As intimidades do poder | Por Luiz Holanda

Advogado Frederick Wassef (direita) foi entrevistado por Caio Junqueira na TV CNN.
Advogado Frederick Wassef (direita) foi entrevistado por Caio Junqueira na TV CNN.

Qualquer pessoa, por mais humilde que seja, possui uma autoimagem capaz de determinar o modo como deve estar no mundo. Esse desejo pode ser uma força para o bem ou para o mal, a depender de como essa pessoa se situa em determinadas ocasiões. Essa ânsia de conexão autêntica pode significar a abertura de portas ou a construção de paredes, pode gerar ressentimentos ou ansiedade; pode, em fim, criar hostilidades para a toda vida.

A vida do advogado Frederick Wassef, defensor do senador Flávio Bolsonaro e de seu pai, o presidente Bolsonaro, bem demonstra esse fato. Conselheiro do presidente, Wassef disse que “conhece tudo o que tramita na família”, da qual se aproximou em 2014, quando atuou como advogado do presidente. Sua aproximação com o poder aumentou depois da tentativa de assassinato do seu cliente, bem como na investigação que apura movimentações suspeitas nas contas do senador.

Segundo Wassef, a amizade entre ele e o clã Bolsonaro vinha aumentando ao longo desses anos, ao ponto de se tornar um dos principais conselheiros presidencial, atuando no “dia a dia”  até à descoberta do paradeiro de Queiroz, que vivia no escritório do causídico, em Atibaia.

A partir daí o inferno astral de Wassef começou. Frequentemente visto no Palácio do Planalto, como, por exemplo, na cerimônia de posse do deputado Fábio Faria como ministro das Comunicações, afirmou que tudo que fez foi autorizado pelo presidente: “não dá para negar uma história que está registrada com tantas fotos e filmes. Fora aqueles que eu tenho comigo e que ninguém nem sonha nem imagina. Está tudo guardado a sete chaves e mesmo se a bandidagem do Rio quiser fazer busca e apreensão não vai encontrar nada”.

Um dos pontos fracos dos homens de poder é não perceber que relacionamentos íntimos tendem ao controle, à manipulação, de modo que o indivíduo que se sente íntimo dos poderosos tendem a se apresentar como uma pessoa deveras importante. É uma forma de se dizer que não está sozinho.

Por mais humano que seja uma atitude dessas, a vulnerabilidade esconde o que se pretende mostrar aos outros, em vez de mostrar como você realmente é.

Não é sem razão, pois, que essa situação vem trazendo alguns percalços para o presidente, que se mostra vulnerável pelo que o advogado pode saber. Mesmo assim, o país vem purgando os seus males dentro da democracia, numa saudável demonstração de maturidade política, principalmente das autoridades responsáveis pelo comando das instituições.

Elas têm colocado suas conveniências e interesses dentro dos limites traçados pela Constituição, apesar dos transtornos causados pelo temperamento do chefe da nação. Uma coisa, porém, pode servir de lição para aqueles que podem, momentaneamente, fraquejar em suas relações: O poder não requer intimidade, pois esta significa fraqueza.

O caso Wassef é uma demonstração cabal do que isso significa. Se realmente ele privou da intimidade que diz ter tido com o presidente, ele é uma fonte de preocupação. O rumo dos acontecimentos ditará o que pode vir daqui para frente. Até lá, quanto mais o presidente ficar em silêncio, melhor. Afinal, o silêncio não deixa de ser uma forma de poder.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.

Advogado Frederick Wassef (direita) foi entrevistado por Caio Junqueira na TV CNN.
Advogado Frederick Wassef (direita) foi entrevistado por Caio Junqueira na TV CNN.
Luiz Holanda
Sobre Luiz Holanda 343 Artigos
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]