Brasil x Covid-19, a gestão pública na contramão da epidemiologia | Por Ângelo Augusto Araújo

Artigo analisa casos confirmados de Covid-19 nos Estados Unidos, Alemanha e Brasil.Artigo analisa casos confirmados de Covid-19 nos Estados Unidos, Alemanha e Brasil.
Artigo analisa casos confirmados de Covid-19 nos Estados Unidos, Alemanha e Brasil.

Artigo analisa casos confirmados de Covid-19 nos Estados Unidos, Alemanha e Brasil.

Dados apontam que em diversas localidades brasileiras estão ocorrendo relaxamento nas medidas de isolamento social, permitindo a população retornar as atividades rotineiras dentro de uma falsa sensação de segurança. Alguns gestores públicos passam uma atmosfera de normalidade, traduzido pela população que a pandemia está controlada e que, caso ocorra um pico pandêmico “inesperado”, o plano de contingenciamento está bem estruturado para absorver a grande demanda de atendimento nas unidades de saúde. Contudo, não é essa a realidade que os dados epidemiológicos traduzem.

As medidas de isolamento social foram de fundamentais importâncias para o controle do crescimento da curva de registro de novos casos. O não entendimento por parte dos gestores que, de certa forma, induz a população aceitar essa condição de aparente “normalidade”, expõem os cidadãos a riscos desmedidos, o que poderão ser questionados no futuro. Em algumas unidades da federação, mesmo considerando as subnotificações, os registros de novos casos da Covid-19 são muito pequenos, contudo, demonstram-se em ascendência. Sabendo da alta infecciosidade, transmissibilidade, do agente infeccioso, do descontrole epidemiológico das medidas de rastreamento, das barreiras sociais debatidas e das interligações municipais e interestaduais que são portas de difícil controle para o trânsito do vetor, questiona-se: Baseado em quais argumentações estão sendo estruturadas os relaxamentos de isolamento social?

No Brasil (CORONAVÍRUS / BRASIL, 2020), no dia 26/02/20 existia 01 caso notificado da Covid-19, no dia 16/03/20 eram 234 casos, e no dia 26/04/20 eram 61.888 casos. Desde o registro do “primeiro” caso em fevereiro, ocorreu um crescimento exponencial significante, mesmo com as medidas de “isolamento social” parcialmente adotadas, pergunta-se: No momento, não existem profilaxias por vacinas e nem medicamentosa, caso não fossem adotadas as medidas de isolamento social, quais seriam as estatísticas?

Em artigos anteriores (ARAÚJO, 2020), o autor relata a importância da epidemiologia para as tomadas das decisões. Demonstra que os aspectos das tomadas de decisões, baseada na ciência epidemiológica, terão que seguir um roteiro de conhecimento do comportamento das doenças, e, somente só após essa condição, será possível orientar o caminho a ser seguido. Alguns gestores que não estão adotando essa conduta, não deixam claros os mecanismos que estimulam os seus direcionamentos.

A epidemiologia que é atualmente a melhor ferramenta para guiar o sistema de saúde, especificamente no caso do Brasil, aponta para uma decisão contrária ao fim do isolamento social e mantém foco no plano de contingenciamento.

Nos países que as ferramentas epidemiológicas começam a demostrar padrões de controle da pandemia, mesmo assim, os gestores demonstram-se céticos, o que se pode observar em declarações como a da primeira ministra da Alemanha, Angela Merkel, que relaciona a condição de reabertura com está pisando em uma “camada fina de gelo” (PLEITGEN, 2020). E impõem sansões duras para os grupos que se opõem as medidas de isolamento social (EURONEWS, 2020). Na Inglaterra, a posição do primeiro ministro Boris Johnson é semelhante (WILLIAMS, 2020), mesmo as curvas epidemiológicas sinalizando a queda do registro de novos casos e da taxa de mortalidade. Nos Estados Unidos da América (EUA), mesmo focado na corrida por realizações de exames e rastreio que ainda não sinaliza controle da curva de contágio, existem pensamentos relacionados com preocupações econômicas que ofuscam os objetivos concretos do controle pandêmicos, contudo ainda não saíram do papel, porque a epidemiologia ainda não esboça segurança para que execute essas medidas.

