Covid-19: Sergipe, estado de emergência e a epidemiologia | Por Ângelo Augusto Araújo e Rodrigo Silva

Vista panorâmica da cidade de Aracaju, capital de Sergipe.

Vista panorâmica da cidade de Aracaju, capital de Sergipe.

Segundo os dados obtidos do Ministério da Saúde (MS) [1], a situação epidemiológica da propagação do novo coronavírus no Brasil, ainda, não demonstra sinais de controle pandêmico, formação de platô. Com o número absoluto de casos na ordem de 254.220, taxa de incidência e mortalidade de 121 casos e 8,0 óbitos por 100 mil habitantes (hab), respectivamente, e letalidade de 6,6%, a situação do país é muito preocupante devido a sua grande extensão territorial, dimensão continental, diversidade populacional e a desigualdade social.

O Nordeste figura em 2º lugar no país com o número absoluto de casos, 86.130 casos, ficando atrás do Sudeste. Também, é o segundo colocado na taxa de incidência e número absoluto de óbitos, 150,9 casos por 100 mil hab (primeiro lugar a região Norte com 256,7) e 4.989 óbitos (primeiro colocado a região Sudeste – 8.138), respectivamente, e 3º colocado na taxa de mortalidade, 8,7 mortes por 100 mil hab ( primeiro lugar a região Norte com 17,0).

O estado de Sergipe, a menor unidade da federação em extensão territorial, é o estado que tem menor população do nordeste, ganha destaque na região por apresentar a 4ª maior incidência de novos casos (155,1) e 3ª menor taxa de óbitos (2,6), empurrando a letalidade da Covid-19 para 1,65%, bem abaixo da letalidade média do Brasil.

Em estudos anteriores, o autor destacou a importância do conhecimento epidemiológico como principal ferramenta para o controle da Covid-19, tendo em vista, que não existem tratamentos com vacinas e medicamentos. Um dos estudos que fundamentou a importância do entendimento da epidemiologia, estava relacionado com o controle da demanda (controle do número de novos casos) e a disponibilidade da oferta (estrutura hospitalar) que impactavam diretamente na taxa de mortalidade da doença (1).

Alguns estudos realizados pela Universidade Federal de Sergipe, apesar da inconsistência de dimensionamento, apontam para o esgotamento da oferta, estruturas hospitalares (CARDOSO, 2020; MARTINS-FILHO, 2020), assim como, os problemas no controle da demanda e os impactos do relaxamento no isolamento social (4).

Este estudo tem por objetivo fazer a integração das informações e a análise sob a óptica estatística / epidemiológica, que permita a visualização e projeções da relação oferta / demanda e as suas possíveis consequências na taxa de mortalidade no estado de Sergipe. Não tem o objetivo de ser a conclusão final para o assunto, mas um guia para futuras ponderações.

Sergipe, aspectos sócios-econômicos e demográficos

O estado de Sergipe é a menor unidade da federação em termos territorial, localizado entre os estados da Bahia e Alagoas, tem uma população de aproximadamente 2,29 milhões de habitantes, predominantemente jovem (86,5% da população tem idade abaixo dos 60 anos), no qual a sua maioria mora na região litorânea e 1/3 é urbana[2]. Apesar de ser o estado que tem a menor população do nordeste, é o 5º estado do Brasil mais populoso, apresentando uma densidade demográfica de 94,36 hab/km2. Ainda segundo dados do IBGE, a população sergipana tem baixa escolaridade, com a menor nota do país no IDEB, é um dos estados mais pobres do Brasil, tem um rendimento nominal domiciliar per capita de R$ 980,00 (16º no ranking) e IDH entre os piores do país (20º no ranking). Quanto ao fluxo viário, o estado de Sergipe está entre um dos menores do nordeste. Todos esses dados coletados do IBGE serão importantes para ajudar entender as relações epidemiológicas da Covid-19, a distribuição para o estado de Sergipe e as suas projeções, mostrando diferenciações com outras localidades.

Metodologia

O Ministério da Saúde [1] disponibiliza publicamente os dados diários de número de casos e óbitos para todo Brasil. Neste banco de dados, o Tribunal de Contas da União (TCU), também, disponibiliza a possibilidade de realizar projeções populacionais mais recente. Desta forma, é possível calcularmos a incidência de óbitos e casos positivos da Covid-19 para Sergipe.

