Hidroxicloroquina, verdades e debates desproporcionais | Por Ângelo Augusto Araújo

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Artigo ‘Resultados clínicos da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados com a Covid-19: um comparativo quase randomizado’, circula nas redes sociais da internet, antes mesmo da publicação.
Artigo ‘Resultados clínicos da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados com a Covid-19: um comparativo quase randomizado’, circula nas redes sociais da internet, antes mesmo da publicação.
Artigo ‘Resultados clínicos da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados com a Covid-19: um comparativo quase randomizado’, circula nas redes sociais da internet, antes mesmo da publicação.
Artigo ‘Resultados clínicos da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados com a Covid-19: um comparativo quase randomizado’, circula nas redes sociais da internet, antes mesmo da publicação.

Circula em grupos de WhatsApp um suposto artigo para o The New England Journal of Medicine, destacado veículo de publicação médica. Segundo o documento, ele foi submetido ao conselho editorial, ou seja, não foi publicado. O artigo aborda o tema: ‘As consequências do uso da Hidroxicloroquina em paciente hospitalizados com infecção pelo novo coronavírus, um quase-randomizado estudo comparativo’, assunto amplamente debatido pela população do Brasil e dos Estados Unidos da América (EUA).

O estudo conclui que o uso da Hidroxicloroquina aumenta a necessidade de assistência ventilatória e não demostra diminuição da mortalidade dos pacientes com a Covid-19. Parece ser um estudo sério, que pode ser questionado sobre o dimensionamento e a conclusão. Ele apresenta a estrutura científica de um artigo que está sendo submetido para publicação. Inclusive, no documento eletrônico, em formato pdf, o artigo apresenta marca d’agua e logomarca do New England Journal, informando que é artigo em análise, que ainda não foi aceito para publicação, registrando a necessidade da confidencialidade, pois está sob revisão. Na publicação constam os nomes dos autores, as faculdades de referência, contatos e a data da submissão, 4 de abril de 2020, contudo, não foi possível checar a autenticidade do vazamento da informação.

Ao pesquisar a autoria do artigo na base do veículo de comunicação médica, não foi encontrada a referida publicação, ou seja, pode-se afirmar que é, supostamente, apenas um artigo submetido ou notícia falsa (fake News). Pelos preceitos éticos de autenticidade e publicidade de um artigo científico, existem os termos de confidencialidade do documento cuja finalidade é proteger eticamente os autores e o veículo onde foi publicado. Então, porquê destacar uma informação que ainda não procede no meio científico?

A complexidade filosófica

Um dos mais renomados nomes da ciência contemporânea, Edgar Morin, filósofo e sociólogo, vem debatendo faz décadas sobre a teoria da complexidade. Do que se trata essa teoria? A teoria da complexidade trata-se de uma complexa inter-relação transdisciplinar das múltiplas áreas do conhecimento. Coisa que o isolamento disciplinar, a tecnociência, por mais que favoreça o desenvolvimento científico de algo isolado e específico, não permiti visão complexa das consequências dos avanços científicos.

O que vemos, nesse momento tão conturbado, é uma disputa do “pertencimento e ineditismo”, ou seja, quem terá a propriedade do conhecimento de um assunto tão desastroso, quem será o primeiro a anunciar a salvação da humanidade.

Refletindo sobre ideias de Edgar Morin, poder-se-ia dizer que, a falta de reflexão que envolvam debates científicos que estão sendo publicizados e politizados, em busca do “ineditismo e pertencimento”, estão tornando figuras públicas e científicas tão populares, que as contradições das argumentações propostas, deixam confusas a cabeça da população, até do próprio meio tecnocientífico.

Neste contexto emerge os seguintes questionamentos: Qual será de fato o objetivo das condutas propostas? Tratar o ser humano com ciência e segurança? ou atender as necessidades da retomada da economia? Quais serão os impactos da publicização sem medidas dos assuntos médicos? Que nível de segurança e ansiedade sofrerá a população exposta a um debate não concluído pela ciência? A que ponto poderá ser questionado a auto-conduta, automedicação, estimulada pela publicização?

As consequências sociológicas e filosóficas que se entrecruzam com a medicina, farmacologia, biologia, saúde pública, bioética, economia, entre outros, serão colhidas e demonstradas pela a história e pela área jurídica.

O desfeche disso tudo estará relacionado com os devidos cuidados na divulgação, checagem e boa análise das fontes de informações, assim como, na correta abertura dos pensamentos para externar as sínteses do conhecimento e suas consequências.

Artigos, como o citado na introdução do texto, encontrar-se-ão a todo o momento nas redes sociais da internet. O que vemos, mesmo que o artigo não seja uma “fake News” e venha a ser autorizada a publicação, é que a população, de um modo geral, assim como o meio científico e a tecnociência, encontram-se sobre pressão e divulgam qualquer informação sem os filtros adequados. Demonstrando, com isso, isolamento disciplinar e não reflexão sob a complexidade.

Nesse caso, sendo autentificada a veracidade do artigo, o vazamento e a quebra de confidencialidade de um artigo em submissão, rompe os preceitos éticos estabelecidos. Carregando, com isso, o “ineditismo e o pertencimento”, publicizando o artigo antes mesmo que se tenha a aprovação de um conselho editorial.

Conclusão

Referindo a teoria da complexidade, imagina-se a força da imagem veiculada das personalidades em destaques nos meios de comunicações, polemizando definições de condutas não concluídas. Os reflexos disso tudo podem ser observados no debate popular sobre o uso da Hidroxicloroquina (antimalárico), azitromicina (antibiótico), ivermectina (antiparasitário), vitamina D e Zinco. Destacando aqui a Hidroxicloroquina como a droga que irá salvar a todos e o seu aumento exorbitante das vendas nas farmácias. Perguntaria: Por que não a ivermectina? Pré-conceito? Remédio antiparasitário que trata de pulgas e carrapatos em animais que está sendo pesquisado por uma universidade australiana sobre os efeitos anti-Covid-19.

Como foi tratado nesse texto, a teoria da complexidade pode extrapolar os pensamentos para as seguintes reflexões: Além dos interesses econômicos para a urgente liberação da droga, existem interesses da indústria farmacêutica? Resposta que deverá ser discutida por múltiplas áreas, desde mercado internacional a economia da saúde. Quais serão os interesses das figuras que aparecem dando aval e certificando o pertencimento de um conhecimento que não tem: político, narcísico, etc? Respostas que, também, deverão ser discutidas por múltiplas áreas, desde a ciências políticas a psicologia.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.