas questões imunológicas a serem respondidas, assim como, aguardamos que os responsáveis por essa tragédia sejam punidos, tendo em vista que, mesmo as punições não irão devolver as vidas perdidas.

Essa história trágica, amadorista e perversa, que caracteriza o enfrentamento da pandemia no Brasil, está sendo registrada para que as futuras gerações não repitam os erros desumanos da contemporaneidade. A vida e a dignidade são os maiores bens que uma nação descente pode oferecer para os seus cidadãos. Muito dos governantes do Brasil ainda não entenderam esse processo evolutivo, até lá, para atenuar os desastres dessa pandemia, que no Brasil está virando endemia com altas contaminações, o que eles propõem: que venham as vacinas, mesmo sendo os brasileiros e africanos as cobaias, que, por ventura, possam sofrer dos efeitos colaterais e óbitos do seus desenvolvimentos.

“Não tem como evitar a morte…”, fala do Presidente a respeito de que a única maneira de não se contaminar é viver isolado[13].

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Referências

[1] https://covid.saude.gov.br/, acesso em 24/07/2020.

[2] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/covid-19-epidemiologia-o-caminho-da-salvacao-por-angelo-augusto-araujo/, acesso em 24/07/2020.

[3] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/oms-a-doenca-de-um-sistema-por-angelo-augusto-araujo/, acesso em 24/07/2020.

[4] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/05/covid-19-estruturas-ofertadas-e-a-demanda-diferencas-na-mortalidade-por-angelo-augusto-araujo/, acesso em 24/07/2020.

[5] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/brasil-e-covid-19-uma-historia-de-cegueira-epidemiologica-por-angelo-augusto-araujo/, acesso em 24/07/2020.

[6] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/brasil-e-a-covid-19-descontrole-desespero-e-o-clamor-pela-prudencia-por-angelo-augusto-araujo/, acesso em 24/07/2020.

[7] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/os-desafios-no-desenvolvimento-de-vacinas-para-a-covid-19-por-angelo-augusto-araujo/, acesso em 24/07/2020.

[8] https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2020/07/17/parentes-de-pessoas-com-sintomas-de-covid-19-reclamam-da-dificuldade-em-fazer-o-teste-nas-unidades-de-saude-de-palmas.ghtml, acesso em 24/07/2020.

[9] https://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2020/07/23/trf5-nega-liminar-para-governo-de-sergipe-e-medidas-do-plano-de-retomada-da-economia-continuam-suspensas.ghtml, acesso em 24/07/2020.

[10] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/covid-19-profissionais-de-saude-a-luta-pela-vida-por-angelo-augusto-araujo/, acesso em 24/07/2020.

[11] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/governo-de-sergipe-descaracteriza-a-recomendacao-internacional-e-assume-a-mistanasia-por-angelo-augusto-araujo/, acesso em 24/07/2020.

[12] https://oglobo.globo.com/sociedade/nao-tem-como-evitar-morte-diz-bolsonaro-sobre-coronavirus-24547830, acesso em 24/07/2020.
[13] Idem

2.343.366 casos da Covid-19 foram registrados no Brasil, nesta sexta-feira (24/07/2020).

2.343.366 casos da Covid-19 foram registrados no Brasil, nesta sexta-feira (24/07/2020).

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About the Author

Ângelo Augusto Araújo
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.