Nos gráficos abaixo, propõem-se as avaliações das incidências de novos casos e óbitos observado em Sergipe, comparando-os com os estados de São Paulo (estado com o maior número absoluto de casos e óbitos), Amazonas e Ceará (estes dois últimos estados se destacam negativamente pela alta incidência e a saturação dos leitos hospitalares).

Para podermos comparar os 4 estados no tempo, na Figura 1, as linhas foram traçadas a partir da data da primeira notificação da Covid-19 em cada estado, e a Figura 2 considerou a data da primeira notificação de óbito.

Figura 1: Incidência de casos de Covid-19 por 100 mil habitantes.

Figura 1: Incidência de casos de Covid-19 por 100 mil habitantes.

Figura 2: Óbitos por 1 milhão de habitantes.

Figura 2: Óbitos por 1 milhão de habitantes.

O estado de Sergipe divulga diariamente boletins com informações do total de internamentos e a capacidade hospitalar em leitos de enfermaria e UTI para tratamento da Covid-19 [3] . As informações de internação datam a partir de 13 de abril, e a capacidade de leitos são descritas a partir de 28 de abril. As Figuras 3 e 4 descrevem, respectivamente, o total de internações em UTI e enfermaria ao longo do tempo, assim como, a taxa de ocupação dos leitos.

Figura 3: Total de internamentos em enfermaria e UTI por Covid-19, no estado de Sergipe.

Figura 3: Total de internamentos em enfermaria e UTI por Covid-19, no estado de Sergipe.

Figura 4: Taxa de ocupação em enfermaria e UTI em relação a internações por Covid-19 no estado de Sergipe.

Figura 4: Taxa de ocupação em enfermaria e UTI em relação a internações por Covid-19 no estado de Sergipe.

A projeção da incidência de óbito e casos confirmados da Covid-19 foi realizada utilizando um modelo de regressão não linear Logístico, utilizado para descrever curvas de crescimento (5):

Cálculo estatístico do artigo Covid-19: Brasil, estado de emergência e a epidemiologia, de autoria de Ângelo Augusto Araújo e Rodrigo Silva.

uma vez que o modelo log-linear, bastante utilizado em algumas literaturas, mostrou-se ineficiente, com uma projeção superestimada. O ajuste foi feito no software R, versão 4.0.0, utilizando a função “nls” do pacote “stats”, utilizando o algoritmo de Levemberg-Marquard para as estimativas dos parâmetros.

É importante salientar que o número de casos confirmados é uma variável muito influenciada pela subnotificação. Considera-se, também, que o aumento do número de casos não, necessariamente, representa uma expansão da doença. O que ocorre é que, o grande número de casos pode está associada a maior capacidade de testagem, ou seja, aparecimento das subnotificações.

Destaca-se que a evolução da incidência de óbitos parece ser uma estatística mais confiável para a representação da evolução da Covid-19 ao longo do tempo.

Figura 5: Projeção da incidência de casos de Covid-19 por 100 mil habitantes para os próximos 10 dias (até o dia 26/05).

Figura 5: Projeção da incidência de casos de Covid-19 por 100 mil habitantes para os próximos 10 dias (até o dia 26/05).

Figura 6: Projeção da incidência de óbitos por Covid-19 por 1 milhão de habitantes para os próximos 10 dias (até o dia 26/05).

Figura 6: Projeção da incidência de óbitos por Covid-19 por 1 milhão de habitantes para os próximos 10 dias (até o dia 26/05).

As projeções das taxas de ocupação em enfermarias e UTI foram feitas adotando modelos de regressão linear (6). As taxas são crescentes, e a grande variação é consequência da constante atualização sobre o número de leitos disponíveis e pessoas internadas. A natureza crescente desses índices implica que o número de pessoas internadas está crescendo a uma velocidade maior do que a ampliação do número de leitos.

Figura 7: Projeção da taxa de ocupação hospitalar por Covid-19 em Sergipe os próximos 7 dias (até o dia 26/05).

