“O papai mudou o mundo” | Por Luiz Holanda

Jornal O Globo relata laudo da morte do estadunidense George Floyd.
Jornal O Globo relata laudo da morte do estadunidense George Floyd.

Em agosto de 1619, os colonos da cidade de Jamestown compraram dos piratas ingleses cerca de 30 negros escravizados, roubados de um navio português que seguia para Angola. Foi o início da escravidão americana, que, por ocasião da abolição, contava com quatro milhões de negros escravizados. Seus ancestrais vieram para os Estados Unidos através do oceano Atlântico, na maior migração forçada da história humana.

De lá para cá, pouco mudou, apesar do Ato de Emancipação de 1º de janeiro de 1863, assinado por Abraham Lincoln. O bárbaro assassinato de George Floyd por um policial branco comprova isso. No dia 25 de maio passado, Floyd foi morto pelo policial Derek Chauvin, de Minneapolis, por supostamente tentar trocar uma nota de 20 dólares em uma loja da cidade. O caso ganhou repercussão mundial. O assassino, pousando para uma foto com a mão no bolso e o joelho sobre o pescoço do prisioneiro, asfixiava-o lentamente, durante quase nove minutos, enquanto ele murmurava “não consigo respirar”.

O fato trouxe tristes lembranças desde o período da escravidão. Floyd, um dos descendentes dos antigos escravos que vieram para a América amontoados nos porões infectos dos navios negreiros e vendidos a retalhos nos mercados de escravos, fazia parte da tragédia americana protagonizada pela intolerância e pela segregação, geradora da Ku Klux Klan e dos que assassinaram Martin Luther King.

Floyd mudou-se para Minneapolis em busca de uma vida melhor. Não queria viver como muitos de sua cor, rastejando na labiríntica escuridão dos formigueiros das grandes cidades. Temia o desespero de uma vida que nada tinha para lhe oferecer senão o medo, trabalho inferior e a possibilidade de gerar filhos para as multiformes corrupções das ruas.

Mesmo sabendo que as oportunidades oferecidas não seriam as melhores, Floyd mudou-se de Houston para Minneapolis em busca de uma nova vida, onde pudesse criar e educar sua pequena Gianna, de apenas 6 anos, cuja inocência otimista a fez achar que seu pai havia mudado o mundo.

A morte de Floyd não foi um caso isolado. Os negros americanos sempre foram submetidos à vigilância da polícia. Segundo Julian Zelizer, historiador político da Universidade de Princeton, os negros americanos vivem com medo “porque se sentem vulneráveis perante aqueles que deveriam protegê-los”. E como a verdade é sempre verdade, seja qual for a perversão daqueles que a apregoam, Zelizer apenas confirmou que a perseguição aos negros sempre foi um fato incontestável.

É comum encontrar queixas de cidadãos negros nas redes sociais dizendo sentir que são detidos pela polícia pelo simples fato de serem negros. De acordo com o Brookings Institution, os negros têm 3,5 mais chances de serem mortos por policiais do que os brancos em situações em que não existe ataque ao policial ou porte de armas. Entre adolescentes, a probabilidade é 21 vezes maior. A polícia americana mata uma pessoa negra em cada 40 horas.

A esposa de Floyd, traumatizada, disse para a imprensa não saber como contar para sua inocente filha o assassinato do seu pai. Isso nos faz lembrar Schopenhauer, pois poderíamos dizer que as crianças, diante de determinadas fatalidades, parecem inocentes prisioneiras, condenadas à vida sem ter consciência do que significa essa sentença. A vida de Gianna jamais será igual à de uma criança normal. Sua frase será lembrada como a sentença histórica que libertou os negros definitivamente. Realmente, seu “papai mudou o mundo”.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

Sobre Luiz Holanda 349 Artigos
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]