Brasil e Covid-19, uma história de cegueira epidemiológica | Por Ângelo Augusto Araújo

Dados utilizados na pesquisa revelam baixo número de exames por habitante, na verificação de casos de infeção pelo novo coronavírus no Brasil.
Dados utilizados na pesquisa revelam baixo número de exames por habitante, na verificação de casos de infeção pelo novo coronavírus no Brasil.
Dados utilizados na pesquisa revelam baixo número de exames por habitante, na verificação de casos de infeção pelo novo coronavírus no Brasil.
Dados utilizados na pesquisa revelam baixo número de exames por habitante, na verificação de casos de infeção pelo novo coronavírus no Brasil.

Domingo de Páscoa, 12 de abril de 2020, às 13:04 horas, o Worldometer** registrava ocorrência, no mundo, de 1.804.748 notificações de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, destes, 110.876 era o número de mortes relacionadas com a infecção, enquanto outros 412.529 casos representavam o número de recuperados, pessoas que receberam alta médica. Os dados revelavam que em 1.281.343 de casos as pessoas apresentavam algum nível da infecção, sendo que em cerca de 96% dos casos, elas estavam em estado leve da condição de saúde, enquanto outros 4% estavam em estado sério a crítico.

Segundo dados do Worldometer, do mesmo domingo, às 12:51 horas, o Brasil registrava 21.042 casos de pessoas infectadas, destes infectados, 1.144 pessoas haviam morrido, enquanto apenas 173 pessoas conseguiram receber alta médica. Neste cenário, 19.725 pessoas encontravam-se com a infecção ativa e, destes, 99% dos infectados estavam em condição leve, enquanto 1% em situação grave.

Apesar da desproporção comparativa relacionada a quantidade de casos,  os dados do Brasil não se distanciavam da média mundial. Contudo, ao observar a sequência dos dados estatísticos, no mesmo momento documentado, a respeito dos casos concluídos, desfecho final (pessoas que se recuperaram em ambientes diversos, ou tiveram alta, ou morreram),  a estatística analítica descritiva demonstrava uma diferença alarmante, no mundo haviam 79% de pessoas recuperadas e 21% de mortes. No Brasil, os casos  concluídos eram de aproximadamente 88% de mortes e 12% de recuperação relacionados a infecção pelo novo coronavírus.  Permitindo, com isso, a observação da existência de uma relação inversa quando comparado os dados do Brasil e os dados mundiais.

Considerando os dados analisados, a relação inversa apresentada pela estatística dos casos concluídos, quando comparado aos dados mundiais, acrescido da ausência de esclarecimentos que favoreçam respostas mais completas do que está ocorrendo epidemiologicamente no Brasil e somada a afirmação de Luiz Henrique Mandetta, Ministro da Saúde (MS), que declarou em entrevista coletiva de que existe significativo número de casos de infecção pelo novo coronavírus subnotificado, são apresentados três questionamentos que fundamentam o presente artigo:

  1. É possível supor que a subnotificação revela um descontrole epidemiológico no Brasil?
  2. Verificando que os dados epidemiológicos do Brasil apresentam inconsistência, como serão feitos os planejamentos de contingenciamentos e retorno das atividades econômicas, em cada unidade da federação?
  3. Como estão sendo realizados os fluxos e protocolos dos atendimentos e condutas das unidades de saúde do Brasil?

O Brasil, no mundo

Com base nos dados relatados, infere-se que o Brasil se encontrava na 14º posição com relação ao número de pessoas infectadas no mundo, sendo o 10º colocado entre os casos ativos e o número 1 em quantidades de casos na América Latina. O país ocupa a 15º posição no mundo de casos sérios a críticos e quanto ao número de mortes notificadas, está na 11º posição.

Em síntese, o Brasil pontua em uma escala mundial, estando na 61º posição dos casos recuperados e 39º na quantidade de exames realizados, com registro de apenas 62.985 procedimentos. Neste aspecto, aparecem nas três primeiras posições os Estados Unidos da América (EUA), com 2.707.667 exames; Alemanha, com 1.317.887 e a Rússia, com 1.200.000 exames realizados.

Os dados revelam que o Brasil, com uma população estimada em 212.233.702, tem uma quantidade de 296 exames por cada milhão de habitantes, ocupando, com isso, a 123º colocação no ranking mundial, quando observado a quantidade de exames realizada por milhão de habitantes.

A análise dos dados indica a ausência da quantidade de exames necessários para o tamanho da população do Brasil e reflete um completo obscurecimento epidemiológico, cegueira, que compromete o planejamento de contingenciamento e remodelamento para retomada da economia do país.

Observa-se que a análise estatística do quadro epidemiológico do Brasil revela falhas graves de registro dos casos de infectados e de óbitos, o que enseja falhas nas projeções de ações do Ministério da Saúde e, por consequência, dos governos estaduais e municipais.

No caso da Espanha, alguns sanitaristas epidemiologistas propõem que, devido a escassez de recursos e exames, o planejamento mínimo poderá ser realizado cientificamente com base em um estudo amostral, aleatório, das unidades federativas, para que, desta forma, possa apresentar uma “realidade amostral” e orientar um efetivo planejamento.