Figura 7: Projeção da taxa de ocupação hospitalar por Covid-19 em Sergipe os próximos 7 dias (até o dia 26/05).

Associações epidemiológicas que parecem estar relacionadas*

O estado de Sergipe tem suas fronteiras limitadas pelo oceano e os estados de Alagoas e Bahia, e tem um dos menores fluxos viários do Nordeste. Os fluxos viários tiveram a importância na introdução dos primeiros casos da Covid-19 no estado, atualmente, não restam dúvidas da propagação, transmissão, local do novo coronavírus e a necessidade da declaração do estado de emergência em saúde pública e calamidade.

A zona litorânea, a qual concentra a maior quantidade populacional, é a região que tem a maior incidência do vírus[ 4]. Apesar de ser o menor estado do Brasil e ter a menor população do Nordeste, Sergipe tem a 5ª maior densidade populacional do país, o que favorece aglomerações e novos contágios. Que, também, parece impulsionar a transmissibilidade é o baixo nível de escolaridade, compreensão das políticas de mitigações, e a grande desigualdade social, um dos estados mais pobres. Com isso, a falta de assistência e a necessidade de auto sustentação, a população é conduzida a manter as suas atividades laborativas, expondo-se aos riscos de infecção.

Por ser um estado com uma população jovem que, segundo o boletim de ocorrência é a população mais acometida pela infecção, tem uma menor susceptibilidade aos riscos de agravamento da Covid-19. A discrepância que existem entre a incidência de novos casos e óbitos podem ser justificadas por essa razão.

Análise e Discussão

Não restam dúvidas que a incidência de novos casos do novo coronavírus está em ascendência em Sergipe. A taxa de incidência ultrapassou a média para o Brasil e o estado de São Paulo, figura 1. Sergipe está acompanhando a tendência de crescimento do estado do Ceará, figura 5. Tudo isso leva a conclusão que está ocorrendo aumento significativo da demanda.

Nas figuras que demonstram os aspectos da oferta (serviços hospitalares), como observado por outros autores (CARDOSO, 2020; MARTINS-FILHO, 2020), não estão acompanhando as características de tendência da demanda. Podem-se observar que a taxa de ocupação dos leitos de enfermaria e UTI tem uma tendência crescente, com oscilações sendo causadas pelos casos resolvidos (alta hospitalar e mortes) e pelos incrementos de novos leitos, figuras 3 e 4. Contudo, nas projeções realizadas para o dia 22/05/20, figura 7, os leitos de UTI estarão com aproximadamente 80% da taxa de ocupação, assim como, os leitos de enfermaria estarão com aproximadamente 40% da taxa de ocupação.

Com relação ao número de óbitos, as figuras 2 e 6, demonstram uma menor quantidade de óbitos, quando comparados aos outros estados selecionados. Essa questão, pode ser justificada pela relação com a pirâmide etária e a faixa de maior acometimento, citado anteriormente. Contudo,  existe uma tendência crescente do número de óbitos, que possivelmente chegarão a números altamente significantes, caso ocorra a saturação da oferta estruturada, como está acontecendo na Amazonas, Ceará e Pernambuco (IDOETA, 2020; RHODES; MORENO, 2012) e a confirmação do aumento da demanda projetada. Atualmente, o estado de Sergipe tem uma relação oferta / demanda de 0,6 leitos de UTI por 10 mil hab, a recomendação da AMIB (9) sob a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que se tenha entre 1 a 3 leitos por 10 mil hab na pandemia da Covid-19.

Conclusão

Com as características particulares para o estado, Sergipe aproxima-se dos fatores importantes para ser um epicentro da Covid-19 no Brasil, especificamente, do Nordeste. Caso as ações e estratégias dos governos estadual e municipal para o combate ao novo coronavírus, não sejam, prontamente, reavaliadas e executadas, Sergipe terá uma alta taxa de contágio e, possivelmente, de morbimortalidade.

