Hidroxicloroquina para Covid-19, tragédia ou solução anunciada? | Por Ângelo Augusto Araújo

Artigo aborda as implicações do uso do medicamento Hidroxicloroquina no tratamento de infeção pelo novo coronavírus.Artigo aborda as implicações do uso do medicamento Hidroxicloroquina no tratamento de infeção pelo novo coronavírus.
Artigo aborda as implicações do uso do medicamento Hidroxicloroquina no tratamento de infeção pelo novo coronavírus.

Artigo aborda as implicações do uso do medicamento Hidroxicloroquina no tratamento de infeção pelo novo coronavírus.

A hidroxicloroquina, como solução para doença como malária e tratamento de colagenoses (Lúpus, Artrite reumatoide, outras), é uma droga com ação efetiva já conhecida faz muito tempo. Sabendo dos diversos efeitos danosos que podem trazer ao organismo do paciente que está usando, os especialistas que a indicam fazem ressalvas e, também, asseguram do auxílio das múltiplas especialidades envolvidas com os efeitos tóxicos do medicamento para o controle de prescrição e continuidade do uso da droga. A questão proposta é: A hidroxicloroquina é uma solução, ou tragédia anunciada?

A maioria das terapias medicamentosas propostas vem com uma bula indexada descrevendo os diversos efeitos, para-efeitos, recomendações para o paciente e o médico, assim como alertas com o uso restrito a prescrição médica. Dessa maneira, restringem-se o uso da medicação a um público alvo específico no sentido de se ter maior controle sobre os efeitos indesejáveis e desejáveis do medicamento. Depois, que esses estudos estão bem delimitados, imprimem-se os protocolos das indicações precisas do uso da droga específica.

Acontece que, em muitos medicamentos utilizados e que foram desenvolvidos para alguns propósitos, os efeitos não esperados muitas das vezes apresentam-se como soluções para outras patologias (doenças). Exemplos como esse temos: a Prometazina (Fernergan) – medicamento desenvolvido para transtornos metais e, atualmente, sendo muito utilizado como antialérgico; **Talidomida (medicamento descontinuado), droga desenvolvida para os distúrbios do sono, que depois foi indicado para controle de náuseas e vômitos em gestante. A exemplo destes fármacos, existem diversos outros, por isso, destaca-se sempre nas bulas dos medicamentos a frase que todos conhecemos como: Uso sob recomendação médica.

O que está acontecendo agora é uma Urgência, um desespero coletivo em busca de soluções rápidas, que podem confundir e atrapalhar os melhores médicos e cientistas envolvidos nas formas de tratamento contra a infecção pelo novo coronavírus.

O medo da morte e falta de soluções que traga de volta a vida a “normalidade”, estão levando profissionais de saúde com elevada qualificação tecnocientífica a se exporem demasiadamente, tendo como perspectiva apresentar soluções que urgem para as pessoas acometidas pela Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV-2).

No contexto, observa-se que questões de bioéticas e de saúde pública estão sendo relevadas, colocadas em segundo plano. A esse fato, soma-se a pressão política, que conjugada com a desestrutura conjuntural da sociedade brasileira, clama solução urgente e pragmática para um problema novo, os casos de infecção por coronavírus.

Quando um profissional de saúde ou uma autoridade política defende, de maneira enfática a crença de que com uso de determinado medicamento é possível resolver o problema de saúde, é como se eles estivessem autorizando que os infectados, principalmente os menos informados, pudessem utilizar o medicamento sem prescrição médica. Esse contexto ficou comprovado no momento em que ocorreu elevadíssima compra de hidroxicloroquina nas farmácias do Brasil, sem prescrição médica, em tamanha magnitude que ocorreu desabastecimento nacional do medicamento.

O que chama atenção é que:  Na própria bula do medicamento está escrito que o uso da medicação é somente sob prescrição médica, fato que a ANVISA tardou quase um dia para notar.

Elevado nível tóxico e efeitos colaterais 

Mas, por que quê a hidroxicloroquina deve ser somente utilizada sob prescrição médica?

