Brasil e a Covid-19, descontrole, desespero e o clamor pela prudência | Por Ângelo Augusto Araújo

Cruzes em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, simbolizam os mortos pela Covid-19.Cruzes em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, simbolizam os mortos pela Covid-19.

Apesar das contradições relacionadas com o início da contaminação pelo Sars-CoV-2 no Brasil, o primeiro registro oficial data do dia 26/02/20 [1]. Segundo as novas informações do ministério da saúde, o primeiro óbito foi registrado no dia 12/03/20[2]. Desde então, os números de contaminação e óbitos não param de crescer. No boletim do dia 28/06/20 [3], o Brasil encontra-se oficialmente com 1.344.143 infectados e o registro de 57.622 óbitos. Nesse boletim, logicamente, são desconsiderados a quantidade de pessoas que estão aguardando os resultados dos exames, assim como, o grande número de pessoas que ainda aguardam para serem testadas.

Com um número considerável de infectados, bem abaixo das expectativas dos modelos estatísticos / epidemiológicos (revelam que, possivelmente, tenhamos até 15 vezes mais contaminados do que os registros oficiais[4],[5],[6]), o Brasil encontra-se com os serviços de saúde congestionados, vivendo uma verdadeira situação de guerra. Sem perspectivas relacionadas ao controle pandêmico, o país começa a manifestar ações de naturalização da morte [7].

Recebendo os impactos das políticas de mitigação mal planejadas e desconsideradas, os profissionais da saúde estão nas linhas de frente atendendo uma quantidade exorbitantes de contaminados, sofrendo os riscos das exposições contínuas, tentando resolver o descontrole epidemiológico com soluções não providas, ainda, pela ciência.

Após 4 meses do registro do primeiro caso de contaminação pelo novo coronavírus, a intensificação da contaminação somada a falta de perspectiva de controle e o longo confinamento, associado ao cansaço, estresse, perda financeira, assim como, ao medo de contaminação e morte, chama-se atenção do sistema de saúde sobre os riscos de transtornos mentais individuais e coletivos.

O New England Journal of Medicine (NEJM), no artigo publicado “Mental Health and the Covid-19 Pandemic” (Saúde Mental e a Pandemia da Covid-19)[8], destaca a importância do sistema de saúde, assim como, dos profissionais que cuidam da saúde mental, atentarem-se para os cuidados com os transtornos mentais causados pelo longo confinamento, a falta de perspectiva, perdas econômicas e o medo de contaminação e morte. Comenta, também, a importância de observar os profissionais de saúde que, além de está passando por tudo isso, existem os estresses causados pela falta de recursos para enfrentamento da doença e a congestão das unidades de saúde com pacientes infectados.

Em outro artigo do mesmo jornal, “A Reminder to Reason” (Lembrança para Razão)[9], o NEJM descreve a importância dos profissionais de saúde na percepção desse momento. É um momento de crise do sistema de saúde, no qual os médicos poderão sentir-se pressionados a encontrar soluções ainda não disponíveis pela ciência. Destaca os riscos de iatrogenia por indicações e tratamentos inadequados. Comenta, ainda, que esse é um momento de centralidade.

No Brasil, atualmente, com o sistema de saúde de muitos estados colapsado, apresentando total descontrole pandêmico, frequentemente, aparecem profissionais de saúde nas redes sociais (que permite a confluência das opiniões) comentando a respeito de uma ou outra observação médica, relacionadas com o uso de medicações que “milagrosamente” resolvem todos os problemas da pandemia.

As figuras que aparecem nas redes sociais tornam-se populares e desconsidera os riscos e a complexidade das suas opiniões. Têm posturas antiética publicizando assuntos médicos não concluídos (infringe o artigo 113 do código de ética médico[10]), assim como, orientam a automedicação, até mesmo sem o diagnóstico concluído, descartam a possibilidade de erros diagnósticos, particularidades dos indivíduos e das toxicidades dos medicamentos (infringe os artigos 1, 2, 14 e 21[11] do código de ética médico).