Por ser um estado de pequena dimensão, mas de alta densidade demográfica, principalmente na região litorânea, a velocidade de propagação da doença tende a tomar rumos altamente significantes, o que está sendo demonstrado diariamente pelo aumento da taxa de incidência. Com relação a baixa taxa de mortalidade, visualizam-se dois fatores que são impactantes: Primeiro, as questões relacionadas com o maior acometimento, contaminação, das pessoas jovens, tendo em vista que é um estado com uma pirâmide etária jovem, e a susceptibilidade aos riscos da doença é menor. Segundo a ocorrência da não saturação da estrutura ofertada, pois, de acordo com os boletins não ocorreu a ocupação dos leitos de enfermaria e UTI em níveis críticos.

O controle da demanda, apesar da inconsistência da análise do isolamento social[5], mostra-se em decadência, tendo em vista, que são fatores que impactam esse controle: A desigualdade social, as barreiras culturais e baixo nível educacional.

Em conclusão, esse estudo propõe para Sergipe, uma revisão nos planejamentos de contingenciamento e nas estratégias sociais e econômicas que impacte diretamente na demanda. Caso, não seja executadas essas ações com urgência, será uma corrida contra o relógio, com gastos demasiados para aumentar a oferta estruturada, ou o contrário, Sergipe tornará um epicentro da Covid-19 e começará a contabilizar números exorbitantes de mortos.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

*Rodrigo Silva, doutor em Biometria e Estatística Aplicada e professor titular da Universidade Federal de Sergipe.

Referências

1.        Araújo ÂA. Covid-19: Estruturas ofertadas e a demanda, diferenças na mortalidade | Por Ângelo Augusto Araújo | Jornal Grande Bahia (JGB), portal de notícias com informações de Feira de Santana e Salvador. Jornal Grande Bahia (JGB). 2020.

2.        Cardoso M. Portal UFS – Inércia política aumenta número de mortes, indica pesquisa com participação de cientistas da UFS. BBC news Brasil. 2020.

3.        Martins-Filho PR. NOTA TÉCNICA LPI-UFS. N.1 / 2020 PREVISÃO DE CASOS DE COVID-19 EM SERGIPE E OCUPAÇÃO DE LEITOS EM UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA (UTI). ANÁLISE DE POSSÍVEIS CENÁRIOS PARA PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO. 2020.

4.        Martins-Filho PR. NOTA TÉCNICA LPI-UFS. N.2 / 2020 RELAÇÃO DE CAUSA-EFEITO ENTRE ISOLAMENTO SOCIAL E CASOS DE COVID-19 EM SERGIPE. Aracaju, SE, Brasil; 2020.

5.        Seber G, Wild C. Nonlinear Regression. New Jersey: Wiley; 2003. 768 p.

6.        Gujarati DN. Econometria Básica. 5th ed. Mc Graw Hill; 2011. 920 p.

7.        Idoeta OA. A matemática das UTIs: 3 desafios para evitar que falte cuidado intensivo durante a pandemia no Brasil – BBC News Brasil. BBC Brasil. 2020.

8.        Rhodes A, Moreno RP. Prestação de terapia intensiva: um problema global. Rev Bras Ter Intensiva. 2012 Dec;24(4):322–5.

9.        Associação de Medicina Intensiva Brasileira. COMUNICADO DA AMIB SOBRE O AVANÇO DO COVID-19 E A NECESSIDADE DE LEITOS EM UTIS NO FUTURO. São Paulo; 2020.

[1] Dados do MS, podem ser acessados: https://covid.saude.gov.br  Data do acesso: 19/05/20, às 8h.
[2] Dados do IBGE, podem ser acessados: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/se.html
[3] Dados podem ser acessados em: https://todoscontraocorona.net.br/boletins/
[4] Dados dos boletins de ocorrência para o estado de Sergipe, podem ser acessados em: https://todoscontraocorona.net.br/boletins/
[5] Os problemas no controle da demanda e os impactos do relaxamento no isolamento social (4).
*Temas para estudo e discussão.

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About the Author

Ângelo Augusto Araújo
Dr. Ângelo Augusto Araujo, médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública - Economia da saúde (UCES). Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto. MBA - Master Business Administration - Fundação Getúlio Vargas. Graduado em Ciências Econômicas e, também, Filosofia. Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe. Membro da Academia Americana de Oftalmologia, Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), Aracaju.E-mail de contato: [email protected]