No uso da hidroxicloroquina nas doenças com protocolo médico, existem muitas das reações adversas e efeitos colaterais conhecidos, como a própria bula do medicamento prescreve. As frequências dos efeitos indesejáveis são difíceis de calcular pela insuficiência de dados clínicos. Vários dos diversos para-efeitos são: distúrbios visuais, retinopatia tóxica (observada mesmo após 5 anos que foi parada o medicamento – pode ocorrer perda da visão central), ototoxidade (zumbidos e perda auditiva), distúrbios musculares e de condução nervosas, problemas dermatológicos diversos e aumento da fotossensibilidade, distúrbios hepato-biliares, distúrbios gastro-intestinais (vômitos, dor abdominal e diarreia), distúrbios do sistema nervoso (dores de cabeça, tonturas), entre outros.

Dentre os efeitos adversos, são destacados, principalmente, os distúrbios psiquiátricos (labilidade emocional, nervosismo, psicose e suicídio), distúrbios do metabolismo (anorexia e hipoglicemia, baixa do açúcar), distúrbios do sistema imune (inclusive bronco-espasmo, falta de ar), distúrbios do sistema linfático como anemia, leucopenia e depressão medular (baixa do sistema imunológico), distúrbios cardiológico (cardiomiopatia e insuficiência cardíaca que podem ser fatal), além de outros efeitos nocivos, que as informações técnicas do medicamento apresenta como potenciais: efeitos carcinogênicos (causar câncer), tendo dados limitados a genotoxicidade (toxicidade genética) e toxicidade reprodutiva. Neste aspecto, destaca-se a limitação da indicação para gestantes e nutrizes (mulheres que estão amamentando).

Nas informações técnicas sobre a hidroxicloroquina são verificadas, também, outras ressalvas relacionadas com interações medicamentosas, como medicações para o coração, distúrbios psiquiátricos e antibacterianos, interferindo no tratamento dos pacientes. Enfatizando ainda a eliminação do medicamento do sangue em 50 dias e a impregnação em vários tecidos do organismo que poderão durar anos.

É necessário destacar que nos pacientes com doenças hepáticas (do fígado) e renais, o processo de eliminação da droga, no organismo do paciente, pode ser muito mais demorado, atingindo níveis tóxicos (superdosagem) de altíssima gravidade.

A prescrição

No contexto, emerge o seguinte questionamento: como um medicamento de elevada carga toxicológica, com diversos efeitos maléficos à saúde do paciente é proposto por muitos profissionais de saúde, como opção de tratamento? Essa questão remete a outros pontos de observações:

1.            A falta de hábito de leitura da bula do medicamento, que está sendo administrado;

2.            Como a medicina precisa desenvolver muito ainda para que possa ofertar terapias mais seguras para o paciente;

3.            As questões éticas que devem ser debatidas com o paciente e com o conselho de ética antes de recomendar uma medicação experimental;

4.            O risco do debate público de questões técnicas que podem ser objeto de interpretações equivocadas por parte da população;

5.            As ponderações técnicas sobre o uso ou não uso de uma medicação de forma experimental (off label) em pacientes infectados pelo novo coronavírus; e

Caberá, inicialmente, ao corpo técnico de saúde discutir, secundariamente, aos pacientes que serão objetos do experimento médico.

Considerações finais

Conclui-se que, apesar dos para-efeitos contraditórios da hidroxicloroquina, que, inclusive, podem agravar muitos casos de infecção pelo novo coronavírus, por potencializar os efeitos danosos da doença, as evidências apresentadas até o momento não são seguras o suficiente para afirmar que a utilização poderá oferecer algum benefício aos pacientes. Contudo, cabe ao médico assistente, paciente e comitê de ética a decisão sobre a introdução do uso do medicamento como último recurso. Verificando que não existe protocolo para esse procedimento.

Observa-se, por fim, a responsabilidade civil e penal da prescrição médica pelo profissional que indica e que poderá ser questionado no futuro. Portanto, é aconselhável que sejam ponderadas as considerações éticas e de segurança, pois no desespero para encontra soluções urgentes, que ainda não existem, possa resultar em condutas inadequadas.

** Talidomida é um exemplo de medicamento cuja a prescrição foi responsável por ajuizamento de inúmeras ações indenizatórias, cuja a negação da prescrição foi determinada pelo destacado órgão estadunidense Foods, Drugs Administration (FDA).

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

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About the Author

Ângelo Augusto Araújo
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.