Após ter elencado todas essas argumentações, reforçadas pelos sinais de alerta da OMS (EL PAÍS, 2020), baseado em quais fundamentações os gestores de saúde de algumas unidades da federação estão rompendo com o isolamento social e expondo a população a riscos desmedidos? Desafortunadamente, o objetivo desse artigo não terá o alcance de responder essa questão, contudo, propõe-se a avaliar as bases de dados epidemiológicas que afirmam um direcionamento contrário a essa postura.

Cenário epidemiológico resumido: EUA e Alemanha

Mantendo a base das avaliações anteriores relacionados aos países como amostras comparativas (ARAÚJO, 2020), está sendo proposto nesse artigo a análise gráfica logarítmica das curvas de Casos totais Registrados e curva do Total de Mortes por Covid-19, assim como a análise de tendência observacional [1] dos gráficos de barras relacionados com o registros da quantidade de Novos Casos e o número Diário de Mortes. Serão desconsiderados os casos de subnotificações e as bases de dados analisadas estarão vinculadas as fontes do John Hopkins University[2] e Worldometer[3].

Em gráficos capturados as 11h do dia 28/04/2020, a situação dos EUA:

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 nos EUA, nesta terça-feira (28/04/2020).

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 nos EUA, nesta terça-feira (28/04/2020).

Nos gráficos acima que relacionam as estatísticas dos Estados Unidos levantadas, mostram que, devido a corrida e ao esforço para conhecer a epidemiologia, as curvas observadas, assim como os gráficos de barras, demonstram uma tendência de estabilização com formação de um platô que ainda precisa está melhor esclarecido em dados das próximas semanas.

No caso da Alemanha, os gráficos capturados no dia 28/04/20, as 11h, demonstraram as seguintes realidades:

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 na Alemanha, nesta terça-feira (28/04/2020).

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 na Alemanha, nesta terça-feira (28/04/2020).

O platô que pode ser considerado como achatamento da curva de contágio, está melhor definido, confirmado pela diminuição absoluta de novos casos registrados no gráfico diário de barras, que anuncia uma tendência de baixa. De outro modo, quando se observa os dados do gráfico que relaciona a quantidade total de morte, como observado nos EUA, ainda existe uma tendência de crescimento e leve estabilização, contudo, quando somado a observação no gráfico de barras, mortes diárias, existe uma ausência de tendência clara, sugerindo a estabilização.

Brasil, cenário resumido

Utilizando os mesmos parâmetros citados para o Brasil, observam-se:

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 no Brasil, nesta terça-feira (28/04/2020).

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 no Brasil, nesta terça-feira (28/04/2020).

Todos os gráficos, sem exceção, demonstram uma tendência de crescimento tanto do número de casos novos como no número de óbitos. Nenhum gráfico observado ainda esboça a formação de platô, o que poderia pensar em um controle epidemiológico.

Brasil, a fundamentação epidemiológica

Baseado em todas as informações por esse artigo levantadas, demonstrando que Alemanha fundamentou o seu planejamento de reabertura gradual em questões epidemiológicas cientificamente amparadas (ARAÚJO, 2020). As quais podem ser observadas a formação de um platô, ou achatamento da curva, de casos totais da Covid-19, assim como, o esboço da formação desse platô no controle total de mortes, que sugere um planejamento de contingenciamento evoluindo para eficiência e eficácia. Contudo isso, a primeira ministra Angela Merkel sente-se ainda pisando em “gelo fino” (PLEITGEN, 2020).

No Brasil, as evidências que deixam claro o crescimento das curvas que retratam a incidência de novos casos, descontrole epidemiológico, somados a baixa notificação, cegueira epidemiológica (ARAÚJO, 2020), que expõe a população ao risco de contágio, associado a tendência crescente do número de mortes, que pode ser relacionadas as unidades de saúdes deficientes, não autoriza, do ponto de vista epidemiológico, a reabertura de qualquer unidade da federação que não demonstre um padrão sugestivo de controle.

