Covid-19: Remdesivir, esperança e os movimentos assincrônicos | Por Ângelo Augusto Araújo

Pesquisadores publicam artigo no jornal The New England sobre uso de Remdesivir em pacientes em estado grave infectados com novo coronavírus.
Pesquisadores publicam artigo no jornal The New England sobre uso de Remdesivir em pacientes em estado grave infectados com novo coronavírus.
Pesquisadores publicam artigo no jornal The New England sobre uso de Remdesivir em pacientes em estado grave infectados com novo coronavírus.
Pesquisadores publicam artigo no jornal The New England sobre uso de Remdesivir em pacientes em estado grave infectados com novo coronavírus.

Com os dados históricos da economia da China anunciando a maior retração econômica ocorrido nos últimos 40 anos [1], os investidores do mercado financeiro estadunidense, assim como da maiorias dos países, inclusive o Brasil [2], [3], [4], pareciam ignorar os dados econômicos da segunda maior potência mundial, e conectavam-se a possibilidade de uma solução para o fim da pandemia pelo coronavírus e o retorno das atividades econômicas. Os indicadores das bolsas de valores fecharam positivamente. Segundo a agência de noticia Reuters e o The Wall Street Journal [5], [6], [7] , os responsáveis por esse movimento eram as publicações dos primeiros resultados positivos do uso de Remdesivir (droga antiviral) para o tratamento dos casos graves de pacientes infectados com o novo coronavírus.

Remdesivir, evidências

O Remdesivir [8] é um medicamento antiviral, desenvolvido pela empresa estadunidense Gilead, com sede em Chicago, Ilinóis. Tem como mecanismo de ação a inibição do RNA polimerase, que impede a replicação viral. Os primeiros resultados apresentados parecem muito animadores no tratamento de paciente em estado grave da doença. Estudos [9], também, demonstram inibição do processo de evolução da infecção pelo novo coronavírus em macacos.

A esperança ponderada

O mundo parece enxergar uma saída global para a infecção pelo novo coronavírus com uma droga desenvolvida, particularmente, para tratar doenças virais, especificamente, o coronavírus. Contudo, questões de ordem epidemiológicas e de economia da saúde precisam ser pontuadas.

A euforia dos acionistas no mercado financeiro que, em partes, retrata o sentimento e a esperança de todos com relação ao fim da Pandemia, não ponderou adequadamente que o uso do Remdesivir será para o grupo de pacientes infectados pelo novo coronavírus que esteja em estado grave, o que de acordo com os dados do Worldometer[10], são aproximadamente 4% dos infectados.

Evidentemente, não deixa de ser uma esperança e uma possível solução que auxilie a diminuição da taxa de mortalidade, porém de alto custo, que quando protocolado para uso, deverá ser prescrito em ambiente hospitalar para pacientes em unidades de tratamentos semi-intensivo ou intensivo.

Contudo, quando se fala em ações para controle de epidemias, devem ser contabilizadas e ponderadas as seguintes questões: a) Qual é a transmissibilidade (R0), infecciosidade, do agente para determinadas regiões? b) Como ficarão o estado geral das pessoas infectadas? c) Qual será o tempo de reabilitação? d) Existem possibilidade de reinfecção? e) A imunização é possível? f) Quais serão os custos de afastamento profissional das pessoas com a doença ativa?  f) Quais são os custos geral e individual das pessoas com baixa gravidade de infecção em tratamento paliativo? e os g) quanto serão os custos de tratamento hospitalar das morbidades moderadas relacionada com a Covid-19? Com exceção dos 4% que necessitarão de cuidados semi-intensivo e intensivo e poderão ser candidatos ao uso do Remdesivir, os outros que entrarão nessa contabilização e ponderações somarão aproximadamente 96% [11].

Conclusão

Conclui-se que, até o momento, o uso do Remdesivir não é uma solução definitiva que poderá ser prescrita para a maioria dos infectados, assim como, também, não é uma solução profilática, preventiva, para evitar o contágio das pessoas.

