Covid-19: Epidemiologia, o caminho da salvação | Por Ângelo Augusto Araújo

Dados utilizados na análise do artigo ‘Covid-19: Epidemiologia, o caminho da salvação’.
Dados utilizados na análise do artigo ‘Covid-19: Epidemiologia, o caminho da salvação’.
Dados utilizados na análise do artigo ‘Covid-19: Epidemiologia, o caminho da salvação’.
Dados utilizados na análise do artigo ‘Covid-19: Epidemiologia, o caminho da salvação’.

As discussões, os embates e pesquisas a procura de soluções definitivas continuam mundo a fora, em um patamar de conjecturas não definidas que possam assegurar o retorno das vidas às atividades rotineiras. Como as histórias de outras morbidades virais documentam, os processos de intervenções médicas que venham atender as mais diversas demandas da população e seus variados níveis de acometimentos pela Covid-19, demonstram que ainda levarão muito tempo até se alcançar medidas intervencionistas profiláticas [1] (vacinas) e medicamentosas para o controle da pandemia. Logicamente, nessa pandemia as urgências por soluções não são isoladas a uma ou outra nação. Existem particularidades que são únicas e as difere de outros tipos de pandemias, considerando que as histórias de pandemias são escassas e dentro de uma temporalidade. As particularidades positivas dessa pandemia como, o fortalecimento do empenho global na procura de soluções associados ao melhor entendimento da ciência, todavia, estão sendo atenuadas pelas peculiaridades do próprio agentes infeccioso, o novo coronavírus. Essas questões são barreiras do conhecimento científico que, de certa forma, necessitarão de mais tempo e dedicação da ciência para que se encontre as soluções definitivas procuradas que possam ser prescritas para todos.

O desespero comum a todos, somado ao desejo de retomada da vida, é de tamanha dimensão que as mais diversas idiossincrasias sociais manifestadas pelas redes de comunicações perdem força pela a falta de argumentações coerentes, cientificamente amparadas. Grupos começam a entender que, as vontades manifestadas pelas negações das realidades, as suas argumentações estão sendo debatidas, envolvidas e engolidas pelo conhecimento do comportamento do agente infeccioso (o novo coronavírus).

As questões de ordem biológica, médicas, farmacológicas, sociais, econômicas, dentre outras, envolvem-se, entrelaçam-se na tentativa de preencherem lacunas do conhecimento que servirão para responder as mais variadas perguntas, mirando as soluções definitivas. Contudo, até o momento, por não existirem respostas seguras das diversas ciências envolvidas, os países que apresentam os melhores manejos para controle do contágio e diminuição de mortes pela Covid-19, estão se amparando nas informações epidemiológicas.

No artigo ‘Brasil e Covid-19, uma história de cegueira epidemiológica’ — Jornal Grande Bahia” (ARAÚJO, 2020), o autor referia-se a importância do conhecimento dos aspectos epidemiológicos, porque considera uma arma fundamental para o controle da pandemia e o planejamento da retomada da economia, tendo em vista a ausência de outra solução, artigo publicado em 13 de abril de 2020.

O presente estudo relaciona-se com todas argumentações expostas anteriormente, reforçando a argumentação da importância da ciência epidemiológica no controle da Covid-19, propondo para isso os esclarecimentos de questões que guiarão os conhecimentos: Como se comportaram os dados epidemiológico dos Estados Unidos da América (EUA), da Alemanha e do Brasil? Como estão os entendimentos da epidemiologia dos países anteriormente citados?

Epidemiologia, arma fundamental contra a pandemia

Sem perspectivas de profilaxia e tratamento, reforçado pelas comunicações da OMS (WHO, 2020), os países de um modo geral entenderam que a melhor estratégia a ser adotada, até então, é conhecer a epidemiologia através de testes, exames que identificam o vírus. Quanto mais se coletar informações (exames) da população acometida pelo risco pandêmico, ter-se-ão melhores conhecimentos a respeito do agente infeccioso e como controlá-lo, por exemplo:  a) infecciosidade (transmissibilidade – (R0)), b) localização (áreas e focos da infecção), c) planejamento e execução de estratégias de controle e rastreamento do vetor, assim como d) Isolamento do individuo contaminado. Sem essas informações, todas as estratégias adotadas estarão as cegas.

Uma observação importante é estudar uma comunidade que esteja livre de documentações de casos relacionado a um processo infeccioso (Covid-19), e tenha os primeiros casos pandêmicos surgindo através da introdução por um vetor externo a comunidade. Os países que, prontamente, se atentaram para isso, recomendaram o isolamento social de imediato, com a finalidade de conhecimento epidemiológico focal dos casos, localização, fizeram o rastreamento com a realização de exames das pessoas localmente envolvidas, seguido de isolamento e contenção. Paralelamente, preparou-se o planejamento de contingenciamento baseado nas experiências de outras nações, não tardaram de conhecer os riscos pandêmicos.

