Covid-19: Limites da urgência, modelo de gestão no Brasil | Por Ângelo Augusto Araújo

No contexto da pandemia de Covid-19, trabalhadores protestaram nesta sexta-feira (08/05/2020) por direitos sociais. O ato ocorreu no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo (SP).

No contexto da pandemia de Covid-19, trabalhadores protestaram nesta sexta-feira (08/05/2020) por direitos sociais. O ato ocorreu no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo (SP).

Os dados estatísticos relacionados com a Covid-19 vêm demonstrando um número crescente de contágio e óbitos no Brasil, transformando-o em um dos países com as maiores taxas de contaminação pelo novo coronavírus no mundo (AGRELA, 2020). Atualmente, o Brasil ocupa 6ª posição no ranking do mundo em número de óbitos [1], sem considerar as subnotificações, o Brasil está na 8ª posição no mundo relacionado a quantidade de casos.

Em artigos anteriores (ARAÚJO, 2020a), o autor debateu os caminhos que poderão mudar essa realidade, as evidências epidemiológicas. Contudo, mesmo em posse de alguns dados estatísticos, o que se percebe é que, o casamento da epidemiologia com a gestão pública ainda não se tornou evidente, ou melhor, falta um enlace da estatística com a epidemiologia nas mentes dos gestores.

Os direcionamentos observados pelas as experiências conturbadas de alguns gestores no enfrentamento da Covid-19, parecem não representar nenhum significado no modo de condução para gestão pública. Gestores que desconsideraram a magnitude da pandemia e a sua velocidade de propagação, estão desesperados com as dificuldades de assistência aos casos de contaminação e ao aumento exorbitante do número de óbitos.

Presos aos paradigmas relacionados aos métodos de gestão, assim como, as inércias frente as crises dos paradigmas evidenciadas pela pandemia, a não utilização do entrecruzamento da estatística com a epidemiologia e a falta de celeridade das atitudes poderão resultar na deficiência para planejar e executar os próximos passos, passos esses que custarão vidas humanas.

Nos processos de gestão da saúde no Brasil, os modelos comumente adotados estão relacionados com as necessidades de resolver os problemas quando se tornam urgentes, o que esse artigo transcreve como os limites da urgência.

Esse artigo tem como objetivo propor o debate sobre os modelos de gestão da saúde em curso e as suas consequências. Que mesmo em posse dos dados estatísticos e epidemiológicos somados a experiência desastrosas de alguns gestores, esperam as situações ficarem nos limites para, depois disso, tomarem atitudes.

Brasil, modelos de gestão da saúde

A crise pandêmica pela Covid-19 vem aclarando inúmeras deficiências que estavam ocultas ou desconsideradas nos processos de gestão das instituições brasileiras. Os modelos que se seguem, para a grande maioria dos gestores, estão presos aos paradigmas de uma época de “normalidade e previsibilidade”, voltados as eficiências de custos, interesses particulares, burocracias e principalmente as necessidades de urgências.

Atualmente, mesmo com as crises de paradigmas (NICKLES, 2003) sendo evidenciadas, demonstradas pelos desesperos e experiências de inúmeras localidades que estão com o sistema de saúde em colapso, tendo como resultado a falta de atendimento adequado e a perda de vidas humanas, existem resistências por parte dos gestores que não permitem a evolução para um pensamento mais complexo.

Nesse período de grave crise na saúde pública que amplia os riscos de colapso socioeconômico, existem as necessidades de romperem as barreiras das eficiências dos custos (PORTER; TEISBERG, 2007), e basearem-se em projeções científicas epidemiológicas para tornarem os serviços de saúde (produtos ofertados), segundo Porter,  fundamentados nos princípios da entrega de valor, a saúde. O que, de certa forma, tornarão os produtos mais efetivos, eficientes e eficazes, e como resultados se pouparão vidas.

