Agência da ONU diz que crimes contra vida selvagem ameaçam saúde humana

Elefante orfão em santuário David Sheldrick Wildlife Trust no Quênia.
Elefante orfão em santuário David Sheldrick Wildlife Trust no Quênia.

Quando animais selvagens são roubados de seu habitat natural, abatidos e vendidos, ilegalmente, o potencial de transmissão de doenças zoonóticas pode aumentar.

A declaração consta do Relatório Mundial sobre Crimes da Vida Selvagem 2020, lançado no dia 10 de julho de 2020 (sexta-feira) pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc.

Risco

O documento indica que as doenças zoonóticas representam até 75% de todas as infecções emergentes incluindo a Covid-19 com um novo coronavírus.

A agência da ONU cita o tráfico de pangolins, aves, tartarugas, tigres, ursos e outros.  Por serem proibidas, essas espécies ficam fora de qualquer controle sanitário ao serem traficadas e vendidas. Com isso, aumentam os riscos de doenças infecciosas.

Os pangolins, por exemplo, chegaram a ser identificados como uma fonte potencial da Covid-19. Eles são os mamíferos selvagens mais traficados no mundo. A apreensão de escamas desses animais subiu 10 vezes entre 2014 e 2018.

Países lusófonos

O relatório cita vários países de língua portuguesa. O Brasil é mencionado por causa da caça ilegal às onças pintadas, que são mortas, geralmente, em conflitos com seres humanos. Outros países que preocupam na captura dessa espécie são:  Belize, Costa Rica, Honduras, Panamá, Peru e Suriname.

Já a Guiné-Bissau, no oeste da África, entrou para o documento por causa do comércio ilegal da madeira kosso. Em 2017, Cingapura apreendeu mais de mil toneladas deste produto que saiu da Guiné-Bissau com destino ao Vietnã.

O relatório do Unodc ressaltou a caça furtiva a elefantes em Moçambique, especialmente na região de Niassa e na reserva Selous. O mesmo ocorre com Gabão, República do Congo e Camarões.

Portugal foi mencionado devido à pesca ilegal de enguias-de-vidro. Segundo o estudo, as apreensões globais desta espécie aumentaram desde 2011 e concentram-se também na França e na Espanha.  Os três países totalizaram cerca de 80% de todas as apreensões.

 Resultados

Segundo a pesquisa, quase 6 mil espécies foram capturadas entre 1999 e 2019. Nenhuma é responsável por mais de 5% das apreensões e nenhum país foi identificado como fonte de mais de 9% do número total dos crimes. Os suspeitos de tráfico vinham de 150 países.

Acabar com o tráfico da vida selvagem é essencial para proteger a biodiversidade, mas também para evitar futuras emergências de saúde pública.

A diretora executiva do Unodc, Ghada Waly, disse que “redes transnacionais de crime organizado estão colhendo os lucros destes crimes, mas são os pobres que pagam o preço.”

Para ela, o relatório “pode ajudar a manter essa ameaça no topo da agenda internacional, aumentar o apoio dos governos a legislação necessária e desenvolver a coordenação entre as agências.”

Boas notícias

O documento descreve ainda as principais tendências mundiais e analisa os mercados de produtos como jacarandá, marfim, chifre de rinoceronte, escamas de pangolim, répteis vivos e grandes felinos.

Muitas populações de elefantes africanos são pequenas e fragmentadas e não estão bem protegidas, tornando-as ainda mais vulneráveis à caça furtiva.

Muitas populações de elefantes africanos são pequenas e fragmentadas e não estão bem protegidas, tornando-as ainda mais vulneráveis à caça furtiva, Banco Mundial/ Arne Hoel

Segundo a pesquisa, a demanda por marfim africano e chifre de rinoceronte está em declínio e o tamanho dos mercados ilícitos está diminuindo. Ainda assim, a renda ilícita anual gerada pelo tráfico destes produtos chegou a US$ 400 milhões em 2016 e US$ 230 milhões em 2018.

Por outro lado, a demanda por madeira tropical cresceu significativamente nas últimas duas décadas, com destaque para o jacarandá africano. As apreensões de produtos com tigres também aumentaram.

Digital

Como muitos outros mercados, o comércio de animais silvestres e de seus produtos também se expandiu para a internet como parte do crime cibernético.

As vendas de determinados produtos, como répteis vivos e produtos de ossos de tigre, passaram a ser realizadas online e em aplicativos de mensagens criptografadas. O Unodc afirma que este tipo de comércio é particularmente difícil devido à falta de transparência, regulações inconsistentes e capacidade limitada da lei.

Por tudo isso, o relatório pede um reforço dos sistemas de justiça criminal, melhorando leis e fortalecendo os processos de investigação e acusação. Também é necessário melhorar a cooperação internacional e investigações transfronteiriças.

O Unodc sugere que os Estados-membros classifiquem esses delitos na Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional como um crime grave.

Elefante orfão em santuário David Sheldrick Wildlife Trust no Quênia.
Elefante orfão em santuário David Sheldrick Wildlife Trust no Quênia.
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