O Food and Drug Administration (FDA)[12] publicou nos meios de comunicação a remoção da Hidroxicloroquina (HQC) do protocolo de Emergência, sob consentimento, para tratamento de pacientes graves com a Covid-19. Atualmente, não se pode usar a cloroquina nos Estados Unidos da América (EUA). O uso é somente permitido em protocolo de experimentação. Em estudo randomizado publicado no NEJM[13], avalia os efeitos da HQC como tratamento profilático, não apresentou resultados que demonstre eficácia.

A respeito do uso da Ivermectina, devido aos efeitos IN VITRO do medicamento, estudo australiano[14], devido a má interpretação do enunciado (Título)[15][16][17], os autores fizeram uma nota de esclarecimento que a aprovação da medicação era somente para teste em laboratório[18]. Os efeitos antivirais observados IN VITRO não foram percebidos em roedores[19]. As ações que certifique o uso eficaz em humanos não foram testadas. Tudo levou ao FDA a emitir nota de esclarecimento[20],[21], veiculada em diversos meios de comunicação, proibindo o uso em humanos com finalidade de tratamento da Covid-19[22],[23],[24],[25]. Tendo em vista que, a Ivermectina para uso humano, apresentação oral, não é recomendada, salvo exceções para tratamento de infestação de escabiose, oncorcercose e estrongiloidose que não responde ao tratamento protocolar[26]. Não se sabe a segurança da toxicidade para nutrizes, gestantes e crianças abaixo de 15kg[27], sendo que existem estudos que relatam mortes entre idosos que usaram para tratamento de escabiose[28].

Portanto, o que se observa, devido as políticas de mitigação mal planejadas e mal executadas, a população encontra-se num cenário de insegurança e cansadas dos longos períodos de confinamentos, assim como, os profissionais de saúde estão sob estresses e tentam resolver uma doença do sistema de saúde com terapias cientificamente não comprovadas. Os riscos de transtornos mentais que poderão atingir o indivíduo e a coletividade, causados pelas situações de estresse e pressão, deverão ser mais bem avaliados.

Estamos, atualmente, em uma fase muito complicada da evolução pandêmica. A contabilização de novos contaminados não param de crescer, assim como, o número de óbitos. Os serviços de saúde das grandes cidades estão congestionados e atentos para os riscos das demandas que virão dos interiores.

Os profissionais de saúde encontram-se nessa perspectiva assustadora, assim como, sem esperanças de resoluções epidemiológica para o controle da pandemia. Propõem alternativas para o tratamento, ainda, não provido pela ciência. Mesmo nos locais que idealizaram essas propostas de tratamento, não passaram de ensaios experimentais.

Vivemos em uma verdadeira situação de guerra, os pensamentos dos que estão em frentes de batalha confluem-se para executar ações de qualquer maneira. Nesses períodos críticos de guerra podem ocorrer grandes revoluções da ciência, mesmo sem estudos e protocolos bem elaborados, como também, poderão acontecer inúmeras atrocidades, os tribunais irão julgar.

A centralidade dos pensamentos clama para as observações científicas e éticas relacionadas com a prudência, experimentos humanos devem seguir as recomendações estabelecidas pelo Código de Nuremberg[29] e pelo relatório Belmont[30]. Já é mais do que suficiente o sofrimento causado pela pandemia e a falta de atitudes governamentais.

Até onde se conhece, em medicina, tratamento profilático contra infecção viral é realizado com vacina.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Referências

[1] Informações disponíveis em: https://saude.abril.com.br/medicina/coronavirus-primeiro-caso-brasil/, acesso em 29/06/20

[2] Informações disponíveis em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/breves/lava-jato-subprocuradora-candidatura-conselho-mpf/, acesso em 29/06/20

[3] Informações disponíveis e: https://covid.saude.gov.br/, acesso em 29/06/20

[4] Informações disponíveis em: https://extra.globo.com/noticias/brasil/estudo-aponta-que-numero-de-infectados-no-brasil-pode-ser-ate-dez-vezes-maior-rv1-1-24500395.html