De outro modo, nos países que desconsideraram em reconhecer os riscos pandêmicos e priorizaram as atividades econômicas, deixaram de perceberem a importância do controle epidemiológico em tempo hábil. Com isso, permitiu a introdução do agente infeccioso na comunidade de forma descontrolada, relevando os vários casos de subnotificações, no qual não se sabia a distribuição pandêmica comunal, somados a falta de avaliação através de exames e rastreio estratégico, deixaram completamente às cegas as medidas epidemiológicas para o controle pandêmico.

Quando se analisam as críticas sobre os países que tardaram o processo de isolamento social, checagem e rastreio dos casos, concluem que o “tempo” que se levou até conhecer e conter os focos de infecções, prejudicaram o desenvolvimento das estratégias epidemiológicas que é a melhor arma para a contenção do coronavírus, no momento. Em algumas nações quando foram observar isso, o vírus tinha saído de uma condução introdutória externa a comunidade a uma condição de transmissão dentro da própria comunidade, ou seja, estava espalhado em diversos focos, sem controle e às cegas pelo sistema de saúde.

Estratégias epidemiológicas, desespero e planejamento

A estratégia para combater o novo coronavírus, mesmo que tardia, não poderia ser outra como a de tentar identificar as zonas de infecção. Alguns países, a exemplo dos Estados Unidos da América (EUA), ao privilegiar as políticas econômicas, notaram a necessidade e importância do conhecimento epidemiológico, por esse motivo estão correndo contra o tempo e pagando um preço drasticamente elevado. Atualmente, os EUA é o país que apresenta o maior número absoluto de óbitos no mundo (“Worldometer Coronavirus”, 2020).  Mas, qual foi a estratégia adotada desde então para conter a disseminação do coronavírus pelos EUA?

A pergunta que inicialmente deve ser respondida é: Por que a escolha dos EUA como exemplo?

A resposta mais direta para essa questão é que pelas preocupações e direcionamento do país voltado a sustentabilidade econômica, não existiria exemplo melhor, documentado, para apresentar as consequências da demora das medidas de contenção do vírus.

Os EUA retardaram as medidas estratégicas epidemiológicas e os cidadãos pagam preços muito caro, com as suas próprias vidas. Mesmo após o entendimento que se deve ter das questões estratégias de contenção do vírus, aclarada pela corrida que o país está adotando para se ter o controle epidemiológico, existem sobretudo preocupações com a retomada precoce da economia, relevando os riscos de reinfecção e isolamento recalcitrante. Não se sabe ao certo sobre a eficácia da imunização coletiva e os riscos de reinfecção.

No dia 19 de março de 2020, os EUA (MARKOVITZ, 2020) ocupavam a 5º posição no mundo na realização de exames, com o total de 103.945.

No dia 13 de abril de 2020, o país liderava a quantidade de exames realizados no mundo com o total de 2.707.667 (ARAÚJO, 2020).

No dia 22 de abril de 2020, 15:03h, o Worldometer registrava 4.241.676, ou seja, quase o dobro de exames realizados.

Neste contexto, fica claro a corrida pelo conhecimento epidemiológico, assim como, o elevado custo econômico causado pelas superlotações das unidades de saúde e a parada sem planejamento das atividades econômicas, e o custo social causado pela grande quantidade de mortes que se acumulam. Reforçando a compreensão que a liderança estadunidense tem como maior preocupação a reabertura econômica.

De modo inverso, poderia citar outros países, contudo utilizando as bases do entendimento do artigo anterior, ‘Brasil e Covid-19, uma história de cegueira epidemiológica’ (ARAÚJO, 2020), publicado no Jornal Grande Bahia, o país modelo adotado foi a Alemanha.

Em 15 de março de 2020, a Alemanha (MARKOVITZ, 2020) ocupava a segunda colocação no mundo em quantidade de exames realizados, com 167 mil procedimentos.

Na segunda observação do dia 13 de abril de 2020 (ARAÚJO, 2020), a Alemanha tinha realizado 1.317.887 exames, ocupando a mesma posição.

No dia 22 de abril de 2020, às 15:03 horas, o Worldometer mostrava a Alemanha na terceira posição com 1.728.357 exames. As estratégias da Alemanha foram baseadas no isolamento social cedo, educação comunitária, muitos exames e um bom plano de contingenciamento.

Destaca-se que os EUA têm uma população bem superior ao da Alemanha, ou seja, corresponde a somatória da população de vários países da Europa. Então, se avaliarmos a quantidade de exames por milhão de habitantes, teríamos a seguinte relação: a) EUA com 12.815 exames por milhão, b) Alemanha com 20.629 exames por milhão. Conclui-se que, a média da Alemanha na realização de exames por milhão de habitantes é muito superior à dos EUA, reparando as proporções estatísticas.

