A Pandemia pelo novo coronavírus parece ter causado a cura para outros males, entretanto, evidencia a mistanásia | Por Ângelo Augusto Araújo

Pesquisa Datafolha avalia percepção do brasileiro sobre a pandemia da Covid-19.Pesquisa Datafolha avalia percepção do brasileiro sobre a pandemia da Covid-19.

A pandemia pela Sars-CoV-2 continua se espalhando e contagiando muitas pessoas mundo a fora. O medo do contágio e morte entre a população tornaram-se tão evidentes, que a grande maioria dos debates estão focados nas questões relacionadas com a Covid-19. No Brasil, pesquisa do Datafolha mostrou que: 1) está aumentando o medo das pessoas de serem contaminadas[1]. 2) Está piorando a avaliação sobre a ação dos governadores na crise sanitária[2]. 3) Está piorando a pandemia para 65% das pessoas[3]. A incapacidade de enfrentamento dessa nova morbidade demonstrada pelos gestores públicos brasileiros, vem sendo evidenciada pelos elevadíssimos números de contaminações e óbitos apresentados diariamente, assim como, a associação dos programas de reabertura das atividades “fundamentadas nas ocupações dos leitos hospitalares”. Tudo isso está sendo percebido pelos meios de divulgação das informações, noticiando nas manchetes de jornais, ocupando a conformidade das pessoas no pensamento das inexistências das outras causas de mortes, endêmicas e epidêmicas. Essa argumentação é parte de uma lógica, que esse algo novo, a Covid-19, está parando as atividades rotineira das pessoas mundo a fora, assim como, causando assombros por está matando muita gente. Todavia, as questões relacionadas aos velhos problemas endêmicos e epidêmicos, que também são causas de mortes, não estão sendo destacadas.

Refletindo as outras etiologias, endêmicas e epidêmicas, como causas de mortes no Brasil, sem o objetivo de falar das diversas morbidades, esse artigo propõe destacar apenas algumas das etiologias de mortalidade que expõem a maioria das pessoas, principalmente, as que estão em vulnerabilidade. As etiologias de mortalidade que estarão aqui expostas, estão vinculadas as causas de ordem político e sociais que poderiam ser evitadas, não deixam de ser a retirada precoce dos anos de vida das pessoas, que trazem muito sofrimento para os entes que ficaram, morte infeliz e precoce, Mistanásia[4].

Em recente artigo publicado pelo Intercept Brasil[5], a autora, Olliveira, destaca a violência urbana. A Violência urbana é um problema endêmico, crônico, no Brasil que está relacionada com a grande desigualdade social. Nesse artigo é debatido as mortes decorrentes do tráfico, a autora destaca que, em Fortaleza, o tráfico mata tanta gente quanto o coronavírus. Em outro artigo publicado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária[6], março de 2020, aponta que em média nos estados, de forma geral, a violência no trânsito mata tanto quanto a violência urbana. Os estados da Bahia e, destacadamente, os estados das Alagoas, Ceará e Sergipe a violência urbana superam as mortes no trânsito. Esses artigos deixam claro que a morte por violência, no trânsito e Urbana, soma-se as mortes pela pandemia, não deixam de ser pontos de inobservância social e pública, mistanásia.

Segundo dados do IBGE[7], existem no Brasil 13,5 milhões de pessoas que vivem com uma renda mensal inferior a R$ 145,00, ou seja, U$ 1,90 por dia. O problema da desigualdade, como dito, é um problema crônico, endêmico, no Brasil. A mal distribuição de renda sempre caracterizou esse país de dimensão continental. Além da violência que a desigualdade carrega consigo, traz outro problema que é a fome. Isso, logicamente, vem sendo agravado com o crescimento do descontrole pandêmico. Em artigo publicado pela Exame[8], de autoria do Estadão, calcula-se que até o final do ano teremos o número de pessoas vivendo em extrema pobreza aumentado em mais de 1 milhão, teremos, então, 14,7 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza. Em outro artigo publicado pelo Observatório do Terceiro Setor[9] apresenta a desnutrição entre os índios Yanomami. As agressões culturais e territoriais sofridas pelos índios são de longe conhecidas por todos. Tudo isso conduz a uma mistura civilizatória que gera necessidades múltiplas. Esse artigo aponta que 30% das crianças indígenas sofrem de desnutrição e a mortalidade entre elas é bem maior do que os grupos de outras etnias. Com a pandemia pelo novo coronavírus, a desnutrição causada pela grande desigualdade social, que tem origem na desatenção pública a todos os brasileiros, irá se agravar e, possivelmente, será mais uma etiologia político-social de morte, mistanásia.