Conclusão

Conclui-se que, sob a óptica médica, utilizando a epidemiologia como ferramenta de controle pandêmico, na ausência de medidas profiláticas (vacinas) e medicamentosas que assegure a saúde dos cidadãos, os planejamentos de reabertura da economia do Brasil, mesmo que de forma gradual e em algumas unidades da federação, não mostram transparências fundamentadas nos princípios epidemiológicos. Apesar dos aconselhamentos sociais do uso de máscaras, asseios das mãos e distanciamento social, as barreiras causadas pelas desigualdades sociais e culturais, assim como os níveis de instrução educacional, não garantem que os instrumentos de checagem e controle das ações impostas pelos gestores terão os resultados alcançados. O que vemos, em países que esboçam os mesmos problemas [4] vêm tentando encontrar soluções alternativas para que os ciclos pandêmicos não se tornem recidivantes e devastadores, tanto para a economia e, principalmente, por tirar vidas humanas.

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

Referências

ARAÚJO, Ângelo A. Covid-19: Epidemiologia, o caminho da Salvação. Disponível em: <https://www.jornalgrandebahia.com.br/?s=Ângelo+and+covid+19>. Acesso em: 28 abr. 2020.

BERLINGER, Joshua. Hong Kong’s cage homes are almost impossible to self-isolate in – CNN. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2020/04/25/asia/hong-kong-social-distancing-coronavirus-intl-hnk/index.html>. Acesso em: 28 abr. 2020.

CORONAVÍRUS / BRASIL. Coronavírus Brasil. Disponível em: <https://covid.saude.gov.br/>. Acesso em: 28 abr. 2020.

EL PAÍS. La OMS advierte de que un desconfinamiento precipitado puede tener un “impacto mayor” en la economía | Sociedad | EL PAÍS. Disponível em: <https://elpais.com/sociedad/2020-04-27/el-director-general-de-la-oms-el-mundo-deberia-habernos-escuchado.html>. Acesso em: 28 abr. 2020.

EURONEWS. German police arrest over 100 during anti-lockdown protest | Euronews. Disponível em: <https://www.euronews.com/2020/04/25/german-police-arrest-over-100-during-anti-lockdown-protest>. Acesso em: 28 abr. 2020.

PLEITGEN, Frederik. Merkel warns Germany is on the “thinnest ice” as Europe realizes social distancing is here to stay – CNN. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2020/04/23/europe/merkel-coronavirus-social-distancing-europe-intl/index.html>. Acesso em: 28 abr. 2020.

SILVEIRA, Evanildo. Coronavírus: esgoto pode ser via de contágio, indicam estudos – BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52143119>. Acesso em: 28 abr. 2020.

WILLIAMS, Zoe. Boris Johnson’s message to Britain on the lockdown is “trust us”. Why should we? | Zoe Williams | Opinion | The Guardian. Disponível em: <https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/apr/27/boris-johnson-message-britain-lockdown-trust-us-coronavirus>. Acesso em: 28 abr. 2020.

[1] Análise estatística observacional, a análise estatística por regressão linear poderá ser realizada.

[2] Base de dados que podem ser consultadas no site: https://www.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/bda7594740fd40299423467b48e9ecf6

[3] Base de dados que podem ser consultadas no site: https://www.worldometers.info/coronavirus/

[4] Problemas com a distância social em Hong Kong (BERLINGER, 2020). Riscos de esgotos sanitários ser fontes de contaminação pelo coronavírus (SILVEIRA, 2020)

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 na Alemanha, nesta terça-feira (28/04/2020).

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 na Alemanha, nesta terça-feira (28/04/2020).

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 nos EUA, nesta terça-feira (28/04/2020).

Infográfico registra casos confirmados da Covid-19 nos EUA, nesta terça-feira (28/04/2020).

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About the Author

Ângelo Augusto Araújo
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.