Governo de Sergipe descaracteriza a recomendação internacional e assume a mistanásia | Por Ângelo Augusto Araújo

Boletim Epidemiológico do Governo de Sergipe apresenta dados, desta segunda-feira (15/06/2020), sobre infectados e mortes decorrentes da Covid-19.Boletim Epidemiológico do Governo de Sergipe apresenta dados, desta segunda-feira (15/06/2020), sobre infectados e mortes decorrentes da Covid-19.

Com o registro de 1.708 caso novos[1], segunda-feira (16/06/20), Sergipe alcança 15.675 infectados e 352 óbitos. Com as curvas que representam a taxa de incidência e óbitos não apresentando sinais de controle pandêmico, com sinais contrários de evolução da pandemia, o governo do estado de Sergipe promulga um decreto (número – 40.615)[2], no qual institui o Sistema de Distanciamento Social Responsável (SDSR), reiterando o decreto 40.567, que comunicava estado de Emergência em Saúde Pública e Calamidade. Naquela ocasião que foi promulgado o decreto 40.567[3], Sergipe apresentava 15 casos de contaminação e nenhum óbito relacionados ao novo coronavírus. Mesmo com os leitos hospitalares desocupados, o estado resolveu suspender diversas atividades econômicas e explicitou os riscos de desastre, fundamentado na Codificação Brasileira de Desastre (COBRADE)[4].

Desde 24 de março de 2020, algumas situações modificaram, significativamente, com relação a evolução da pandemia, o entendimento da fisiopatologia da infecção viral e dos aspectos virológicos. Entretanto, na ausência de ferramentas medicamentosas que permitam o controle da pandemia, as recomendações internacionais das políticas de mitigação não mudaram. Sob orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS)[5], baseado nos princípios fundamentais dos direitos humanos, os gestores públicos, na ordem mundial, que respeitam essas prerrogativas, mantém-se vigilantes, permanecendo em isolamento ou lockdown, estendendo o rastreamento com testagem em massa, buscando identificar e isolar os casos contaminados, evitando que a população se exponha a contaminação, assim como, a dor e o sofrimento da perda de um ente de forma precoce e por conta da falta de ações públicas.

Em quase 3 meses de evolução dos conhecimentos da Covid-19, Sergipe encontra-se com os hospitais lotados, com a rede privada sem vagas nas UTIs e com mais de 80% de ocupação nas enfermarias, com situação ligeiramente diferente na rede pública. Apareceu no boletim de ocorrência, juntamente com o último decreto (número – 40.615), um dado novo representando a disponibilidade proporcional dos leitos de UTIs neonatal, que pode ser questionado a finalidade dessa informação, logicamente que não é desconsiderada a importância da disponibilidade, todavia, a métrica da informação poderá estar relacionada com a reabertura da economia baseado na disponibilidade de leitos de UTI, provocando má interpretações ao leitor desatento.

O desespero para reabertura da economia não deixa de está evidente na gestão pública brasileira, logicamente, é necessário reabri. Contudo, em um momento de agravo da situação da saúde pública, o fundamento mandatório é a proteção da vida do cidadão, esses debates já foram pontuados em argumentações de artigos anteriores[6], assim como, as estratégias utilizadas para planejar a reabertura, também, já foram debatidas[7],[8]. A preocupação do estado em honrar com os seus compromissos e manter os privilégios, parece ser o debate do momento, e, nesse momento, sem fundamentação epidemiológica, o governo do estado de Sergipe, como outras unidades da federação, propõe reabertura baseada na responsabilidade social do auto cuidado, ou seja, transfere a responsabilidade pública, constitucional,  do controle pandêmico para o cidadão, o que poderá ser questionado juridicamente. Fundamenta o programa de reabertura econômica nos pilares de ocupação hospitalar e empurra o cidadão aos riscos da má sorte, a mistanásia.

A mistanásia trata-se da morte infeliz, morte social precoce causada pela a ausência de atitudes da gestão pública. Percebida pelos entes queridos como morte sofrida fundamentadas na oração adverbial condicional “Se”, que tira os possíveis anos da vida de um cidadão.

“Se tivéssemos feito ações cientificamente enérgicas, não teria tanta gente contaminado e não se morreria tanto de Covid-19”

“Se tivéssemos vagas nos leitos de UTI, meu pai não teria morrido”

A China foi onde começou a pandemia, acumulou conhecimento muito grande com o desenvolver do quadro pandêmico. Nessa terça-feira (16/06/20) registrou 26 novos casos de infecção pelo Sars-CoV-2, imediatamente, o governo chinês massificou o rastreamento e estendeu o lockdown[9].

Donald Trump está sendo, intensamente, criticado nos Estados Unidos da América (16/06/20)[10] por querer parar o rastreamento e testagem em massa, fundamentando que se testar mais, logicamente, irá ter mais caso da contaminação e mais pessoas mortas pelo mesmo motivo, e a economia piorará.

Pergunta-se: Qual rumo desejamos tomar?

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Bibliografia

[1] Dados podem ser consultados em: https://todoscontraocorona.net.br/boletim-covid-19-15-06-2020/, acesso: 16/06/20.

[2] Dados podem ser consultados em: https://todoscontraocorona.net.br/wp-content/uploads/2020/06/PLANO-COVID-19-15.06.pdf

[3] Dados podem ser consultados em: https://todoscontraocorona.net.br/boletins/page/7/, acesso: 16/06/20.

[4] Dados podem ser consultados em: https://todoscontraocorona.net.br/wp-content/uploads/2020/03/ATUALIZA-consolida-decretos-0202032020-.pdf, acesso: 16/06/20.

[5] Dados podem ser consultados em: https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/technical-guidance, acesso: 16/06/20.

[6] Dados podem ser consultados em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/05/covid-19-profissionais-de-saude-e-o-conforto-da-morte-por-angelo-augusto-araujo/, acesso: 16/06/20.

[7] Dados podem ser consultados em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/05/covid-19-estruturas-ofertadas-e-a-demanda-diferencas-na-mortalidade-por-angelo-augusto-araujo/, acesso: 16/06/20.

[8] Dados podem ser consultados em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/covid-19-epidemiologia-o-caminho-da-salvacao-por-angelo-augusto-araujo/, acesso: 16/06/20.

[9] Dados podem ser consultados em: https://edition.cnn.com/2020/06/16/asia/coronavirus-bejing-spread-intl-hnk/index.html, acesso: 16/06/20.

[10] Dados podem ser consultados em: https://edition.cnn.com/2020/06/16/politics/donald-trump-coronavirus-politics-oklahoma-election-2020/index.html, acesso: 16/06/20.

Baixe

Boletim Epidemiológico do Governo de Sergipe apresenta dados, desta segunda-feira (15/06/2020), sobre infectados e mortes decorrentes da Covid-19.

Boletim Epidemiológico do Governo de Sergipe apresenta dados, desta segunda-feira (15/06/2020), sobre infectados e mortes decorrentes da Covid-19.

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About the Author

Ângelo Augusto Araújo
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.