Editorial: Como os dados estatísticos revelam a ineficiência do sistema público de saúde e a elevada taxa de mortalidade do Brasil em casos da Covid-19

Análise comparativa entre dados estatísticos mundiais e dados do Brasil, ocorrida nesta segunda-feira (06/04/2020), indicam elevado número de casos de óbitos por Covid-19.

Análise comparativa entre dados estatísticos mundiais e dados do Brasil, ocorrida nesta segunda-feira (06/04/2020), indicam elevado número de casos de óbitos por Covid-19.

A análise dos dados apresentados neste editorial tem por base projeção estatística do Imperial College de Londres, dados apresentados pelo Wordometer e Relatório da Missão Conjunta da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Governo da China (Relatório OMS-China), publicado em 28 de fevereiro de 2020, sobre as características epidêmicas/demográficas de casos de infectados pelo Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave tipo 2 (SARS-CoV-2), que ocasiona a Covid-19, e leva em consideração a média global dos casos registrados versus os casos registrados no Brasil.

O estudo estabelece corte temporal das 20 horas desta segunda-feira (06/04/2020) e  objetiva fundamentar a tese de que ocorre no Brasil um elevado número de óbitos, quando comparado a média mundial, e que isso é decorrente de fatores como: 1) Notificação deficiente dos casos da Covid-19; 2) Ineficiência histórica do sistema público de saúde em lidar com demanda em larga escala de pacientes infectados, relacionada a incapacidade do Governo Central em estabelecer uma política nacional de enfrentamento ao problema que, a) amplia e especialize a capacidade instalada do sistema de saúde; b) Coordenação e vigilância de protocolos, que distribua de forma estratégica por cidades-polo a rede de tratamento dos infectados; c) estabeleça novas bases industriais para produção de insumos que permita a autossuficiência no enfrentamento da infecção, com produção, estoque e distribuição de equipamentos e testes laboratoriais, medicamentos e equipamentos para suporte da vida em unidade semi-intensiva, produção de equipamentos de proteção individual (EPI) para diferentes níveis de risco biológico, assim como pesquisa e desenvolvimento de fármacos que possam ser utilizados para reversão dos quadros de infeção viral.

Observa-se que o cenário é desalentador, porque o objetivo do isolamento-social e de redução da atividade produtiva adotado no Brasil, foi fazer com que o Estado ganhasse tempo suficiente para elaborar um plano e colocar em prática as medidas que poderiam minimizar as mortes projetadas para o Brasil, como também,  atender a demanda de leitos hospitalares para os infectados pelo novo coronavírus, fato que não vem acontecendo na medida anunciada para enfrentamento da Pandemia.

Os dados estatísticos

Conforme análise percentual sobre a população em um cenário crítico, com base no modelo estatístico do Imperial College, conjugado com o Relatório OMS-China, os dados sobre o Brasil revelam uma população total 212.559.409 habitantes, destes, 187.799.806 membros da população do Brasil serão infectados; enquanto 6.206.514 de pacientes necessitarão de internamento; 1.527.536, precisará de internamento em unidade hospitalar de terapia semi-intensiva (UTI Semi-Intensiva) e 1.152.283 de infectados podem ir a óbito.

Em síntese, no Brasil, com base o Relatório OMS-China, a projeção estatística indica que 80,9% das infecções serão leves, com sintomas semelhantes aos da gripe e os pacientes podem se recuperar em casa; 13,8% são graves e podem desenvolver pneumonia e apresentar dispneia e falta de ar; 4,7%, serão de casos críticos e pode incluir insuficiência respiratória, choque séptico e falência de múltiplos órgãos, para cerca de 2% dos casos relatados o vírus é fatal.

Ocorre que na média mundial, segundo dados do Wordometer, das 20 horas, desta segunda-feira (06/04/2020), foram registrados 1.342.372 casos de infectados pelo novo coronavírus no mundo; sendo que 278.182, foram da pacientes recuperados enquanto outros 74.558 foram à óbito. Destes, 989.632 são casos de pacientes infectados; 942.126 (95%) estão em condições suaves; 47.506 (5%) estão em estado sério ou crítico. Dos casos fechados, ou seja, os casos em que ocorreu recuperação ou óbito do paciente totalizam 352.740; destes, em 278.182 (79%) são casos os pacientes que se recuperaram; enquanto outros 74.558 (21%) foram á óbito.

No caso do Brasil, dados do Wordometer das 20 horas, desta segunda-feira (06/04/2020), indicam que foram registrados 12.161 casos de infectados pelo novo coronavírus; sendo que 127 foram da pacientes recuperados, enquanto outros 564 foram à óbito. Destes, 11.470 são casos de pacientes infectados; 11.174 (97%) estão em condições suaves; 296 (3%) estão em estado sério ou crítico. Dos casos fechados, ou seja, os casos em que ocorreu recuperação ou óbito do paciente totalizam 691; destes, em 127 (18%) são casos de pacientes que se recuperaram; enquanto outros 564 (82%) foram á óbito.

