Coronavírus: Crise sanitária deve provocar reflexão estrutural sobre sobrevivência humana

Ilustração de área desmatada da Amazônia.

Área desmatada da Amazônia.

Enquanto a pandemia de Covid-19 já causou 46.000 mortes no mundo, Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, disse na quarta-feira (01/04/2020) que o planeta estava passando pela “pior crise global desde a fundação das Nações Unidas, há 75 anos”. Curioso é que no momento em que a humanidade atravessa tempos difíceis, o planeta pode respirar. Aviões imobilizados nos aeroportos, eventos cancelados, viagens proibidas, fábricas fechadas: o novo coronavírus leva a economia global à recessão, mas seu corolário é a queda nas emissões de gases de efeito estufa. A catástrofe na saúde é uma bênção ambiental.

Em fevereiro, as emissões de CO2 da China caíram 25%, ou seja, 200 milhões de toneladas, em comparação com o mesmo período de 2019, segundo o Centro de Pesquisa de Energia e Ar Puro (CREA). Essa queda é equivalente às emissões anuais de CO2 da Argentina, do Egito ou do Vietnã.

Em vários países, pessoas já respiram melhor graças à redução da poluição do ar. Em fevereiro de 2020, a concentração de dióxido de nitrogênio, produzido principalmente por veículos e usinas termelétricas, caiu drasticamente na cidade chinesa de Wuhan, berço da epidemia na China: de vermelho alaranjado, o mapa de emissões ficou azul.

O mesmo fenômeno foi observado no início de março pela Agência Espacial Europeia, no norte da Itália, uma área confinada por várias semanas para combater a propagação da doença. Isso também ocorre em Madri e Barcelona, ​​segundo a Agência Europeia do Meio Ambiente. Outros efeitos positivos são visíveis. Em Veneza, a água ficou clara com o fim do incessante balé de barcos lotados de turistas.

Mas para a pesquisadora Joeri Rogelj, que contribui com seus trabalhos para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ainda não é aconselhável declarar vitória: a recuperação ecológica terá vida curta. “As reduções de emissão ligadas ao coronavírus não são estruturais. Eles desaparecerão assim que o transporte de mercadorias e pessoas for restabelecido após a epidemia”, prevê.

Como sair do automatismo?

Os países já estão fazendo o possível para reiniciar a produção e retomar o comércio. O Banco Central dos Estados Unidos já cortou taxas para estimular a economia da maior potência capitalista do planeta. Washington não quer perder de jeito nenhum esta liderança. Os países do G7, as economias mais ricas do mundo, estão prontos para tomar medidas orçamentárias. Pequim planejou um grande plano de apoio para pequenas e médias empresas, com facilidades de crédito.

Em 2008 e 2009, a crise financeira internacional foi seguida por “uma forte recuperação [nas emissões de CO2] por causa das medidas de estímulo do governo”, lembra Glen Peters, especialista em clima no centro de pesquisa Cicero.

A crise do coronavírus, “um exemplo típico de crise ecológica”

A causalidade entre crise ecológica e coronavírus está agora comprovada. “A probabilidade da Covid-19 ter surgido em um vírus de morcego é de 98%”, explicou o ecologista da saúde Serge Morand, diretor de estudos no Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), nas colunas do jornal Libération, no dia 26 de março de 2020. No entanto, o coronavírus de morcego não é transmissível aos seres humanos: a estrutura de seu genoma deve evoluir para poder entrar nas células humanas. A mutação, portanto, ocorre mais frequentemente por meio de outras espécies animais, que assumem a função de passarelas, tornando o vírus compatível com os seres humanos. No caso do novo Sars-CoV-2, o vírus responsável pela Covid-19, parece que foi o pangolim que permitiu essa humanização.

Onde a responsabilidade humana está envolvida é que a destruição da biodiversidade aumenta o risco de uma epidemia. “Se desmatamos e urbanizamos, os animais selvagens perdem seu habitat e isso promove seu contato com animais domésticos e humanos”, resume Serge Morand. O fato de vírus que até agora permaneciam em morcegos na Ásia chegarem aos seres humanos é novo e está diretamente ligado à sua perda de habitat, o que os aproxima dos animais domésticos.

“Desde a década de 1960, mais e mais epidemias atingiram seres humanos, animais e plantas – e com a interconexão entre países aumentando, essas epidemias rapidamente se tornam pandemias. Com a globalização, todas as condições são favoráveis ​​à explosão de epidemias: perda da biodiversidade, industrialização da agricultura e aumento do transporte de mercadorias e pessoas”, adverte o especialista.

Para evitar novas crises como a do coronavírus, que segundo Serge Morand “é o exemplo típico de uma crise ecológica”, a humanidade deve, portanto, admitir que a saúde e até a civilização humana só podem ser mantidas com ecossistemas funcionais. “Para isso, temos que recuar na globalização e rapidamente!”, defende o ecologista. “Preservar a biodiversidade repensando a agricultura.”

Uma consciência necessária

Para a socióloga ambiental Séverine Durand, que trabalha nas relações entre sociedades e mudanças ambientais, as condições atuais estão propícias à conscientização.

“Mesmo se ainda não sabemos a extensão do desastre, já sabemos que estamos em uma recessão equivalente à de 2008, ou pior ainda”, explicou ela à RFI. A globalização como a conhecemos não é mais economicamente viável. Na França, já começamos a perceber as falhas em nosso sistema: hipermobilidade, economia globalizada, interdependência. Vimos isso, por exemplo, com a escassez de certos medicamentos fabricados na China.

“Mas, globalmente, ela admite, a conscientização ambiental colide com pesos pesados ​​como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil.

“Para que haja uma mudança estrutural global, seria necessário que todos esses negacionistas climáticos, de Trump a Vladimir Putin, se sentassem juntos à mesa e concordassem em lutar contra a crise ecológica. Ainda estamos longe disso!”.

No momento, dois cenários são possíveis, segundo a socióloga.

“Um cenário otimista seria o fim da agricultura estruturada como agronegócio e o retorno à produção local, acompanhada de uma transição energética real, ou seja, um renascimento “verde” após a recessão econômica que começa. Mas pode persistir um cenário pessimista, ancorado no “capitalismo sem limites” e na destruição da biodiversidade.”

Ao final de cada epidemia, nas últimas décadas, a escolha recaiu sobre o cenário pessimista. Na Tailândia, por exemplo, em resposta ao vírus da influenza aviária H5N1, raças locais de galinha caipira foram massacradas e substituídas por aves geneticamente modificadas, de produção confinada. Essa política foi promovida pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que lamenta, no entanto, o desaparecimento de 30% das raças de galinha desde o início do século XX.

Apesar disso, a socióloga Séverine Durand ainda quer acreditar no cenário otimista.

“Essa crise do coronavírus pode ser, para nós, a oportunidade de interromper a letargia ante a destruição do meio ambiente e de encontrarmos energia para mudar de paradigma”, afirma. A luta contra a crise ecológica, lembra a socióloga, não é uma questão moral ou ideológica: deve ser apenas a expressão do nosso instinto de sobrevivência.

*Com informações de Marine Jeannin, da RFI.

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