Subnotificação e o descontrole epidemiológico

Em síntese, 1) É possível supor que a subnotificação revela um descontrole epidemiológico no Brasil?A subnotificação é uma realidade indiscutível e a realidade do Brasil é diversa do que está sendo posta. A quantidade de exames realizados afirma isso. O próprio MS destaca enorme dificuldade em atender a significativa demanda de exames e os exames que estão sendo realizados objetivam atender somente as urgências (detectar os casos altamente suspeitos), desconsiderando a finalidade objetiva do planejamento epidemiológico de contingenciamento e remodelagem para retomada da economia.

2) Verificando que os dados epidemiológicos do Brasil apresentam inconsistência, como serão feitos os planejamentos de contingenciamentos e retorno das atividades econômicas, em cada unidade da federação? Em parte, a resposta anterior contempla esse questionamento, contudo para ampliar a resposta poderia se dizer que, como está sendo conduzido atualmente as questões epidemiológicas e o entendimento que se tem, a maneira mais direta de responder é: ÀS ESCURAS.

O Brasil é um país diverso, como os outros países do mundo, entretanto, não é possível desconsiderar as experiências vividas pelos outros países, contudo os modelos de contingenciamento e retomada da economia ainda são muito incertos, pois as perguntas diversas da epidemiologia estão ainda para serem respondidas, como por exemplo:

a) Qual é a realidade estatística do Brasil? Não se sabe.

b) Após o contato com o vírus, é possível a reinfecção e imunização? Não se sabe de certo, os estudos ainda não são conclusivos.

c) Qual índice de infecciosidade, ou seja, transmissibilidade (R0), será aplicado para calcular a possibilidade de infecção em um país diverso e de dimensão continental? Esse índice tem variado de 2,4 a 4,0, apontam as diversas pesquisas sobre os casos de infecção pelo novo coronavírus. Não existe resposta.

d) Entre outras questões epidemiológica temos a nossa destacada desigualdade social, pessoas vivendo sem as mínimas condições sanitárias e de sobrevivência, além da grande barreira educacional. Como será o enfrentamento do problema nas diversas comunidades? Sem resposta definida.

e) Como serão planejados os controles dos vetores (pessoas que podem transmitir a infecção, por exemplo caminhoneiro) intermunicipal e interestadual? Não há ainda resposta.

3)  Como estão sendo realizados os fluxos e protocolos dos atendimentos e condutas das unidades de saúde do Brasil? Neste item é questionado os protocolos de atendimento nas unidades de saúde, sendo um dos mais polêmicos a serem respondidos. Neste estudo, a análise dos dados não permite extrapolar as conclusões sobre essa resposta. Contudo, o que se observa é que a maioria dos médicos, 78% segundo o estudo realizado pelos Ipsos, acreditam que as unidades de saúde não estão preparadas para lidar com o Coronavírus. Para essa pergunta, também, a resposta será colhida pela pessoa que desafortunadamente se infectar e procurar um serviço de saúde.

Exemplo de enfrentamento à pandemia

A estatística analítica dos dados levantados, até o momento, indicam que o modelo de enfrentamento da pandemia de Covid-19, que apresenta uma das melhores efetividade em salvar vidas e controle epidemiológico da infecção, é o da Alemanha.

A Alemanha está fortalecendo a retaguarda do sistema de saúde, com informações sanitárias para população, assim como investindo no contingenciamento adquirindo equipamentos de suporte e ampliando as unidades de saúde, enfatizando o distanciamento social e uso de proteção e, principalmente, realizando testes laboratoriais estratégicos e em grande quantidade para se ter o conhecimento da realidade, ou seja, sair da cegueira epidemiológica. Assim como, está procurando responder os questionamentos aqui levantados e investindo no desenvolvimento de pesquisas e tecnologia para combater o vírus. Fala-se da gradual retomada da economia  na Alemanha, pois é um dos países que melhor demonstra estar preparado para o enfrentamento de um novo ciclo epidêmico de Covid-19 que por ventura possa ocorre, mesmo assim a retomada da economia está sendo planejada de forma bem cautelosa.

O que se observa no Brasil, na grande maioria das vezes, é uma fórmula antiga adotada para a situação de enfrentamento dos problemas, maneira que é destacada entre os gestores, conhecida como: Urgência. Ou seja, procura-se resolver quando os problemas estouram e se tornam urgentes. Eles tentam solucioná-los de qualquer maneira sem um adequado planejamento. Então, a realidade aclarada pela relação estatística inversamente observada dos casos concluídos, Brasil versos Mundo, refletem o nosso estado organizacional para conduzir as mais diversas situações.

Aprendi que o vírus era uma coisa e não preenchia os conceitos para ser considerado um ser vivo, era entendido como um ser primitivo. Hoje, compreendo que é um ser primitivo por parasitar e destruir vidas, mas evoluído no sentido de criar defesas que dificultam a destruição da espécie. O que aprenderemos com os vírus?

*Ângelo Augusto Araújo ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.

** O Worldometer é uma ferramenta séria, alimentado por inúmeras instituições, inclusive órgãos dos governos de cada país, tem na sua declaração de fundação a imparcialidade política e o seu compromisso com a ciência, declarando ainda que podem ocorrer pequenos erros temporais de notificações dos dados, decorrentes da fonte de alimentação. Para maiores informações consultar: (https://www.worldometers.info/coronavirus).

Dados apresentados nas tabelas indicam, na comparação com a média mundial, a baixa performance do Brasil no combate a pandemia de Covid-19.
Dados apresentados nas tabelas indicam, na comparação com a média mundial, a baixa performance do Brasil no combate a pandemia de Covid-19.
Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.