Analisando comparativamente os dados, fica evidente que a taxa de mortalidade no Brasil, em que ocorreu a conclusão dos casos (casos fechados), é elevadíssima, com 82% de óbitos registrados e tem relação inversa quando comparado a média mundial de 21%.

Conclusão

Com a análise dos dados pode-se inferir que, até o momento, o sistema público de saúde do Brasil ou não está alimentando corretamente os dados de notificação, o que eleva o risco de má interpretação epidemiológica e planejamento, ou representa baixa efetividade em conduzir os casos de pacientes infectados pelo novo coronavírus, que necessitam de atendimento hospitalar. Observa-se que esse fenômeno ocorre em um cenário de isolamento social em muitas localidades, redução significativa da atividade produtiva, ainda não estando no pico de ascendência da curva de contaminação.

Infere-se, por fim, que com a liberação da atividade produtiva e o fim do isolamento social, culminado com a ineficiente capacidade do Estado Nacional em adotar as medidas necessárias como: harmonizar, protocolar e contingenciar (leitos, equipamentos e profissionais de saúde), a pressa pela retomada da economia poderá levar o Brasil a apresentar um dos mais desastrosos cenários mundiais, com elevado número de mortes.

O argumento ganha maior plausibilidade quando colocando em relação dialética com a análise sociopolítica do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, ao afirmar que “há vácuo no poder e que Brasil retrocedeu”. A declaração concedida em entrevista ao Jornal O Globo, nesta segunda-feira (06/04/2020), reconhece as falhas do Governo Central em organizar e mobilizar as forças produtivas do país em um programa político nacional de saúde pública que viabilize o enfrentamento do problema sistêmico que atinge em dois níveis o país, de um lado, a própria vida humana dos cidadãos e, do outro, o modo de produção e a forma como a economia se desenvolve.

*Carlos Augusto, jornalista e cientista social.

*A análise dos dados contou com a colaboração do Ângelo Augusto, médico, pesquisador e doutor em saúde pública.

Sobre a Covid-19 (Novo Coronavírus SARS-CoV-2)

A Covid-19, antes, denominada 2019-nCoV, é uma doença infeciosa causada pelo Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave tipo 2 (SARS-CoV-2). Ela Foi detectada pela primeira vez, em 2019, entre moradores da cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, na República Popular da China.

Em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi alertada sobre vários casos de pneumonia que ocorriam na cidade chinesa. Tratava-se de uma nova cepa (tipo) de coronavírus que não havia sido identificada antes em seres humanos.

Em 11 de fevereiro de 2020, em Genebra, na Suíça, a OMS denominou a infecção provocada pelo Novo Coronavírus (SARS-CoV-2) como ‘Covid-19’, a nomenclatura é um acrônimo do termo ‘doença por corona vírus’, em inglês, ‘CoronaVirus Disease 2019’.

Cronologia

Em 21 de janeiro de 2020, a OMS informou que o novo coronavírus descoberto na China provavelmente se espalhará para outras partes do país e possivelmente para outros países nos próximos dias.

Em 30 de janeiro de 2020, a OMS declarou estado de emergência global em razão do coronavírus de origem da China

Em 11 de fevereiro de 2020, o médico Tedros Ghebreyesus, diretor-geral OMS, afirmou que a emergência do coronavírus é “grave ameaça ao mundo” e que a raça humana não pode deixar que a epidemia saia do controle.

Em 14 de janeiro de 2020, a OMS emitiu alerta para a rede hospitalar informando que o novo coronavírus da China poderia se espalhar pelo mundo.

Segundo o comunicado, no total, 41 casos de pneumonia foram relatados em Wuhan, cidade do centro da China, e exames de laboratórios preliminares citados pela mídia estatal mostraram que eles podem ser resultantes de um novo tipo de coronavírus. Um dos pacientes morreu.

“Com base nas informações que temos, é possível que exista uma transmissão humana limitada, potencialmente entre famílias, mas, neste momento, está muito claro que não temos uma transmissão humana constante”, disse Maria Van Kerkhove, chefe interina da unidade de doenças emergentes da OMS.

Observa-se que a OMS errou ao não verificar o potencial exato da disseminação da nova doença.

Cidade de origem

Wuhan é a capital e maior cidade da província de Hubei na China. É a cidade mais populosa da China Central, com uma população de mais de 10 milhões, a sétima cidade mais populosa do país. Encontra-se na planície oriental de Jianghan, no meio do cruzamento do rio Yangtze com o rio Han. Surgindo de um conglomerado de três cidades, Wuhan e possui atualmente estatuto administrativo sub-provincial.

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About the Author

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).