A heteronomia desgovernamental em tempos da Covid-19 | Por Ângelo Augusto Araújo

Ângelo Augusto Araújo, médico, pesquisador, doutor em Saúde Pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.Ângelo Augusto Araújo, médico, pesquisador, doutor em Saúde Pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Os Estados Unidos da América (EUA) voltam a registrar nessa quarta-feira, 24/06/20, o 2º maior número de novos casos de infectados pelo novo coronavírus em sua série temporal (38.386 pessoas infectadas), perdendo apenas para o registro do dia 24/04/20, exatamente 2 meses após ter alcançado o maior pico, 39.072 casos[1]. Liderando o ranque em números de infectados e mortos, o governo estadunidense insiste no negacionismo da pandemia, desconsidera os sofrimentos dos cidadãos, e passa por cima de questões constitucionais para reafirmar a proposta econômica[2].

Não diferentemente dos EUA, o governo do Brasil que reflete as ações da gestão americana, continua desconsiderando a evolução pandêmica no país[3]. Enquanto isso, nessa quarta feira, 24/06/20, o país registrou, de forma semelhante aos EUA, o 2º maior pico pandêmico[4], 42.725 casos, perdendo apenas para o registro do dia 19/06/20, no qual teve 54.771 pessoas infectadas (maior quantidades de casos por dia do mundo).

A proposta de governo dos dois países assemelha-se de forma contundente que, diversos jornais comentam, um sendo o espelho do outro, irmãos gêmeos[5],[6],[7]. Nesse contexto de identidade, refletido pelo número de contágios e mortos pelo novo coronavírus, está a população desnorteada, mirando nas preocupações econômicas e ao mesmo tempo nos riscos de exposição a infecção.

Sem um direcionamento governamental que assegure os cidadãos os direitos humanos e constitucionais, os dois países lideram os números de infectados e mostram a capacidade de desgoverno em tempo de crise pandêmica.

Todos os dias, as quantidades exorbitantes dos números de infectados e óbitos são demonstrados pelas estatísticas, afirmando a falta de direcionamento para proteção da vida do cidadão. Contrariamente as medidas de proteção, poderia se questionar a liberdade individual prescrita na declaração universal dos direitos humanos, contudo, nesse momento, prevalece o pensamento coletivo voltado a proteção.

Diferentemente do exemplo de heteronomia[8] adotada pelo governo brasileiro, os governos dos muitos países que conduziram a pandemia obedecendo as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), estão retomando as atividades com muita cautela e a relação da gestão pública com a população tem aderência crescente a cada dia, devido os governos demonstrarem e executarem ações que deixam claros a intensão de proteção do cidadão.

A relação do governo norte-americano e brasileiro com a população vêm se deteriorando diariamente. Com os discursos voltados a proteção do emprego e criação de novas frentes de trabalhos sobrepondo as questões da saúde, o que se percebe, na realidade, é a priorização macroeconômica perante a vida. A conexão da intencionalidade dos atos com a proposição de proteção macroeconômica, priorizando o setor financeiro (Neoliberalismo), configuram inferências evidentes pela população. Portanto, devido a falta de atitudes que provam o contrário, demonstrada diariamente nos discursos de ambos os governos, ficam implícitos o sentimento individualista de autoproteção. Tudo isso, deixando evidente a ausência de solidariedade como previsto na declaração universal dos direitos humanos e na constituição de ambos os países. Além do mais, conduz a um sentimento brutal e de não pertencimento, que podem ser observados nos atos de violência contra a humanidade. Todas essas inferências pairam entre as pessoas conscientes dos processos que estamos vivendo nessa pandemia.

As atitudes negacionistas estão claras na óptica das desconsiderações dos resultados trágicos da pandemia. Os EUA ficaram conhecidos não somente pelos números de infectados e óbitos, mas, também, por ser o país que mais realizou números absolutos de testes, tendo como objetivo o rastreamento e controle epidemiológico. Por adotar uma atitude tardia das políticas de mitigação, somados as aglomerações dos movimentos antigovernistas, atualmente, os EUA amagam o dessabor do descontrole epidêmico. Mesmo em posse da importância do conhecimento do fator epidemiológico para a retomada do controle pandêmico, o governo americano vem tentando abrandar as repercussões econômicas com discursos contra o rastreamento por realizações de exames[9],[10].