[5] Informações disponíveis em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/breves/ocde-brasil-recomendacoes-ciencia-e-tecnologia/, acesso em 29/06/20

[6] Informações disponíveis em: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/numero-de-infectados-quinze-vezes-maior-aponta-estudo-sobre-coronavirus-1-24369920, acesso em 29/06/20

[7] Informações disponíveis em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/06/os-riscos-de-naturalizacao-da-morte-pela-covid-19-no-brasil-por-angelo-augusto-araujo/, acesso em 29/06/20

[8] Informações disponíveis em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp2008017, acesso em 29/06/20

[9] Informações disponíveis em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp2009405, acesso em 29/06/20

[10] Informações disponíveis em: http://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf, acesso em 29/06/20

[11] Informações disponíveis em: http://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf, acesso em 29/06/20

[12] Informações disponíveis em: https://www.fda.gov/drugs/drug-safety-and-availability/fda-cautions-against-use-hydroxychloroquine-or-chloroquine-covid-19-outside-hospital-setting-or, acesso em 29/06/20

[13] Informações disponíveis em:  https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2016638?query=featured_coronavirus, acesso em 29/06/20

[14] Informações disponíveis em:  https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0166354220302011, acesso em 29/06/20

[15] Informações disponíveis em: https://www.sanarmed.com/fake-news-ivermectina-e-a-cura-contra-a-covid-19, acesso em 29/06/20

[16] Informações disponíveis em: https://panoramafarmaceutico.com.br/2020/06/19/boato-e-falsa-afirmacao-de-que-ivermectina-mata-o-coronavirus/, acesso em 29/06/20

[17] Informações disponíveis em:  https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/post-distorce-informacoes-sobre-eficacia-da-ivermectina/, acesso em 29/06/20

[18] Informações disponíveis em:  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7172803/, acesso em 29/06/20

[19] Informações disponíveis em:  https://www.nature.com/articles/s41429-020-0336-z#ref-CR43, acesso em 29/06/20

[20] Informações disponíveis em: https://www.journals.elsevier.com/antiviral-research/news/caution-interpreting-results-of-ivermectin-study-fda-warning, acesso em 29/06/20

[21] Informações disponíveis em:  https://www.fda.gov/animal-veterinary/product-safety-information/faq-covid-19-and-ivermectin-intended-animals, acesso em 29/06/20

[22] Informações disponíveis em: https://www.usatoday.com/story/news/health/2020/04/16/coronavirus-and-ivermectin-humans-fda-michigan-issue-warnings/5146459002/, acesso em 29/06/20

[23] Informações disponíveis em: https://www.freep.com/story/news/local/michigan/2020/04/16/michigan-ivermectin-coronavirus-prevention-treatment/5143543002/, acesso em 29/06/20

[24] Informações disponíveis em: https://www.wusa9.com/article/news/health/coronavirus/ivermectin-animal-drug-fda-warning/507-bea5eb87-8862-4fe2-a537-c8041ef79d16, acesso em 29/06/20

[25] Informações disponíveis em: https://www.trialsitenews.com/fda-cautions-people-not-to-take-ivermectin-for-covid-19/, acesso em 29/06/20

[26] Informações disponíveis em: https://www.cdc.gov/parasites/scabies/health_professionals/meds.html, acesso em 29/06/20

[27] Informações disponíveis em: https://consultaremedios.com.br/ivermectina/bula, acesso em 29/06/20

[28] Informações disponíveis em: https://consultaremedios.com.br/ivermectina/bula, acesso em 29/06/20

[29] Informações disponíveis em: http://www.bioetica.org.br/?siteAcao=DiretrizesDeclaracoesIntegra&id=2, acesso em 29/06/20

[30] Informações disponíveis em: http://www.bioetica.org.br/?siteAcao=BioeticaParaIniciantes&id=25, acesso em 29/06/2

1.344.143 casos da Covid-19 e 57.622 óbitos foram registrados no Brasil, neste domingo (28/06/2020).

1.344.143 casos da Covid-19 e 57.622 óbitos foram registrados no Brasil, neste domingo (28/06/2020).

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