Brasil, contexto atual

O Brasil e a relação com as “cegueiras” epidemiológicas (ARAÚJO, 2020) ainda não foram desfeitas. Os dados apontam mudanças muito pequenas, que pode ser avaliada na evolução da quantidade de exames observadas no mesmo período relacionados aos países nos exemplos anteriores:

– Dia 14 de março de 2020 (MARKOVITZ, 2020) – O Brasil ocupava a 14º posição com 2.927 exames realizados.

– No dia 13 de abril de 2020 (ARAÚJO, 2020) – estava na 39º posição com um total de 62.985 exames feitos.

– Dia 22 de abril de 2020, 15:03 h, o Worldometer registrava a posição número 16º com um total de 291.922 exames realizados.

Quando se avalia a quantidade de exames por milhão de habitantes, que realmente mostra a distribuição estatística de possível comparação com outras nações, o Brasil ocupava a posição 123º (ARAÚJO, 2020), e no dia 22 de abril de 2020, encontrava-se na 114º posição no ranking, com 1.373 exames por milhão de habitantes, quantidade de exames muito abaixo no comparativo com as outras nações tiradas como exemplos. Destacando, ainda, que os exames não têm a configuração estratégica, atendendo somente os casos altamente suspeitos, ou seja, cegueira epidemiológica.

Conclusão

Conclui-se que, na ausência de soluções profiláticas e medicamentosas, a maior ferramenta que existe no momento para lidar com a pandemia de Covid-19 é a epidemiologia. Os países que estão correndo atrás desse entendimento para conter a epidemia e planejar a reabertura da economia, estão procurando conhecer melhor os aspectos epidemiológicos. O intuito é de controlar a pandemia e evitar novos ciclos pandêmicos, ondas de reinfecções e de isolamentos social. Por essa razão, sem os esclarecimentos epidemiológicos necessários, falam-se sobre a possibilidade de reabertura econômica de forma muito cautelosa e observacional, tendo vista que as respostas para questionamentos fundamentais da epidemiologia estão longe de ser concluídas.

No Brasil, além da “cegueira” epidemiológica, a falta de dados precisos que causam falsa sensação de segurança, o não entendimento de que é por conta das medidas de isolamento que estão “controlando” a incidência de contaminação, somados as pressões sociais e governamentais que tentam resolver o problema em saltos e sem planejamentos forçando a reabertura da economia, aumentam demasiadamente os riscos de altos picos de infecção e novos ciclos pandêmicos. Caso afirme esse direcionamento, o cenário futuro poderá ser muito pior, pago com o preço de vidas e a destruição da economia.

Os movimentos idiossincráticos sociais que pregam a negação da realidade, existem há muito tempo, contudo, começam a perder folego, agora sufocado pela realidade da contaminação viral ascendente.

*Ângelo Augusto Araújo (angeloaugusto@me.com), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Referências

ARAÚJO, Ângelo A. Brasil e Covid-19, uma história de cegueira epidemiológica | Por Ângelo Augusto Araújo | Jornal Grande Bahia (JGB), portal de notícias com informações de Feira de Santana e Salvador. Disponível em: <https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/brasil-e-covid-19-uma-historia-de-cegueira-epidemiologica-por-angelo-augusto-araujo/>. Acesso em: 22 abr. 2020.

CHADE, Jamil. Covid-19: OMS já considera que, sem vacina, isolamento ditará sociedade pós-pandemia. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/04/24/coronavirus-nova-rotina-apos-pandemia.htm>. Acesso em: 24 abr. 2020.

MARKOVITZ, Gayle. To test or not to test? Two experts explain COVID-19 testing | World Economic Forum. Disponível em: <https://www.weforum.org/agenda/2020/04/to-test-or-not-to-test-2-experts-explain-covid-19-testing/>. Acesso em: 22 abr. 2020.

MCCAFFREY, Darren. Analysis: The search for a COVID-19 vaccine | Euronews. Disponível em: <https://www.euronews.com/2020/04/23/analysis-the-search-for-a-covid-19-vaccine>. Acesso em: 24 abr. 2020.

REYNOLDS, Emma. Anti-vaxxers: Coronavirus is changing some minds about vaccinations – CNN. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2020/04/20/health/anti-vaxxers-coronavirus-intl/index.html>. Acesso em: 22 abr. 2020.

WHO. Laboratory testing strategy recommendations for COVID-19. WHO, 2020. Disponível em: <https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/331509/WHO-COVID-19-lab_testing-2020.1-eng.pdf>. Acesso em: 22 abr. 2020.

WILLIAMS, David. Health care workers face anti-lockdown protesters in dramatic photos – CNN. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2020/04/20/us/coronavirus-colorado-health-care-trnd/index.html>. Acesso em: 22 abr. 2020.

Worldometer Coronavirus. Disponível em: <https://www.worldometers.info/coronavirus/>. Acesso em: 12 abr. 2020.

[1] Estudos acreditam que as vacinas somente estarão disponíveis no final de 2021 (MCCAFFREY, 2020; CHADE, 2020)

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Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: angeloaugusto@me.com), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.