A Agência Brasil[10] publicou, em 18/05/2020, sobre o crescimento da febre amarela em macacos, alertando para as necessidades da retomada de vacinação, principalmente nos estados que são mais acometidos. Em 18 de junho de 2020, o estado do Paraná[11] emitiu um alerta aos viajantes que irão visitar alguns estados brasileiros que a febre amarela é endêmica, alerta sobre os riscos de infecção e a necessidade da profilaxia com as vacinas. A preocupação está relacionada com endo-epidemias cíclicas, que de longe conhecemos, que poderão agravar ainda mais as situações da população e do sistema de saúde, que já se encontra em sobrecarga por conta da pandemia pelo novo coronavírus. Por falar em endo-epidemias cíclicas, o Ministério da Saúde (MS)[12] adverte, em nota publicada no dia 30 de abril de 2020, que quase 1000 cidades poderão ter surtos de dengue, zika e chinkunguya. Em artigo anterior ao do MS, dia 10/04/2020, o jornal O GLOBO[13] relatava que os casos de dengue no Brasil ultrapassavam a 500 mil, sendo que tinha 181 mortes registradas e outras 201 sob investigação.  Em estudo publicado pela FIOCRUZ[14] relata a descoberta de uma nova linhagem do vírus da zika. O relato dessa nova descoberta, segundo publicação do Estado de Minas[15], poderá está associado a outra epidemia de zika no Brasil. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)[16], órgão filiado a Organização Mundial da Saúde (OMS), destaca em artigo a importância das políticas públicas de saúde para a manutenção da queda dos novos casos de malária. No Brasil, em 2019, 156.629 pessoas foram acometidas pela malária. A malária, como as outras doenças citadas, é, também, uma das doenças endêmicas que estão entre as etiologias de inúmeros óbitos evitáveis, portanto, mistanásia.

Todas essas considerações, como dito no início do artigo, não fazem parte das informações de destaque da grande maioria dos jornais. Os nossos problemas de antes da pandemia pelo novo coronavírus estão entre a gente, habituamos a conviver com esses riscos, entretanto, no atual momento, tudo isso é agravado pela pandemia. Por não está sendo noticiado, aparentemente percebe-se uma sensação de que a pandemia curou os outros males. Todavia, esses outros males estão cronicamente inseridos dentro da nossa sociedade desatenta, assim como, pouco considerado por gestores públicos de pensamentos reducionistas.

Portanto, imaginem que com toda o alarde, mundial, causado pela pandemia do novo coronavírus, a nossa gestão pública adota atitudes de desconsideração e propõe a endemização da doença, assim como, a naturalização da morte[17]. Percebam o que foram propostas para as outras doenças que habitualmente convivemos, está sendo proposta à Covid-19, portanto, mistanásia.

Nesse artigo não estão sendo destacados outras causas de mortalidade relacionados com morbidades como a tuberculose, diabetes, hipertensão, entre outras. O fato é que, como apelo social, sanitário e bioético, aos setores responsáveis pela formação de opinião: não deixem de divulgar a importância das outras morbidades de sociais, ambientais e médicas, que influenciam no aumento da mortalidade, entre elas estão causas que poderão ser evitadas por ações sociais e da gestão públicas, a mistanásia.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Referências

[1] http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2020/06/02/medo-e-contaminacao-pelo-coronavirus.pdf, acessado dia 06/07/2020.

[2] http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2020/06/26/66ed4921092c48022554df364b7a3464gvnts.pdf, acessado dia 06/07/2020.

[3] http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2020/06/29/55385da65d374ca9d564ba83e7233b8dcpan.pdf, acessado dia 06/07/2020.

[4] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/governo-de-sergipe-descaracteriza-a-recomendacao-internacional-e-assume-a-mistanasia-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 06/07/2020.

[5] https://theintercept.com/2020/05/05/coronavirus-fortaleza-mortes-violencia/, acessado dia 06/07/2020.

[6] http://www.onsv.org.br/observatorio-afirma-violencia-no-transito-tambem-e-violencia-publica/, acessado dia 06/07/2020.

[7] https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/25882-extrema-pobreza-atinge-13-5-milhoes-de-pessoas-e-chega-ao-maior-nivel-em-7-anos, acessado dia 06/07/2020.

[8] https://exame.com/brasil/brasil-esta-voltando-ao-mapa-da-fome-diz-diretor-da-onu/, acessado dia 06/07/2020.

[9] https://observatorio3setor.org.br/noticias/brasil-80-das-criancas-indigenas-yanomami-sofrem-de-desnutricao/, acessado dia 06/07/2020.

[10] https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-05/aumentam-casos-de-macacos-infectados-por-febre-amarela-no-pr-e-em-sc, acessado dia 06/07/2020.

[11] http://www.saudedoviajante.pr.gov.br/2019/05/89/Brasil-Monitoramento-do-Periodo-Sazonal-da-Febre-Amarela-2018-2019.html, acessado dia 06/07/2020.

[12] https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/45407-quase-mil-cidades-podem-ter-surto-de-dengue-zika-e-chikungunya-no-pais, acessado dia 06/07/2020.

[13] https://oglobo.globo.com/sociedade/brasil-ultrapassa-os-500-mil-casos-de-dengue-no-ano-24364813, acessado dia 06/07/2020.

[14] https://portal.fiocruz.br/noticia/estudo-identifica-circulacao-de-nova-linhagem-da-zika-no-brasil, acessado dia 06/07/2020.

[15] https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2020/06/24/interna_nacional,1159598/nova-linhagem-do-zika-virus-pode-provocar-outra-epidemia-no-brasil.shtml, acessado dia 06/07/2020.

[16] https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6156:opas-destaca-necessidade-de-manter-queda-de-casos-de-malaria-no-brasil&Itemid=812, acessado dia 06/07/2020.

[17] https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/os-riscos-de-naturalizacao-da-morte-pela-covid-19-no-brasil-por-angelo-augusto-araujo/, acessado dia 06/07/2020.

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Ângelo Augusto Araújo
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.