Então, sem o desenvolvimento de vacinas e o fim do isolamento social, se não for realizado de forma corretamente planejada e cautelosa, quer dizer, sem que se certifiquem a segurança e o controle do contágio epidêmico, na ausência de bom contingenciamento, ocorrerá o aumento crescente de novos casos de contaminação pelo coronavírus somados a possíveis reinfectados. Isso resultará no aumento da procura pelas unidades hospitalares, conduzindo o sistema de saúde ao colapso.

As pessoas infectadas pelo novo coronavírus que, possivelmente, poderiam se beneficiar com o uso do Remdesivir, não teriam acesso ao medicamento. O sistemas de saúde congestionados impediria a chegada dos pacientes em situação grave até as unidades de tratamento semi-intensivo e intensivo. Todavia, os benefícios dessa droga, que está sendo desenvolvida para tratar os casos de pessoas com a enfermidade na forma grave, não serão atingidos de maneira eficiente.

Portanto, as metas principais traçadas de controle da propagação viral, mesmo com o advento do Remdesivir, continuam ser o achatamento da curva de contágio e um excelente contingenciamento, ou caso contrário, o objetivo de salvar vidas não será atingido de forma eficiente.

Pelos argumentos apresentados, pode-se inferir que existe assincronia do mercado financeiro para com o próprio mercado, reflete o estado de angústia existencial do ser humano e os cuidados com as ponderações que deverão ser avaliadas.

*Ângelo Augusto Araújo (angeloaugusto@me.com), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Baixe

Compassionate use of Remdesivir for patients with severe Covid-19

Refletências

[1] Jeffery Martin, ‘China Economy Has Worst Quarter in 40 Years After Coronavirus Lockdowns, Leading the World Into Recession’, Newsweek, 2020 <https://www.newsweek.com/china-economy-has-worst-quarter-40-years-after-coronavirus-lockdowns-leading-world-recession-1498447> [accessed 18 April 2020].

[2] REUTERS, ‘Report Says COVID-19 Patients Respond to Gilead’s Remdesivir, Shares Surge – Reuters’, REUTERS, 2020 <https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-gilead-sciences/report-says-covid-19-patients-respond-to-gileads-remdesivir-shares-surge-idUSKBN21Y3GV> [accessed 18 April 2020].

[3] Joseph Walker, ‘Coronavirus Drug Report, Though Inconclusive, Sends Gilead Higher – WSJ’, The Wall Street Jounal, 2020 <https://www.wsj.com/articles/coronavirus-drug-report-though-inconclusive-sends-gilead-higher-11587145839> [accessed 18 April 2020].

[4] Reuters, ‘Wall St Fecha Em Alta Com Boeing e Esperança Sobre Medicamento Para Coronavírus Por Reuters’, Investing.Com, 2020 <https://br.investing.com/news/coronavirus/wall-st-fecha-em-alta-com-boeing-e-esperanca-sobre-medicamento-para-coronavirus-738938> [accessed 18 April 2020].

[5] REUTERS.

[6] Walker.

[7] Reuters.

[8] Jonathan Grein and others, ‘Compassionate Use of Remdesivir for Patients with Severe Covid-19’, New England Journal of Medicine, 2020, NEJMoa2007016 <https://doi.org/10.1056/NEJMoa2007016>.

[9] Alexandra Le Bras, ‘Efficacy of Remdesivir in a Rhesus Macaque Model of MERS-CoV Infection’, Lab Animal, 2020 <https://doi.org/10.1038/s41684-020-0537-x>.

[10] ‘Worldometer Coronavirus’, Coronavirus Pandemic, 2020 <https://doi.org/10.1002/jmv.25689>.

[11] ‘Worldometer Coronavirus’, Coronavirus Pandemic, 2020 <https://doi.org/10.1002/jmv.25689>.

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Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: angeloaugusto@me.com), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.