O cálculo macabro da necropolítica do presidente Jair Bolsonaro | Por Luiz Augusto Campos

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Extremista Jair Bolsonaro, adepto da necropolítica.
Extremista Jair Bolsonaro, adepto da necropolítica.
Extremista Jair Bolsonaro, adepto da necropolítica.
Extremista Jair Bolsonaro, adepto da necropolítica.

Em meio à pandemia, as decisões de Bolsonaro continuam desafiando os mais treinados analistas da conjuntura. Daí o fato de esses oscilarem entre interpretações irracionalistas, que imputam ao presidente da burrice extrema à demência avançada, ou ocasionalmente aderirem a teorias conspiratórias, que ora o tomam como gênio do mal ou títere de uma onisciente coalizão internacional secreta. Em meio à maior pandemia da história, Bolsonaro iniciou uma briga infantil com seu próprio ministro da saúde em prol de um tipo relaxado de isolamento social que ele mesmo parece ter inventado. Seguiu Trump na defesa de uma cura mágica via Cloroquina, mas já ultrapassou em muito seu mestre em termos de teimosia. Isso tudo rendeu a Bolsonaro o título de “maior negacionista global” conferido pela prestigiada revista estadunidense The Atlantic.

De fato, é difícil ver alguma lógica simples nas decisões do presidente, especialmente quando consideramos a gravidade da crise. Mas curiosamente, seus recorrentes pronunciamentos sobre a pandemia vêm apresentando certa coerência interna. Logo, em vez de tomá-los como mistificações estapafúrdias, acredito ser possível deduzir desses pronunciamentos a estratégia que Bolsonaro tem em mente.

Seu raciocínio parece ser o seguinte. A saúde brasileira vai colapsar de qualquer jeito, um monte de gente vai morrer mesmo e as cenas de corpos empilhados vão se repetir aqui, isso é inescapável. Tentar controlar a pandemia (achatar a curva) é, na verdade, prolongar a duração da crise e, consequentemente, do seu próprio desgaste político. Sendo assim, Bolsonaro está mais próximo de um Boris Johnson pré-UTI: melhor deixar todo mundo se contaminar logo para o cataclisma ser grande, mas passar rápido. E ao que tudo indica, o próprio Bolsonaro já foi contaminado pelo coronavirus, mas ficou assintomático (lembrem-se, ele já foi atleta). Logo, ele não correria o risco de passar pelo papelão que seu amigo britânico passou. Depois que o desastre humanitário se for, o ônus da quarentena poderá ser jogado nos ombros dos estados e Bolsonaro poderá ir à desforra dizendo “eu avisei!”. A recessão econômica também virá de qualquer forma, mas ele poderá argumentar que ela foi atenuada por sua inusitada estratégia.

Assim exposta, a estratégia tem lá seu sentido. O presidente dificilmente manteria o pouco que resta de sua popularidade em uma quarentena duradoura. Mesmo que esta apresentasse bons resultados, eles seriam creditados ao SUS e ao pouco que sobrou do sistema de proteção social brasileiro, não a ele. Sua imagem seria a de um líder isolado e burro, tutelado por ministros, técnicos e militares. As mortes também não seriam um problema, elas acontecerão em todo o mundo e o povo brasileiro já demonstrou uma enorme tolerância a números macabros.

Do alto de sua tacanhice, Bolsonaro percebeu isso e se rebelou contra alguns de seus assessores. Quer receber o crédito pelo que acontecer, independentemente do resultado. Como deixou claro no discurso que empossou Nelson Teich: “uma decisão ruim é melhor que a indecisão”. Também está longe do seu alcance mental e político fazer alguma concessão ideológica em nome da proteção de seu povo, seguindo ex-aliados locais como João Doria e Wilson Witzel ou líderes internacionais como Angela Merkel ou o próprio Boris Johnson pós-UTI. Ele e seus filhos não conseguiriam mudar o tom, soariam politicamente fracos (como de fato são).

Paradoxalmente, o problema dessa leitura bolsonarista não é rechaçar a ciência, mas justamente o oposto. Ela se fia numa versão ultrassimplificada dos modelos epidemiológicos resumidos nas duas curvas, uma íngreme e curta, outra achatada e longa. Optemos, defende ele, pela curva íngreme das medidas frouxas de distanciamento e passemos por isso logo.

Porém, o que escapa a esse cálculo político macabro é que ainda não sabemos quão mais breve será o pico de casos e mortes num cenário sem distanciamento social. Os EUA estão há um mês assistindo os números crescerem exponencialmente e não há nenhum sinal de que o pico ocorrerá nos próximos dias. Os picos atingidos na China, Cingapura e Coreia do Sul também não servem de exemplo, pois os três países aderiram a medidas agressivas de distanciamento social. Só agora, Itália e Espanha assistem a certa desaceleração do número diário de mortes, algo ainda distante de se zerar a letalidade.

Logo, o cataclismo brasileiro pode durar muitos meses, dando ao presidente o pior dos resultados: mais mortes do que em todo o mundo e por um período mais longo que em outros países. A questão que fica é: quanto tempo e quantos mortos a já parca popularidade aguenta?

*Luiz Augusto Campos, professor de Sociologia e Ciência Política do IESP-UERJ.

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