Após o Poder Legislativo (SENADO NOTÍCIAS, 2020) reconhecer a Medida Provisória que decreta estado de emergência em saúde pública e calamidade, objetivando a celeridade nos processos burocráticos de contratualizações para o enfrentamento do novo coronavírus, o que se observa: a) A inércia de alguns gestores pela falta de atitudes proativas, presos a um período de “normalidade e previsibilidade”; b) Questionamentos jurídicos e sociais a respeito dos processos de contratualizações, sendo interpretado como desvio de interesse público; c) e, principalmente, a desconsideração da velocidade de propagação da pandemia, baseando-se em experiências de outros gestores e projeções epidemiológicas/estatísticas que anunciam a sobrecarga dos sistema de saúde, deixando para tomar atitudes nos limites da urgência.

Todos os dias são enviados os boletins das situações relacionadas com as infecções pelo novo coronavírus. Os boletins geralmente com as informações da quantidade de novos contágios; número total de casos; quantidade de casos resolvidos, pessoas que receberam alta e que foram a óbito; quantidade da doença em curso, em tratamento domiciliar e internadas; assim como, a disponibilidade dos leitos de UTI e enfermaria dos setores públicos e privados, e as, respectivas, taxas de ocupação. Não deixam de ser informações importantes como tentativa de evidenciar a situação momentânea das localidades observadas. Contudo, quando se ocultam as projeções para o curso da doença e um possível pico pandêmico e suas necessidades, não demonstrando os planos estratégicos e de contingenciamentos, que deveriam ser frequentemente atualizados, assim como, o que estão sendo executado baseado nos dados epidemiológicos e estatísticos, com margens de segurança para cima do desvio padrão, esses dados perdem o valor principal e  tornam-se puramente informativo de uma realidade parcial.

Esses elementos analisados sem as conexões pragmáticas para as projeções do sistema de gestão e os esboços das preocupações com as futuras ocorrências, deixam a população, em alguns lugares de baixa incidência do vírus, com a ideia de falsa sensação de tranquilidade, que está tudo sob controle, e fortalecem o sentimento da desnecessidade das medidas de mitigação.

Entendendo os métodos que estão sendo propostos por diversas nações, fundamentados no pensamento da ciência epidemiológica, e tentando compreender as formas de gestão nos limites da urgência, pergunta-se: Quais serão os limites de ocupação das unidades de saúde que farão os gestores se moverem e executar novas obras de contingenciamento? Quantos profissionais efetivos de saúde terão que ser afastados até que se mova na direção de melhorar a proteção dos trabalhadores para evitar perdas? Talvez, as respostas virão juntamente com as vidas perdidas das pessoas.

Países como a Alemanha (PLEITGEN, 2020), mesmo com as dificuldades para dimensionar o tamanho do contingenciamento relacionado com a pandemia pela Covid-19, utiliza dos dados epidemiológicos locais e da experiência das outras nações para a suas projeções, mesmo assim, sente-se “pisando em gelo fino”. Contudo, na Alemanha (ARAÚJO, 2020b) como em outros países, os aspectos devastadores da pandemia começam a esboçar os sinais de compensação da relação estrutura ofertada e demanda (doentes, mortes e assistência), baseando-se no princípio da entrega de valor, a saúde do ser humano.

Obviamente, todas as questões envolvidas no controle da demanda dos recursos para saúde foram rigorosamente ponderadas, tentando objetivar a oferta sempre para cima. O que, de certa forma, influenciou uma menor perda de eficácia (vidas), eficiência (doentes/quantidade de atendimento) e efetividade (satisfação da prestação dos serviços).

Conclusão

Os modelos de gestão utilizados em muitas localidades no Brasil, o que se percebe é a antiga fórmula relatada no artigo ‘Brasil e Covid-19, uma história de cegueira epidemiológica’ (ARAÚJO, 2020c), que descreve a maneira de como os problemas são enfrentados: “…Urgência. Ou seja, procura-se resolver quando os problemas estouram e se tornam urgentes. Eles tentam solucioná-los de qualquer maneira sem um adequado planejamento.”