No outro lado, o Brasil tem uma das piores estratégias de rastreamento e controle pandêmico. Continua realizando uma quantidade muito pequena de exames, aumentando exponencialmente o número de infectados, assim como, os subnotificados, tem as estruturas hospitalares ofertadas em colapso, consequentemente, um grande número de óbitos, e demonstra sinais de total descontrole pandêmico, sem horizonte de melhora (Exceto na possibilidade do surgimento de vacinas). Em conferência em Tulsa, Donald Trump assume que a situação do Brasil é extremamente difícil[11], reforça a relação com o governo brasileiro, contudo, por não apresentar proposta para o controle pandêmico e continuar desconsiderando as más consequências para a população, mantém a mesma linha de pensamento e discurso do presidente brasileiro de ocultar os números de casos da pandemia, todavia, com outra estratégia, diminuindo o número de exames.

Portanto, os brasileiros, assim como, os estadunidenses vêm sofrendo com o total descontrole pandêmico. As populações, de ambos países, estão ansiosas pelo medo do contágio e pelo risco de morte, entretanto, são pressionadas, a cada dia, a retomar as atividades econômicas em meio aos riscos. No Brasil, especificamente, programas de retomada econômica são fundamentados na oferta das estruturas hospitalares, sendo que não foi estabelecido um diálogo com a sociedade e expostas as alternativas. No momento, o que se percebe para os dois países, devido aos “embrolhos” das atitudes erradas para o controle pandêmico, a tentativa de empurrar para a população as consequências dos maus atos, riscos de vida. A heteronomia desgovernamental dos dois países está sendo observada pelo mundo, segundo o jornal britânico The Guardian, as comunidades que representam os direitos humanos global irão cobrar um dia, e os governos terão que responder[12].

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Referências

[1] Informações disponíveis no Worldometer: https://www.worldometers.info/coronavirus/country/us/, acesso em 25/06/20

[2] Informações disponíveis no STAT Politics: https://www.statnews.com/2020/06/18/trump-dismissiveness-prolong-covid-19/, acesso em 25/06/20

[3] Folha de São Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/06/taxa-de-positivo-em-testes-indica-que-epidemia-esta-subestimada-no-brasil-diz-oms.shtml, acesso em 25/06/20

[4] Informações disponíveis: https://covid.saude.gov.br/, acesso em 25/06/20

[5] Informações disponíveis: https://www.theglobalist.com/united-states-brazil-donald-trump-jair-bolsonaro-coronavirus-covid19-george-floyd/, acesso em 25/06/20

[6] Informações disponíveis: https://www.nytimes.com/2019/03/19/us/politics/bolsonaro-trump.html, acesso em 25/06/20

[7] Informações disponíveis: https://www.businessinsider.com/brazils-bolsonaro-mirrors-trump-playbook-for-coronavirus-response-2020-5, acesso em 25/06/20

[8] Informações disponíveis em: https://www.researchgate.net/profile/Guillermo_Johnson/publication/335449969_Heteronomia_progresismo_y_politicas_publicas_en_America_Latina/links/5d701991299bf1cb808845ef/Heteronomia-progresismo-y-politicas-publicas-en-America-Latina.pdf, acesso dia 25/06/20

[9] Informações disponíveis em: https://www.cnbc.com/2020/06/23/trump-blames-rise-in-coronavirus-cases-on-testing-despite-signs-of-spread.html, acesso dia 25/06/20

[10] Informações disponíveis em:https://www.washingtonpost.com/news/powerpost/paloma/the-health-202/2020/06/23/the-health-202-trump-claims-an-increase-in-coronavirus-cases-is-due-to-more-testing-that-isn-t-true-anymore/5ef0efa3602ff12947e91e90/, acesso dia 25/06/20

[11] Informações disponíveis em:https://veja.abril.com.br/mundo/trump-volta-a-citar-brasil-como-mau-exemplo-na-pandemia/, acesso dia 25/06/20

[12] Informações disponíveis em:https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/apr/01/populist-right-coronavirus, acesso dia 25/06/20

Ângelo Augusto Araújo, médico, pesquisador, doutor em Saúde Pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Ângelo Augusto Araújo, médico, pesquisador, doutor em Saúde Pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

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About the Author

Ângelo Augusto Araújo
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.