Os aspectos desses modelos são confirmados e observados nos desesperos dos gestores de alguns estados brasileiros, os quais estão sob grande pressão relacionados com os inícios dos picos pandêmicos que já estão causando colapsos nas unidades de saúde, trazendo como consequência a perda de eficácia (aumento do número de mortos), eficiência (a desatenção a demanda) e efetividade (Insatisfação dos serviços prestados).

Outro aspecto que, também, pode ser notado nesses modelos, é a falta de observância de alguns gestores, descrito pelas inércias das atitudes. Em alguns lugares por ainda não apresentarem congestão do sistema de saúde, mesmo observando o crescente número de casos de infecção, estão esperando que o sistema dê alguma indicação de colapso para depois correrem atrás, certamente, não terão tempo, e o tempo representará a morte de pessoas.

Esses modelos antigos de gestão, de longe, são conhecidos por todos, desconsideram os dados epidemiológicos e as utilidades das projeções e planejamentos científicos. Baseiam-se no “gerenciamento de custo”, interesses particulares, burocracias, sensibilidade da “percepção pessoal” e nos LIMITES DA URGÊNCIA.

Tudo isso, expõe a população as atrocidades humanas observadas, deixando todos expostos ao extremo amadorismo e a desumanização, representado pelas perdas de vidas humanas.

Referências

AGRELA, L. Estudo mostra que Brasil tem maior taxa de contágio de covid-19 no mundo | EXAME. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/ciencia/estudo-mostra-que-brasil-tem-maior-taxa-de-contagio-de-covid-19-no-mundo/>. Acesso em: 1 maio. 2020.

ARAÚJO, Â. A. Covid-19: Epidemiologia, o caminho da Salvação. Disponível em: <https://www.jornalgrandebahia.com.br/?s=Ângelo+and+covid+19>. Acesso em: 28 abr. 2020a.

ARAÚJO, Â. A. Brasil x Covid-19, a gestão pública na contramão da epidemiologia | Jornal Grande Bahia (JGB), portal de notícias com informações de Feira de Santana e Salvador. Disponível em: <https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/brasil-x-covid-19-a-gestao-publica-na-contramao-da-epidemiologia-por-angelo-augusto-araujo/>. Acesso em: 1 maio. 2020b.

ARAÚJO, Â. A. Brasil e Covid-19, uma história de cegueira epidemiológica | Jornal Grande Bahia (JGB), portal de notícias com informações de Feira de Santana e Salvador. Disponível em: <https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/brasil-e-covid-19-uma-historia-de-cegueira-epidemiologica-por-angelo-augusto-araujo/>. Acesso em: 22 abr. 2020c.

NICKLES, T. Thomas Kuhn. [s.l.] Cambridge University Press, 2003.

PLEITGEN, F. Merkel warns Germany is on the “thinnest ice” as Europe realizes social distancing is here to stay – CNN. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2020/04/23/europe/merkel-coronavirus-social-distancing-europe-intl/index.html>. Acesso em: 28 abr. 2020.

PORTER, M. E.; TEISBERG, E. O. Repensando a saúde. [s.l.] Bookman, 2007.

SENADO NOTÍCIAS. MP dispensa licitação em compras e impõe regras para limitar circulação de pessoas — Senado Notícias. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/03/23/mp-dispensa-licitacao-em-compras-e-impoe-regras-para-limitar-circulacao-de-pessoas>. Acesso em: 9 maio. 2020.

[1] Worldometer dia 08/05/20, às 11:57. Acesso: https://www.worldometers.info/coronavirus/

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Faça uma doação ao JGB

About the Author

Ângelo Augusto Araújo
Dr. Ângelo Augusto Araujo, médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública - Economia da saúde (UCES). Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto. MBA - Master Business Administration - Fundação Getúlio Vargas. Graduado em Ciências Econômicas e, também, Filosofia. Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe. Membro da Academia Americana de Oftalmologia, Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), Aracaju.E-mail de contato: [email protected]